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21.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXIV

 



Pouco depois, toda a família se dirigiu à igreja, para a celebração da Paixão e Morte do Senhor e Adoração da Cruz. Quando criança e adolescente, Gonçalo e a irmã sempre acompanhavam os pais nessas cerimónias que em Braga a Semana Santa sempre se vive com muita intensidade. 

Porém há muitos anos deixara de o fazer. Todavia na véspera acompanhara a família às cerimónias e quando estas terminaram,  a filha quisera que ele fosse conhecer a maravilhosa e histórica vila de Alpedrinha, e Gonçalo convidara Helena a acompanhá-los. Ele sabia que haviam decisões a tomar e precisavam ter uma conversa séria sobre o futuro próximo.

 Contudo era algo que não podia fazer na presença da filha e assim decidiu-se a apreciar a visita à vila que desconhecia. Encantou-se com o Palácio do Picadero, cuja construção datava do século XVIII, surpreendendo-se com o telhado de vidro numa construção de enormes blocos de granito. 

Helena explicara-lhe que o maravilhoso edifício devia o seu nome ao pátio por onde atualmente se entra, que fora nos seus tempos iniciais quando os automóveis nem sequer ainda eram um sonho, o sitio onde se domavam os cavalos denominado como Picadero. 

Acrescentara que embora na atualidade o palácio seja um espaço de cultura, fora em tempos pertença de vários donos que lhe deram as mais variadas utilizações desde um tribunal a um hospital e até uma tipografia de jornal.

E ali quase ao lado do palácio, o belíssimo chafariz de três bicas em granito, denominado chafariz D. João V, por ter sido mandado construir por este rei em 1714, era outra obra de arte que merecia as fotos que ele tirara para mostrar à irmã.

Encantou-se com a calçada romana e admirou a Igreja Matriz com os seus sete altares e o órgão de tubos. Helena conhecia em profundidade a história da vila, talvez por ser a localidade mais próxima da quinta dos seus pais e transmitira esse conhecimento à filha, ele deduziu, pelas interrupções e pequenos comentários que Matilde ia fazendo sobre o que iam vendo.

Mais tarde, acabaram lanchando num café local,  e depois voltaram à quinta, onde Helena se apressou a ajudar a mãe na cozinha enquanto Matilde o arrastava para o seu quarto a fim de lhe mostrar o seu boletim de notas do segundo período.

O jantar decorreu animado, e pouco depois foram dormir pois o sábado seria um dia muito atarefado com os preparativos para o Domingo de Páscoa e a preparação para a Visita do Senhor que o padre faria à tarde. Ele dormira no quarto, que segundo Helena lhe dissera, era o quarto de Rita, a sua grande amiga e madrinha da filha, que ele ainda não conhecia. 

De manhã, após o pequeno almoço, ele e Helena tiveram enfim um tempo a sós, para a tal conversa sobre o futuro.


11.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XVIII

 




- Queres dizer que ela é a mulher que procuro?

-Nada disso! Estou apenas a raciocinar em voz alta. E dizes que a criança é parecidíssima com a Laura? Que idade tem essa menina? Viste a data de nascimento?

-Claro. Faz em Maio, treze anos. Não estás a pensar que essa criança pode ser minha, estás?

-Porque não? Eu estava presente no hospital, quando o Ricardo te perguntou se continuavas apaixonado por aquela jovem, e falou de como vocês passaram as férias grudados um no outro.

-Não! Tu conheces-me. Eu nunca seria irresponsável ao ponto de engravidar uma jovem, quando ainda não tinha condições de casar com ela. De certeza tomei precauções para que isso não acontecesse.

 -Tu és médico. Sabes melhor que ninguém que não há nenhum método cem por cento infalível. Essas coisas acontecem. Pensa no que aconteceu com a tua irmã. Pensas que ela queria engravidar naquela altura?

 - Mas como é possível, se houve uma paixão tão intensa assim, eu continuar a não me lembrar dessa época?

- É possível! O nosso cérebro, é um enorme armazém, cheio de milhares e milhares de memórias. Elas não são todas guardadas da mesma maneira. Há milhares de coisas que vivenciamos um dia e que nunca mais recordamos porque o nosso cérebro as arquiva como sem importância, outras que recordamos durante uma época e outras que recordamos toda a vida, porque elas são arquivadas em diversos zonas consoante a importância que lhes damos nos momentos em que as vivemos. Não te vou falar dos vários tipos de amnésia, porque já falámos disso há bastante tempo e tenho a certeza que tens investigado todas, suas causas e sintomas. Sabes que quando a amnésia é provocada por um trauma psicológico, stress, ou álcool ela pode terminar em qualquer momento logo que a vida do paciente volte ao normal. Mas quando é provocada por um trauma físico, como uma pancada na cabeça, um AVC, um tumor, ou qualquer outra agressão, a zona do cérebro que foi afetada, pode não recuperar nunca e nesse caso, as memórias armazenadas nessa zona desaparecem para sempre tal como documentos desaparecem quando devorados por um incêndio.

- E não posso fazer nada? Meu Deus, não posso viver nesta incerteza o resto da vida.

 - Claro que podes. Deste o primeiro passo. Convence-a a escutar—te. Sê sincero.

- Mas admitindo que seja ela, e que a menina possa ser minha filha. Que direito tenho eu de entrar assim sem mais nem menos na vida delas? E se ela tem alguém? O facto de não ser casada, não quer dizer que não viva numa relação feliz.

-Ou não. E não podes sabê-lo sem falares com ela.

-Se ela quiser falar comigo! E se isso não acontecer?

-Está tão atormentado, que quase não raciocinas. Estás de serviço amanhã?

- Não! Estou livre este fim de semana.

- Dá no mesmo. Podes sempre ir lá logo de manhã. Leva um Kit de ADN, e faz a recolha.

Se como penso a menina for tua filha, ela não poderá deixar de te ouvir. Tens o direito de poder ver e acompanhar o crescimento e educação dela, mesmo que ela tenha outra relação e não queira saber de ti como possível marido. E se não tiver ninguém, depende de ti quereres ou não conquistá-la de novo.

 -- Meu Deus, Fernando! Não posso admitir que aquela menina linda possa ser minha filha, e pensar que podia levar a vida inteira sem ter conhecimento disso.

-Tens que o admitir se fizeres o teste de ADN e for esse o resultado. E ela não poderá tirar os teus direitos de pai.

-Mas como vou fazer o teste de ADN sem a sua autorização? Isso é ilegal!

-É? Mas não dizem que os fins justificam os meios?  De resto se o resultado for negativo, ela nunca saberá que o fizeste. E se for positivo, não terá coragem de participar de ti. Pensará que a filha não lhe perdoaria se soubesse que acabou com a tua carreira, e as mulheres pensam sempre nos filhos antes de qualquer outra coisa.  E agora se te fosses vestir e fossemos dar uma volta por aí?

 - Desculpa, sei que a tua intenção é boa, mas não tenho vontade nenhuma de sair.

-- Bom então agora aceito aquela cerveja que me ofereceste há bocado. Também não estou com muita vontade de sair. Tens estado com a Laura? Como é que ela está?

Gonçalo levantou—se e foi à cozinha buscar a cerveja. Não lhe passara despercebida a tristeza na voz do amigo.


17.5.21

COMEÇAR DE NOVO -- PARTE VII

 




 Entraram na sala e sentaram-se. Ninguém diria ao vê-los que eram irmãos. Ele era alto, moreno, de olhos e cabelos castanho-escuro, quase pretos. Como o pai. Ela, teria pouco mais de metro e meio, loira e de olhos azuis. Como a mãe.

- Hoje estou no turno da noite. Nas urgências.

- Trabalhas de mais. Dentro de dias fazes trinta e cinco anos. Desde que terminaste o curso vives praticamente no hospital. Só sais de lá para nos apoiar.  Nunca te vi entusiasmado por ninguém. Não há lá pelo hospital, nenhuma mulher interessante?

- Sabes porque saí do hospital no Porto e vim para cá?

- Porque o Quim morreu e vieste cuidar de mim.  Sinto-me tão mal, por isso. Tinhas a tua vida lá.

- Nada disso, maninha. Talvez nunca te tenha dito, mas a verdade é que já tinha pedido a transferência para este hospital antes do aneurisma que vitimou o teu marido. E sabes porquê? Porque a nossa mãe passava a vida a apresentar-me as encantadoras filhas das suas amigas. Acredita que nunca pensei que ela tivesse tantas amigas. Parece que todas as jovens desde Braga até ao Porto e arredores eram filhas de amigas suas.

- E por isso fugiste? E eu que pensava que tinhas vindo por mim!

 -Não sejas tonta. Se não tivesse já pedido a transferência tê-lo-ia feito nessa altura. Não ia deixar-te cair numa depressão grávida de seis meses e com a Sara a precisar mais do que nunca de ti. És a minha irmã preferida, faria qualquer coisa por ti e sei que farias o mesmo por mim. Mas a verdade é que na altura já tinha pedido a transferência.

-Também és o meu irmão preferido, - disse Laura sorrindo. - Ou não fôssemos só dois. Falando sério, Gonçalo. Nunca houve uma mulher que te interessasse? Nunca te apaixonaste?

- Talvez, quem sabe?

- Meu Deus! Quer dizer que não queres saber de ninguém porque já deste o coração a alguém? Um amor impossível? Quem é?

- Ninguém. Referia-me a que mais tarde ou mais cedo todos nós tivemos uma paixoneta. Lembras-te da Inês Salgado aquela menina sardenta que na primária andava sempre atrás de mim, e que aos doze anos me trocou pelo Nuno Carvalho? Pois foi só depois disso é que descobri a minha paixão por ela, - disse rindo

- Não disfarces Gonçalo. Se não queres contar, eu respeito, mas sempre te digo que se não deu certo uma vez não quer dizer que rejeites todas as oportunidades de seres feliz.

- Mas é que não há mesmo nada para contar, acredita-me! 

Nesse momento ouviu-se o balbuciar de um bebé e Laura levantou-se de imediato

-O teu afilhado acordou. Já volto.

 


3.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XII

Um mês depois, tinha-se estabelecido uma grande amizade entre os dois. O livro estava quase pronto, e era frequente vê-los, passeando, ora até à praia, ora aventurando-se pelos caminhos da serra. 

Para Isabel era como se tivesse voltado dez anos atrás, quando inseparáveis percorriam aqueles mesmos caminhos, em longas conversas.
Raro era o dia, que a avó não lhe chamava a atenção, preocupada que estava com a sua felicidade. Ela, fazia ouvidos de mercador, empenhada em desfrutar ao máximo da companhia dele. 

Tinha pedido férias sem vencimento, no escritório, e pensava todos os dias, que tinha que procurar um espaço para montar o seu escritório, mas arranjava sempre uma desculpa para adiar essa resolução.
Uma tarde, depois de terem estado durante uma hora a rever o último capítulo, ela lendo o que estava escrito, ele corrigindo frases, mudando palavras, deram enfim o livro por terminado.
No dia seguinte sairia para a editora.

Então, ele disse-lhe que ia visitar a idosa, da casa ao lado, e pediu-lhe para o acompanhar. Isabel ficou aflita, não podia avisar a avó, e receava que ela a pudesse denunciar.

Ele cumprimentou carinhosamente a senhora, que o levou para a sala, onde conversaram sobre a sua ausência, e o que tinha feito da vida durante a sua ausência.
Depois a avó disse que ia fazer um chá, e Isabel ofereceu-se para a ajudar, a fim de recomendar à avó, que não a desmascarasse.

A visita foi muito agradável, e acabou por se prolongar. Na volta, ele rompeu o silêncio para dizer.
-É uma senhora muito agradável. Tanto que me esqueci de lhe perguntar pela neta. Antigamente ela estava sempre cá, de férias, nesta altura do ano.

Isabel estremeceu. Ele lembrava-se dela. Com voz tremente, perguntou:
-Eram amigos?
- Amigos? Não. Era muito mais do que uma amiga. Era uma irmã.

Ela deu graças a Deus por ele não a poder ver. Uma irmã. Foi assim que ele sempre a viu. Por isso ficou tão zangado naquele dia. Com raiva, limpou as lágrimas que iam deixando um rasto molhado no rosto pálido. Percorreram em silêncio, o resto do caminho. Depois ele recolheu-se ao quarto, enquanto ela morta de dor, arrumou a secretária, pegou na mala e foi para casa. Ficaria muito surpreendida, se tivesse visto o sorriso enigmático do homem, quando meia hora depois regressou ao escritório.

2.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXII





Entraram no hotel de mãos dadas, e André dirigiu-se imediatamente para os sofás da sala de recepção, onde se encontravam algumas pessoas que se levantaram com a sua chegada.
- Eva, apresento-te a minha família. Mãe, pai, irmã e sobrinhas. O resto chega no próximo fim-de-semana, a tempo para o casamento. Família, esta é Eva a minha noiva.
Viu-se submergida num mar de abraços e beijos. Toda a família, a acarinhando como se fosse parte integrante dela. A ela que nunca soubera o que era ter família. Não conseguiu conter as lágrimas.
- Então querida, o tempo é de risos, não de lágrimas - disse Sofia a mãe de André.
- Estou espantada. O André não me disse nada. Pensei que íamos jantar sozinhos!
- Não sabia se me ias perdoar. Trouxe a cavalaria, para te convencer, se eu não conseguisse – disse rindo.
- A julgar pelo que vemos, foste convincente, - disse a irmã, provocando o riso geral.
- É melhor irmos para a sala, ou ficamos sem jantar, - lembrou o pai. 
Eva, nunca iria esquecer, o jantar maravilhoso, e a simpatia de toda a família. A determinada altura, Giovanna, a futura cunhada, perguntou:
-Já pensaram onde vão fazer o casamento?
- Eva confiou em mim, e eu quero que seja um dia de sonho para ela. Conto convosco para tratarem das roupas e adereços. Do resto cuido eu. E o papá, se me quiser ajudar.
- Ficaria zangado se me excluísses.
- Então amanhã vamos às compras, - animou-se Isabella.
- A Eva está empregada. Tem que ir à clínica para apresentar a demissão. Depois podem começar.
- Não é tão simples assim. Tenho que dar um mês à empresa para arranjar substituta, - disse Eva
- Um mês? Nem penses nisso! Se for necessário, pagas a indemnização à empresa.
Depois de conversar com ela, André escolheu o momento do regresso a casa, perto da meia-noite, para anunciar à família a gravidez da noiva. E a alegria foi geral.



24.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLII





- Mas tu és um homem famoso e muito rico. Como podes querer alguma coisa comigo? Não tenho mais que este pedaço de chão, esta casa, e a minha arte, que se me dá para viver não me deu fama, nem fortuna. Nem sequer sou uma beleza, como as mulheres com quem decerto estás habituado a conviver.
- Subestimas-te querida. Embora digas que não és uma beleza, és uma mulher muito bonita. O que acontece é que nunca te preocupaste muito com a tua aparência.  Tenho a certeza, de que bastará um pouco de maquilhagem, um novo penteado, e um tipo de roupa diferente, para que o patinho feio que julgas que és, se transforme num cisne esplendoroso, capaz de deixar qualquer uma dessas mulheres de que falas, cheia de inveja.
E para que saibas, um homem não procura só beleza na mulher dos seus sonhos, embora isso ajude muito numa primeira impressão. A minha falecida esposa, era uma mulher de grande beleza e nunca me fez feliz.
Agora chegou a hora da despedida. Conversei com a minha irmã, contei-lhe o que se passou e expliquei-lhe porque não dei notícias. E pedi-lhe para informar a polícia. Levas-me até à vila? Lá alugarei um carro que me leve a casa. Estou ansioso por ver a minha filha, mas já parto com saudades tuas.
Com dois dedos levantou-lhe o queixo e baixando a cabeça apoderou-se da sua boca, pondo naquele beijo toda a paixão que ela lhe despertara.
Ela enlaçou-lhe o pescoço e retribuiu com a mesma intensidade. Quando por fim ele a afastou, ela murmurou baixinho escondendo o rosto no seu peito.
- Faz amor comigo.
Ele afastou-a e mergulhou o olhar cheio de desejo nos doces olhos castanhos.
-Tens a certeza de que é isso que queres?
-Sim - balbuciou voltando a enlaçar-lhe o pescoço, o rosto corado, os olhos brilhantes de desejo. 
Então ele pegou-lhe ao colo e levou-a para o quarto.
Horas depois, despediam-se numa rua da vila.
-Vou manter-me em contato. E aguardar ansioso pela tua resposta.
Agora mais do que nunca, tenho a certeza dos meus sentimentos, e de que quero que faças parte da minha vida.
- Telefona-me esta noite. Quero saber como te sentes depois de reveres a família - respondeu Luísa abraçando-o.
As mãos dele afagavam-lhe os cabelos, os dedos roçando-lhe os lóbulos das orelhas. No seu olhar o desejo misturava-se com uma imensa ternura.
-Amo-te Luísa. Não te quero pressionar, mas por favor não me faças esperar muito!
Então os seus lábios desceram sobre a sua testa, num terno beijo de despedida.
Depois largou-a e afastou-se em direção a uma praça de táxis. Ela sentou-se ao volante, e ficou quieta, olhando como que hipnotizada para as costas do homem que falava com o motorista. Viu como abria a porta e a fechava depois de entrar. Viu o táxi arrancar na direção contrária em direção a Coimbra, e só quando ele desapareceu numa curva da estrada, limpou os olhos à manga da camisola, ligou o motor, fez a manobra de inversão de marcha e regressou a casa.




27.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XIX



Minutos mais tarde, Laura voltava acompanhada de Inês.
-Boa-noite - saudou olhando preocupada o homem que do outro lado da secretária se pôs em pé quando as duas entraram.
-Boa-noite, Inês. Sente-se e diga-me. Como encontrou hoje a minha filha? Recebeu alguma informação? Sabe quando ela terá alta?
- Falei com o médico. Ele disse-me que apenas quer repetir uns exames e depois lhe dará alta. Perguntei quando faria esses exames, e disse-me que no dia dezanove, e se tudo estiver bem como lhe parece, o mais tardar dia vinte e um terá alta, e já passará em casa o dia de Natal.
- Que bom - disse Laura indo abraçar o irmão.
Durante alguns segundos permaneceram enlaçados na mesma emoção, como se não lembrassem que não estavam sozinhos.
Por fim, Gil afastou a irmã, voltou costas e foi de novo sentar-se à secretária. Exercendo todo o seu controlo sobre os sentimentos, quando falou a sua voz soou serena.
- Obrigado. E diga-me, Inês. Está contente com o seu emprego?
- Estaria mais contente se a menina estivesse aqui, é uma bebé adorável, de quem vou cuidar com muito gosto. Mas sim estou muito feliz com o emprego.
-Contudo a sua expressão não demonstra essa felicidade.
- A minha expressão não vai influir em nada os meus cuidados com a sua filha senhor. Ela estará sempre acima de qualquer preocupação que me atormente. Juro-vos.
Os seus olhos rodavam preocupados, de um para outro dos irmãos, como se temesse que a fossem despedir. Gil notou o brilho húmido e receou que a jovem fosse começar a chorar.
- Tenho a certeza disso. Acalme-se, só queremos ajudá-la - disse Laura sentando-se a seu lado e segurando-lhe nas mãos. Estavam geladas.
Gil esperou uns segundos, para que a jovem se acalmasse e depois retomou a palavra.
- Não vou denunciar a fonte, mas ficámos a saber, o que se passou consigo, a razão do seu divórcio, bem como da existência do seu filho.  Eu e a minha irmã conversámos sobre isso e chegamos à conclusão, de que uma vez que vai ficar a viver aqui, deve trazer para cá o seu filho. Amanhã vou mandar pôr um divã no seu quarto, e depois com mais tempo poderá decorar o quarto a seguir ao seu para ele. A minha irmã vai ajudá-la.
Laura abraçava a jovem que chorava copiosamente, sem saber que dizer, nem como lhes agradecer.
Gil não gostava de ver uma mulher chorar. Levantou-se da cadeira e dirigiu-se à porta dizendo à irmã:
- Tenho que ir ao quarto buscar uns documentos. Combinem a hora a que podem ir buscar o menino de manhã, uma vez que de tarde a Inês terá que ir ao hospital.
Fechou a porta e subiu. Não porque precisasse de ir buscar algum documento, mas porque tinha de digerir a emoção, que o facto de saber que em breve tinha a filha em casa lhe proporcionara. Saber que dentro de dias ia poder abraçá-la, dava-lhe um aperto no peito, e punha-lhe os olhos brilhantes.  Podia compreender a angústia de Inês, tendo que viver longe do filho. E sentia-se satisfeito pela decisão que tomara de trazer o miúdo para junto da mãe. Aquela casa estava demasiado triste. Duas crianças iam decerto ser como um raio de sol que rompe a escuridão e ilumina tudo à sua passagem.

  

21.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XII




Pouco tempo depois, uma bola embateu violentamente nas suas pernas e ficou a rodar um pouco à sua frente. Resmungando, pousou o livro a seu lado e apanhou a bola. Ao olhar em volta, viu um rapazinho de olhos claros que o olhava a medo.
- Anda cá pequeno! Toma a tua bola.
- Como sabe que é minha?
 – Deduzi.
- Do...quê? - Perguntou admirado, lutando contra o desejo de se aproximar, e o receio de o fazer.
Pedro sorriu, e enquanto lhe estendia a bola acrescentou:
- Sabes que me bateste com força?
 – Não fui eu que a joguei – desculpou-se o garoto. -Foi a minha irmã. Ela colmo é grande,quer mostrar que tem mais força, por isso joga sempre a bola para longe...
 – Ah! Ela é maior que tu! Mas olha, diz-lhe que os homens não se medem aos palmos.
- Olha, diz-lhe tu. Vais ver como fica zangada.
- Ora, ora, e a tua irmã é perigosa quando se zanga? - perguntou divertido com o jeito do miúdo.
 – Se é. Até assopra como os gatos.
Pela primeira vez, desde há muito, Pedro soltou uma sonora gargalhada. E perguntou:
- Como te chamas?
 –Pedro. E tu?
 – Engraçado. Também me chamo Pedro. Acreditas?
 – Se tu o dizes.
O garoto tinha perdido qualquer espécie de receio, e estava agora à vontade, como se o conhecesse desde sempre.
- Ora vejam só este rapazinho! Aposto que tem estado a maçá-lo.
A voz que soara atrás de Pedro era tão doce, tão maviosa, que o levou a interrogar-se mentalmente, enquanto se voltava, se os anjos teriam voz.
Na sua frente estava a mais bela figura feminina que Pedro algum dia vira. E ele já tinha visto várias. Não era nem de longe, nem de perto o santo que a mãe dizia que era, embora na verdade, as belas mulheres com que se relacionara não seriam nunca daquelas que ele apresentaria à sua velha mãe. Porém aquela era diferente. Tinha tal candura no sorriso, tal pureza no olhar, que mentalmente voltou a associá-la aos anjos. Olhou-a de alto a baixo, maravilhado. Trazia uma blusa vermelha e umas calças pretas que modelavam o seu corpo. Calçava sandálias sem salto e tinha os cabelos apanhados num gracioso rabo-de-cavalo. Apercebendo-se do olhar analítico do homem, a jovem corou. "Santo Deus, era só o que me faltava ver", pensou ele.
- Não maçou nada, é um rapazinho encantador- disse sorrindo.
- Ora, se lhe dá confiança, nunca mais o deixa em paz...
 – Mana, este senhor também se chama Pedro, e sabes uma coisa? Ias-lhe partindo a perna, com a bola – a voz do miúdo, veio quebrar o encanto e devolver normalidade ao encontro.
- Oh! Desculpe. Não queria atingir ninguém. - Estendeu-lhe a mão, e acrescentou:
- Chamo-me Rita. Estou perdoada?
 – Claro que sim
  – disse ele sorrindo e retendo na sua a mão feminina.

18.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE IX




Quando voltou, duas horas mais tarde, a tia Rosa já tinha chegado, com o seu inseparável Tomé, um gato que quase não se conseguia mexer, de tão gordo que estava. A mãe, já estava com o almoço pronto para pôr na mesa. Depois de beijar a tia, comentou:
- Gordinho o bichano, tia.
- Que queres, ficou assim depois de castrado. Já me tinham dito, mas o malandro não parava em casa antes da operação.
- Coitado...
 – Vamos almoçar que se faz tarde – interrompeu a mãe com a terrina da sopa na mão.
O almoço foi servido com as duas mulheres sempre tagarelando. Absorto nos seus pensamentos, Pedro isolou-se da conversa e foi com sobressalto que sentiu a mão da tia no seu braço, seguida da pergunta:
- Não me estás a ouvir, rapaz?
 – Desculpe tia, estava a pensar nas férias...
 – Então vê se me arranjas por lá namorada, que eu bem sei o desgosto que a minha irmã sente de nunca mais te resolveres a criar o teu ninho. Sabes que és um caso raro na nossa família? Nunca ninguém esteve solteiro até à tua idade.
- Ora tia, quando chegar a hora, eu penso nisso...
 – Quando chegar a hora? Mas rapaz estás quase com trinta anos.
 

Incomodado com o rumo da conversa, Pedro levantou-se dando o almoço por terminado.
- Vês o que fizeste, mulher? - A voz da mãe fez-se ouvir em tom de reprovação. - Por tua causa não comeu o suficiente.
- Ora essa! Mas eu não disse nada demais. Não me digas que o teu filho fez votos de castidade. Ora se ele não é padre...
 – Nada disso, minha mãe- apressou-se a dizer o jovem, para evitar a preocupação da mãe. - Não quis comer mais para não me dar o sono a conduzir. Pelo caminho paro em qualquer lado e como mais alguma coisa. Vou pôr as malas no carro. A distância é grande, e a mãe sabe que não gosto de velocidades.
E dizendo isto voltou costas às duas mulheres, que continuaram a conversar. Tratou de meter a bagagem no carro e voltou para se despedir. Abraçou primeiro a tia, fazendo-lhe recomendações em relação à mãe, e por fim abraçou esta, apertando-a com força junto ao peito.
- Que se passa, filho? Sinto-te estranho desde ontem. Parece que me escondes alguma coisa.
- Nada mãe, é que é a primeira vez que vou de férias sem a sua companhia – enquanto tentava tranquilizar a mãe, não pôde deixar de pensar que coração de mãe sempre adivinha o que lhe querem esconder.
Arrancou e sem olhar para trás ergueu a mão num adeus. Sabia que as duas mulheres iriam estar ali acenando até o carro desaparecer na curva da estrada.

7.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XVI




 Naquela tarde, Ricardo saiu  cedo do trabalho, mas em vez de seguir para casa, dirigiu-se à casa de Isabel. Tocou a campainha e ela veio abrir com a menina ao colo.
-Posso falar consigo? – perguntou
Ela afastou-se para o deixar passar e fechou a porta nas suas costas. Encaminhou-o para a sala, e sentou a criança numa manta no chão onde estavam alguns brinquedos. A um canto junto à janela, uma tábua de engomar, um ferro elétrico, e uma cadeira com alguma roupa passada. Noutra cadeira várias peças aguardavam o mesmo tratamento.
-Sente-se, -disse indicando-lhe o sofá. Desculpe a desarrumação, mas não estava à espera de visitas.
-Vim porque recebi o resultado do ADN. Trouxe-lhe uma cópia. Como pode ver não sou o pai dessa menina, mas parece que ela é efetivamente da minha família. Aconselham-me a fazer um novo teste, para determinar o grau de parentesco, mas não o considero necessário, uma vez que tenho apenas um familiar direto vivo. De algum modo, a sua irmã conheceu o meu irmão, não sei como, nem quando, uma vez que ele casou com uma francesa há quase treze anos e vive em Bordéus.
- Mas se a Susana nunca saiu do país, como é isso possível?
- Essa é uma pergunta a que só um dos dois poderia responder-lhe. Talvez o tenha conhecido em alguma das vezes que veio a Portugal, de férias. Lamento dizer-lhe isto, mas o meu irmão não é flor que se cheire. Deve ter dado à sua irmã o meu nome por duas razões. A primeira, para que não pudesse localizá-lo e descobrir que era casado. A segunda se alguma coisa corresse mal eu seria o lesado. Nós somos gémeos e bastantes parecidos fisicamente mas não somos gémeos idênticos. Segundo um amigo meu, ex-inspetor da Judiciária, se fossemos gémeos idênticos ou monozigóticos, o resultado do ADN seria bem diferente. Eu seria considerado pai da menina, mesmo nunca tendo conhecido a sua irmã, pois ele disse-me que esses gémeos partilham o mesmo ADN. Sendo assim parece que ambos temos o mesmo vínculo familiar com a criança, ou seja, ambos somos tios dela, embora eu seja oficialmente o pai.
- E o que vai fazer com esse facto?
-Nada. Na verdade, não sou casado, não tenho filhos, nem espero vir a ter. Não sou milionário mas tenho o suficiente para não ter que me preocupar com o futuro. Não tenho outros herdeiros que os filhos do meu irmão e portanto posso perfeitamente considerá-la minha filha e fazer dela a minha herdeira. Posso dar-lhe uma vida muito melhor do que aquela que tem nesta casa.
- Mas não pode dar-lhe o principal. Amor. Esquece que ela nunca conheceu outra mãe que não eu, e que a amo como se fosse minha filha?
- Não. Nem vou lutar por ela na Justiça, fique descansada. Embora saiba que se o fizesse ganharia com facilidade. Não só porque conforme o registo sou o seu pai, como porque tenho uma boa situação económica, e a senhora nem emprego tem. Ainda não tenho uma solução mas tão logo a tenha, falarei consigo e tenho a certeza, que no interesse da criança chegaremos a um acordo.


28.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE VII




- A sua irmã inventou essa história. Olhe para mim. Há dois anos tinha trinta e sete anos. Acha que me ia meter com uma jovenzinha de quem quase podia ser pai? Quem pensa que sou?
-Não sei. Não o conheço, mas não acredito que a Susana tivesse inventado semelhante história. Se não o conhecesse como iria saber da sua existência. De resto esta discussão não tem sentido. Basta que faça um teste de ADN e fica tudo esclarecido.
-Teste de ADN, pois claro. Como é que não me lembrei disso. Teria disponibilidade para fazer o teste amanhã?
-Hoje mesmo se quiser. Mas antes deixe-me dizer-lhe que não pretendo nada do senhor, e que só lhe dei conhecimento da existência da Matilde porque a minha irmã assim o desejava, e o deixou bem expresso, na carta de despedida como pôde ler. Ela acreditava que todas as crianças deviam conhecer e conviver com o pai. Espero que não tenha ideias de ma tirar, quando tiver a confirmação do teste. A Susana já estava em depressão quando ela nasceu, não tinha condições de tratar da sua pessoa, quanto mais de uma filha. E eu fui desde a primeira hora, a sua verdadeira mãe, a única que conheceu.
- Se a menina fosse minha, decerto que iria lutar por ela e trataria de lhe dar a melhor vida possível. Mas não corre esse risco, fique descansada. Esta tarde mesmo vou tratar disso. Pode dar-me um número de telefone para onde eu possa informar do dia e hora do exame?
Ela deu-lhe o número que ele registou no telemóvel. De seguida levantou-se e dirigiu-se para a porta. 
- Não quer ver a menina? perguntou Isabel
- Não há a mais remota possibilidade de que ela seja minha filha. Convença-se disso. E depois do teste vou impugnar essa certidão. Tenha a certeza.
Natália saiu da cozinha com a menina ao colo, logo depois que ela cerrou a porta, nas costas do empresário.
- Era o pai da Matilde? – perguntou enquanto lhe passava a criança para os braços.
- Não sei. Ele diz que nunca conheceu a Susana e afirma-se muito seguro disso. Inclusivo vai marcar um exame de ADN, para provar que não tem nada a ver com a menina. Disse-me que a Susana mentiu, que nunca se meteria com uma jovenzinha e se o fizesse assumiria as suas responsabilidades. E a verdade é que parecia sincero. Estou tão confusa.
- Está a querer fugir com o rabo à seringa, Como é que a Susana sabia da sua existência, para registar a menina em seu nome?
- Não sei Natália, ai, não puxes os cabelos à mãe, querida. Vamos já almoçar.
- Já lhe dei o almoço enquanto atendia o homem. Reparou bem nele?
- A Matilde está a cair de sono. Uma vez que já lhe deu o almoço, vou deitá-la e já conversamos.
Levou a menina para o quarto, mudou-lhe a fralda e deitou-a. Depois voltou à cozinha.


Estou de volta, mais logo já vou visitar-vos. Ontem cheguei super cansada da minha visita de estudo. Vários museus e um castelo,  em S. Bartolomeu de Messines e Silves. Fartá-mo-nos de andar, e de subir com um calor abrasador. Trinta e quatro graus à sombra. Daqui a dias estarão as fotos no "As minhas imagens." 
A quem perguntou pelo meu cunhado, ele está a recuperar, foi transferido do S, José para e Curry Cabral, já começou a fazer fisioterapia.

24.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE IV



Passou a mão pela testa, tentando afastar os pensamentos dolorosos. A vizinha tinha razão, ela devia entrar em contacto com o pai da criança. Afinal era isso que a irmã desejava que ela fizesse. Mas… e se ele lhe quisesse tirar a menina? Ela morreria de dor. Matilde era muito mais que sua sobrinha.
Tinha quase trinta e três anos, e o único namorado que tivera, acabara o namoro quando a sua mãe morreu e ela assumiu a responsabilidade de acabar de criar a irmã. Ele não estava disposto a começar uma vida com tal encargo. Depois disso, dedicara-se por completo à irmã, e depois à sobrinha. Acreditava que lhe queria tanto como se fosse sua filha. Por isso a criança lhe chamava mãe. Na verdade nunca conhecera outra.
Mas será que ele ia querer saber duma criança fruto de uma aventura passageira? E se lhe escrevesse uma carta e lhe mandasse a cópia da certidão de nascimento da menina? Assim era melhor, se não obtivesse resposta à carta, era sinal que ele não se interessava e pronto, assunto arrumado.
Ouviu o sinal de que a máquina acabara de lavar. Levantou-se e foi estender a roupa. Logo de seguida, ouviu a criança a chamar, e foi tirá-la da cama. Levou-a para a cozinha e deu-lhe o lanche. Depois mudou-lhe a roupa, e a criança riu feliz e bateu as palmas, quando lhe disse que iam ao parque.
Pôs no saco um biberão com água, colocou e prendeu a menina no carrinho, deu-lhe o seu peluche preferido, pegou na mala, nas chaves e saiu. Tocou a campainha do andar em frente e uns segundos depois a vizinha abria a porta.
- Vou ao parque com a Matilde. Quer vir connosco?
-Se esperar uns minutos, enquanto calço uns sapatos, e dou uma penteadela ao cabelo, vou.
-Claro que esperamos.
De facto, Natália, não demorou mais do que dois minutos a voltar. Fechou a porta e as duas saíram do prédio e encaminharam-se para o parque que ficava muito perto. No seu carrinho, Matilde palrava num alegre conversa com o seu peluche. Ficava sempre radiante quando ia ao parque. Gostava de andar de baloiço, e de atirar pedacinhos de pão para o lago. Ria alto e batia palmas sempre que algum dos patos apanhava o pão.
Tinha começado a andar há pouco tempo, ainda não conseguia dar mais que três quatro passos sozinha, mas agarrada aos móveis corria a casa toda. Também palrava imenso, mas palavras, dizia poucas. Pronunciava bem, mãe, e não. Depois havia outras palavras, que não sendo corretas se entendiam perfeitamente. " vó Taia” para chamar Natália, “Bias” o seu peluche preferido Tobias, (ão ão), cão (áua) água. As duas mulheres, tal como todas as mães e avós sorriam enlevadas a cada nova gracinha da bebé.

11.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXII





- Desculpa, estou preocupada. Não estou habituada a fazer este tipo de festas para pessoas que não conheço. Já imaginaste que apesar de todos os nossos esforços, a tua irmã pode não gostar da festa? Teria muito mais sentido eu planear tudo e dar-lhe a conhecer o projeto para que ela aprovasse ou fizesse as alterações que entendesse. Afinal a festa é dela.
- Não te preocupes. O meu cunhado está a par de tudo e ninguém a conhece melhor do que ele.Depois de amanhã, vamos a Faro em negócios e talvez demoremos um ou dois dias. Se conseguires fazer o projeto para amanhã, pudemos reunir-nos e ele te dirá se há algo que deves modificar. De resto, tenho a certeza que farás uma festa maravilhosa, que a vai deixar muito feliz. Confio plenamente em ti.
- És um ser muito estranho. Como podes confiar desse modo em mim se mal me conheces, e ao mesmo tempo odiares o meu pai ao ponto de o quereres arruinar? Não seria mais natural pensares que tomarei o partido do meu pai e te trairei na primeira oportunidade?
-És demasiado integra para traíres alguém, -disse poisando a sua mão no ombro feminino.
Tinham chegado à parte traseira da casa.  Havia um alpendre junto à residência, apoiado em pilares que se estendia junto ao muro do lado direito. Uma vasta área relvada, ao fundo da qual uma piscina, à qual se chegava por um carreiro de seixos. Tudo protegido de olhares estranhos pelo muro.
- O que achas?
-Fantástico. Podemos colocar as mesas junto à piscina, e montar uma tenda na parte de trás, com música ao vivo e uma pista de dança para quem quiser dançar. E ... esta porta dá para onde?
- Para a cozinha.
- Ótimo. Disseste que o “catering” vem de um dos teus restaurantes. Não precisaremos de mesas de apoio, tudo pode ficar na cozinha e ser transportado a partir de aí. Terás que trazer vários empregados. Que te parece?
- Muito bem. Consegues pôr tudo isso no papel para que o Eduardo veja antes de irmos para o Algarve?
-Farei o projeto esta noite, envio-to amanhã. Agora se me dás licença, vou fazer umas fotos daqui e da parte da frente onde decorrerá a cerimónia. Às três horas tenho entrevista marcada com o padre.
-Gostaria que passasses pelos nossos escritórios, amanhã de tarde. Conhecerias o Eduardo e seria mais fácil para ti, que ele te fizesse alguma sugestão se necessário. Além de que ele pode querer algumas dicas sobre o traje adequado à cerimónia. Poderias fazer isso?
- Posso. Se a minha ideia for aprovada, terei que voltar com uma amiga, Margarida Souto, decoradora de interiores e exteriores e alguns jardineiros para fazer toda a decoração necessária, aqui e lá à frente. Na maior parte das vezes eu mesma trato de tudo mas quando o tempo é curto como agora, recorro aos seus serviços.
- Muito bem. Então vamos entrar. O almoço deve estar quase pronto e gostaria de te mostrar a casa. Tirarás as fotos depois do almoço.

2.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XV





Eduardo terminara o seu dia de trabalho. Antes de sair perguntou a Susana se o cunhado estava no escritório. Após a confirmação da secretária, abriu a porta e perguntou:
- Posso entrar?
- Entra e senta-te. Queres alguma coisa?
- Eu e o Júlio marcámos a escritura para o dia vinte e seis. Espero que possas ir connosco. Dia trinta é o aniversário do nosso casamento, e prometi à tua irmã que estaria cá nessa altura para uma comemoração especial.
- Bom, a respeito disso temos que conversar. Quero que essa data seja memorável para os dois. Tira uma semana de férias para poderem ter a lua-de-mel que não puderam ter na altura. É o meu presente, uma bonita festa, com renovação de votos, seguida de uma semana de lua-de-mel, no sítio que escolhas. Só gostava que não dissesses nada à Gabi, a fim de que fosse uma surpresa.
- Isso seria maravilhoso, mas e o Pedro? Não pensaste nele?
- Claro que sim. Pode ficar com a avó. Tenho a certeza de que a minha mãe ficaria encantada, e eu me encarrego de o levar e ir buscar à escola.
- É um sonho, mas um sonho muito caro.
-E para que serve o dinheiro senão para realizar os nossos sonhos? Quando vocês casaram, a minha ajuda não passou de uma ninharia. Nem sequer pude vir assistir ao casamento. Vou fazer de conta que se casam agora. Quero ver a vossa felicidade. Amanhã sem falta, traz-me a lista das pessoas que gostarias de ter presente. Decerto terei de acrescentar algumas com quem privamos mais a nível profissional, pois não seria de bom-tom ignorá-las. Não te esqueças, pois fiquei de enviar a lista para a Paula Maldonado amanhã.
- A Paula Maldonado? Meu Deus António, isto faz parte da tua vingança? Porque se assim é, não quero festa nenhuma.
-Não sejas tonto. Contratei-a, ela aceitou. Sou um cliente como qualquer outro.
- Mas arruinaste a sua família. E fizeste uma exigência absurda. Quando ela souber não quer saber de ti.
- Ela sabe. O pai contou-lhe. E disse-me na cara que não está à venda, e que um casamento sem amor é uma espécie de prostituição.
-Santo Deus. E ainda assim vai fazer a festa? Só se for para se vingar de ti, e não nos metas nisto por favor. Quero uma data feliz, não um motivo de sofrimento.
-Fica descansado que tudo correrá bem. A Paula é acima de tudo uma grande profissional, nunca faria nada que lhe arruinasse a carreira.
- Espantas-me. E o pai dela? Sabes que o Jorge Maldonado tem um filho da idade do Pedro?
- Claro que sei, investiguei a vida dele, lembras-te? Mas como sabes tu disso.
-O Pedro apresentou-mo, no dia em que fui buscá-lo à escola. Parece que é o seu melhor amigo.
- Realmente o mundo é uma aldeia. Bom vai-te lá embora, senão a minha irmã acusa-me de te escravizar. E não esqueças a lista amanhã.
-Não vens?
-Não. Ainda tenho trabalho para acabar.



16.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE III







A vida não lhe sorriu como ele sonhava em Paris, antes pelo contrário, como não tinha ninguém conhecido, a quem se dirigir, nem que o acolhesse, pode-se dizer que António comeu o pão que o diabo amassou. Trabalhou em tudo o que lhe aparecia, como moço de recados, como trolha, em diversas obras, e até durante meio ano, foi coveiro no cemitério de Montmartre. Dormiu na rua, depois nas próprias obras onde trabalhava, até que já a trabalhar num café, travou conhecimento com Júlio Correia, colega de trabalho, que por questões económicas, o convidou a partilhar o seu pequeno apartamento, no último andar de um prédio antigo dos arredores. Júlio era um jovem português, emigrante como ele, irmanado no mesmo sonho, senão de fortuna, pelo menos procurando uma vida melhor do que aquela que a sua pátria lhes oferecia. 
Durante onze anos, António foi um verdadeiro escravo do trabalho. Chegou a trabalhar de dia nas obras e de noite em cafés e bares, roubando ao corpo o descanso que lhe era necessário, mas o sonho de ser rico era cada vez mais uma esperança perdida.

Todo o fim de mês mandava à mãe, dinheiro para que ela e a irmã não passassem necessidades. Pagava a sua parte no apartamento, alguma  comida e o que lhe restava, algumas "migalhas", eram guardadas religiosamente, na mira de um futuro melhor. Um dia porém a irmã casou e esse casamento levou-lhe o pouco que à custa de grande sacrifício, tinha conseguido amealhar.

António estava prestes a entrar em desespero. Tinham passado quase doze anos de trabalho intenso, o corpo começava a envelhecer, e não via no horizonte perspetivas da fortuna que perseguia. Até a fé que sempre o acompanhara de um dia ter poder suficiente para se vingar do seu ex-patrão, estava prestes a abandoná-lo naquele final de Novembro, o décimo segundo desde que chegara a França. Naquele dia, Júlio, o seu colega de quarto propusera-lhe jogar no Euromilhões. Era um sorteio especial estavam em jogo cento e oitenta milhões. Muito dinheiro para não arriscarem uns míseros euros num boletim. Nada, eles já sabiam que era certo, mas quem sabe lhes saía alguma coisa. "Nem que dê só para uma ceia de Natal melhorada já vale o investimento" , - dissera Júlio perante a sua resistência. Preencheram uma única aposta, com os números em que cada um tinha mais fé. Primeiro os cinco números depois as duas estrelas. Foi ele quem registou o boletim e o guardou. No dia seguinte ao sorteio, descobriram pelo jornal que a sorte tinha bafejado dois apostadores, um no Reino Unido e outro ali em Paris. Cada aposta tinha sido contemplada com noventa milhões. Verificado o boletim, nem queriam acreditar que a sorte lhes batera à porta, com aquela aposta.

 No mesmo dia entraram em contacto com a central de lotarias, estiveram com um advogado, assinaram uma declaração de sociedade no prémio, abriram conta no banco, onde a importância seria depositada, e saíram com muitas sugestões do que fazer e como fazer com os quarenta e cinco milhões que cada um ia receber.

Doze anos depois, António votava a Portugal, muito mais rico do que aquilo que algum dia sonhara, passava de novo o Natal com a família, conhecia  o seu cunhado e Pedro o seu pequeno sobrinho.

Não tinha contado nada à família sobre a sua nova condição de milionário. Disse-lhes na noite de Natal, depois de conhecer Eduardo Soares, o seu cunhado, um bom advogado, com quem ele simpatizou de imediato.

23.12.18

FELIZ NATAL


Todos os anos era a mesma coisa: eu e minha irmã, que já estávamos dormindo, sendo acordados pelos nossos pais para irmos à Missa do Galo , onde sempre , logo no início da celebração, meu pai se lembrava de que havia esquecido alguma coisa em casa e que precisava voltar lá para apanhá-la …
ele ia e, sempre, só voltava já no final da missa …
E logo que acabava a solenidade, lá íamos nós de volta p#ra casa, cambaleando e cheios de sono … e quando chegávamos, sempre todas as luzes da casa estavam acesas e o meu pai corria na nossa frente e dizia para que nós esperássemos um pouco no portão, porque pode- ria ser algum ladrão …Mas logo depois Ele voltava , chegava na porta e dizia:
– #Papai Noel esteve aqui ! …Só pode ter sido enquanto eu fui apanhar vocês na igreja!…E olha só isso: ele deixou uma porção de presentes no fogão!…#.
E então nós corríamos e sempre encontrávamos o fogão todo enfeitado e cheio de presentes : uma bicicleta que minha irmã havia pedido na sua #cartinha# e o chão todo sujo de cocô de um pato #de verdade# que eu havia pedido ao Papai Noel e que estava lá, amarrado num dos pés do velho fogão …Sempre também tinham outros presentes que, geralmente, eram roupas e sapatos que o Papai Noel, com todos os seus conhecimentos sobrenaturais , bem sabia que nós estávamos precisando …
Êle também sempre deixava #pegadas# da sua bota no chão da cozinha, as quais iam do fogão até a janela…e elas eram brancas #como talco#, mas os nossos pais nos diziam que o trenó do Papai Noel era todo forrado com talco, para que os presentes ficassem bem cheirosos … e nós acreditávamos!
A mesa da sala também sempre estava enfeitada para a ceia, que tinha bolo , castanhas, rabanadas , passas … e também refresco de vinho-tinto com água …
Mas quase sempre a ceia só era apreciada mesmo no café da manhã do dia seguinte, porque no resto da noite de Natal nós ficávamos era brincando com os presentes …
Das melhores coisas da minha infância, ficaram na minha lembrança esses antigos natais …
Marcelo Cardoso