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4.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE II


Lentamente, Anabela levantou a parte superior do corpo, rodou as pernas e sentou-se na cama. Tinha-se deitado um pouco e o corpo cansado pelas muitas noites sem dormir, acabara por cair no sono. A persiana um pouco levantada, deixava passar a luz de uma magnífica lua cheia.

Até ela, chegavam as vozes de alguns jovens que percorriam a rua em direção à baixa, onde se concentravam os bares e restaurantes e onde a animação parecia constante. Sentiu fome e olhou o relógio. Vinte e três horas e vinte e sete minutos. Não admirava que sentisse fome. Tomara o pequeno-almoço, duas torradas e um café às dez da manhã. No resto do dia apenas bebera água, o calor apertava e ela não sentira fome. 

Foi até à janela e levantou o resto da persiana deixando o quarto apenas iluminado pela luz brilhante da lua. O apartamento ficava num terceiro andar em frente do parque da cidade, pelo que não corria o risco de assalto, fosse por ladrões, ou por mirones.

Precisava preparar alguma coisa para comer, pois embora não lhe apetecesse, o estômago doía-lhe em protesto por um dia todo de jejum.

Lançou um olhar à máquina de roupa e deu-se conta que estava desligada, portanto a roupa já estava lavada.

Pôs água a ferver para fazer um chá, pegou numa carcaça, abriu-a e barrou-a com manteiga, juntou-lhe uma fatia de presunto e colocou-a num prato em cima da mesa. Preparou um chá de frutos e sentou-se à mesa.

Depois de comer, lavou a chávena e o prato, limpou-os e arrumou-os no armário.

Depois pegou num alguidar, abriu a máquina tirou a roupa, que sacudiu e pendurou no pequeno estendal, na varanda da cozinha.

De seguida apagou a luz e dirigiu-se à casa de banho a fim de lavar os dentes.

 Pela primeira vez naquele dia olhou-se ao espelho. E não gostou do que viu. Estava pálida, tinha os olhos vermelhos e inchados do tempo que chorara antes de adormecer. Além disso, emagrecera e o seu rosto estava mais afilado, destacando de uma maneira não muito graciosa as bonitas maçãs do rosto de que outrora tanto se orgulhara. A boca tinha um ricto amargo, que lhe endurecia mais o rosto. Até o cabelo caído e emaranhado do sono, parecia sem brilho, apesar de ter sido lavado há poucas horas.

Lavou os dentes, escovou o cabelo e voltando ao quarto, acendeu a luz pegou no livro que tinha em cima da mesa-de-cabeceira e sentou-se no cadeirão.

Volvidos alguns minutos sem conseguir concentrar-se na leitura fechou o livro apagou a luz e deitou-se.


Notas:

A quem perguntou, esta é uma história nova, que ainda está no forno, ou seja, em construção.

Desculpem amigos, mas hoje (3/1) foi um problema para publicar comentários e em muitos blogs, não consegui mesmo comentar, apesar de tentar várias vezes, sempre me aparecia a mensagem de que ocorrera um erro.

 


25.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIII


Quando Fernando chegou para levar as crianças à escola, já se tinha decidido.

- Bom dia! -saudou ele

- Bom dia, - respondeu. Entra, vieste mais cedo, hoje. As meninas estão a acabar o pequeno-almoço. Queres beber um café, enquanto esperas?

-Aceito, obrigado. Tenho uma notícia para a Matilde.

- Aconteceu alguma coisa? Tiveste notícia dos noivos? - perguntou assustada enquanto fechava a porta atrás dele que já se encaminhava para a cozinha.

- Não, descansa, não é nada grave. O Sérgio ligou-me ontem à noite. A Sofia tinha acabado de dar à luz um rapagão com quase quatro quilos.

- Meu Deus, outro menino. E ela tinha tanta esperança que desta vez fosse uma menina.

- Queres dizer que eles não sabiam que era um menino? Ela não fez ecografias?

- Fez. Mas o bebé estava sempre em má posição e o médico nunca conseguiu ver. E toda a gente lhe dizia que quando é assim, é menina! Deve ter sido uma desilusão.

-Pois ele pareceu-me muito feliz, quando me deu a notícia.

- E tenho a certeza que a Sofia também estará. Na verdade, o desejo de qualquer mãe ou pai, é que o seu bebé seja perfeito e saudável.

Tinham parado no corredor, e preparavam para entrar na cozinha quando Matilde saiu, seguida da prima.

-Olá! Que fazem vocês aí a bichanar no corredor? Aconteceu alguma coisa com os meus pais? – perguntou preocupada.

-Não, - respondeu a tia. O Fernando estava a contar-me que o teu tio Sérgio lhe ligou, a informá-lo de que já tens mais um primo.

- Outro rapaz? Coitada da tia Sofia! Queria tanto uma menina! Bom, tio Fernando, esperas um pouco, enquanto nós vamos lavar os dentes e buscar as mochilas?

- Claro Matilde não te preocupes. Enquanto isso vou aceitar o café que a Laura me ofereceu. Temos tempo, eu hoje vim mais cedo.

Enquanto elas se dirigiam à casa de banho, os dois entraram na cozinha. Laura tirou do armário uma chávena que encheu com o aromático café e colocou-a na mesa em frente dele.

-Bebes só o café, não queres comer nada?

- Não, obrigado!

- Tens consultas de manhã?

-Não. Vou ter uma vídeo conferência com outros psiquiatras de várias partes do mundo, sobre o desenvolvimento de novas doenças mentais e quais as melhores terapias. Porquê?

- Porque decidi aceitar a tua proposta, e tencionava ir esta manhã ao teu consultório, se os meus pais ficarem com o Miguel.

-Mas é claro que podes ir na mesma. A Diana está lá e põe-te ao corrente de tudo. Fico muito feliz com a tua decisão. Custava-me ter de recorrer à empresa de trabalho temporário, e ter que trabalhar com uma desconhecida.

Naquele momento as duas adolescentes apareceram à porta da cozinha.

-Já estamos prontas, tio Fernando. Podemos ir quando quiseres.

Ele levantou-se e encarou-as.

- Claro, quando eu ganhar o meu beijo das duas princesas.

Rindo elas beijaram-no, e depois fizeram o mesmo com Laura e os três encaminharam-se para a porta da rua, seguidos pela dona da casa.

-Juizinho, - recomendou-lhes antes que entrassem no carro. Elas voltaram-se e atiram-lhe um beijo na ponta dos dedos entrando no veículo em seguida e fechando a porta.

Logo de seguida o carro arrancou suavemente. Laura ficou na porta até vê-lo entrar na estrada e desaparecer. Só então fechou a porta e voltou à cozinha.

 

19.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXI



Teresa levantou-se cedo nessa manhã, embora não tão cedo como antes de ficar grávida, quando chegava à pastelaria antes das cinco da manhã.
No dia anterior, quando chegara a casa extremamente nervosa por todas as emoções que sofrera desde o momento que entrara no Centro Médico até à altura em que abandonou o parque da TecnInformática, depois da longa conversa com o empresário, tomara um duche, vestira um curto pijama de algodão e bebera um copo de leite. De seguida estendera-se no sofá para um curto descanso e adormecera. Quando acordou, eram quase dez da noite.
Embora sem fome, mas pensando no bebé fez uma refeição frugal, e foi para a cama. Porém, ou por causa das horas que tinha dormido anteriormente, ou porque só naquele momento conseguisse racionalizar o que lhe acontecera, levou horas para adormecer, e o pouco tempo dormido foi cheio de pesadelos, em que se via a ter o seu filho e quando depois do nascimento pedia que lho mostrassem, a enfermeira ria-se e dizia-lhe que o bebé não era seu, e que já o entregara ao pai.
Acordou transpirada e aflita. Tomou o duche, secou os cabelos, que prendeu numa trança e vestiu-se. Correu a persiana e abriu a janela para arejar o quarto. O céu mostrava um azul brilhante e sem nuvens e o ar era ameno.
-Outro dia de calor insuportável – murmurou
Olhou o relógio. Seis e um quarto e o sol já nascera. Os longos dias de Verão, eram a sua paixão, embora o calor infernal dos últimos dias a fizessem recordar com saudade os meses amenos da Primavera.
Enquanto tomava o pequeno almoço, recordou mais uma vez, a conversa com o empresário. Surpreendera-a. Depois de tudo o que lhe tinham dito, julgara-o um homem arrogante e convencido, inflexível na sua decisão de ir para a justiça e mentalmente tentara preparar-se para um duro confronto, a fim de conseguir convencê-lo a não prosseguir as investigações e a ida ao tribunal, porém fora muito mais fácil do que pensara.
Apesar da dureza latente no empresário, e de alguns avisos da sua parte, ele mostrara-se bem mais compreensivo e confiante do que ela esperara. Todavia não podia esquecer que os dois eram pais daquela criança e os dois a queriam, pelo que teriam de tomar uma decisão o mais justa possível, e essa decisão iria fazer com que os dois tivessem de conviver. Não era de modo algum, o futuro que sonhara, quando decidira ser mãe daquela forma.
Acabou o pequeno almoço, e depois de uma passagem pela casa de banho, para lavar os dentes, fez a cama, trocou os chinelos por umas práticas sandálias sem salto, fechou a janela, correu a persiana para evitar o aquecimento do quarto, e saiu. Olhou o relógio. Quase sete e meia. A Inês só chegaria perto das nove, mas ela tinha que verificar alguns documentos antes. Pegou nas chaves do apartamento e saiu. Como a pastelaria ficava no passeio contrário, a menos de cem metros de distância do apartamento, nunca usava o carro.
Sabia que ia sentir saudades não só do trabalho na pastelaria, mas também do convívio com os clientes. Salvo um ou outro turista, a esmagadora clientela era composta por moradores da avenida e ruas adjacentes, que ela conhecia desde os tempos em que era apenas mais uma empregada.  Eram muito mais do que clientes; eram amigos a quem ela tratava pelo nome.



19.6.20

ISABEL - PARTE XXVIII



foto do google

Isabel não saiu nesse fim de semana. Perdeu-se nas lides domésticas,  tentando esquecer o seu desassossego. E na semana seguinte tinha uma campanha para produzir e entregar o que tornou o trabalho tão intenso, que esqueceu por completo outros pensamentos que não os da campanha publicitária em curso. Foi uma semana de loucos, com o cliente a rejeitar as suas ideias iniciais, o que a fez temer não conseguir cumprir o prazo, mas felizmente conseguiu.
No início da semana seguinte quando Amélia e Luísa chegaram, já a encontraram à secretária embrenhada no trabalho. Ainda não ganhara coragem de contar à amiga, o que se tinha passado naquela Sexta-Feira quando se dirigia para os correios. Por sorte, nessa manhã, Hans telefonou-lhe da Alemanha. Tinha um novo trabalho para ela, desta vez uma coisa diferente e muito especial. Ele e Anne iam casar e queriam a sua presença na cerimónia,  como madrinha. Hans era um grande amigo. Fora ele que a recebera quando ela ganhara, quase em início de carreira, o concurso para novos talentos e fora ele quem já lhe arranjara alguns contratos vantajosos para a Alemanha. Vivia com Anne há alguns anos, mas agora queriam oficializar a relação.

-Não queremos que o Peter nasça antes do casamento.

Isabel ficou maravilhada. Então eles iam ser pais. Apesar de Hans ter feito o convite quase em cima da hora, (faltavam cinco dias para o casamento), aceitou sem hesitar.
 Desligou.
- O Hans vai casar e convidou-me para madrinha, disse com a alegria duma criança a quem prometem um brinquedo novo.
Embora não o conhecesse pessoalmente, Amélia, já tinha ouvido falar muito daquele alemão. Levantou-se e foi até à secretária de Isabel.
-Quer dizer que te vais ausentar de novo? E para quando é o casório?
- Sábado.
- Este sábado?- espantou-se Amélia. - Como é possível? Desculpa mas o teu amigo é doido.
Isabel riu.
- Luísa, liga para o aeroporto e vê se consegues marcar voo para amanhã à tarde ou para Quarta-feira. Amélia, preciso de ti, esta tarde para me ajudares na compra da “fatiota”
- Retiro o que disse. O teu amigo não é doido. Vocês são doidos!
Isabel não respondeu. Afinal aquele convite era como uma bênção divina. Seria maravilhoso rever os amigos e sobretudo sair à rua sem recear encontrar Luís.
Não sabia ao certo se temia o homem ou as emoções que ele lhe despertava. Mas sabia que temia encontrá-lo de novo.
Nessa mesma tarde depois de despachar as coisas mais urgentes saiu com Amélia para escolherem a "toilette" para a cerimónia. Escolheu um vestido longo em crepe cor de vinho,  que punha em destaque a beleza do seu colo, e ombros. Sapatos de salto alto em cetim bordado e uma pequena bolsa a condizer. A empregada da loja disse-lhe que não era necessário ser tudo a condizer, a moda actual permitia jogar com as cores, mas Isabel não estava muito convencida disso, e sentia-se mais confortável assim. Como o clima na Alemanha era diferente, comprou também um bolero em veludo, cor de marfim para o caso de precisar.
Ao vê-la, enquanto se mirava no espelho do gabinete de provas, para ver se o
agasalho ficava bem com o vestido, a amiga disse:
- Se o homem dos olhos cinzentos te visse assim, nunca mais te largava. E se ele for o padrinho?
Estremeceu
- Não sejas tonta Amélia.
- Eu? Já pensaste nas voltas que a vida dá e nas coisas estranhas que nos acontecem?
 -Não tenho pensado noutra coisa nos últimos tempos.
 Quando dois dias depois se despediam no aeroporto Amélia disse-lhe:
 - Um casamento é sempre uma óptima ocasião para se arranjar namorado. Oxalá o padrinho seja interessante.
 Não pode deixar de rir. E retorquiu:
 - Não estou à procura de namorado, muito menos vou lá com essa intenção. Vou porque adoro aqueles dois e estou muito feliz por eles.
 - Pois era bem melhor que estivesses feliz por ti,- resmungou Amélia.


                                             


12.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXVIII



Luísa acordou com a cabeça pesada. Dormira pouco e mal, preocupada com o desconhecido, levantando-se algumas vezes durante a noite para verificar o seu estado.
Saltou da cama, tomou um duche vestiu-se e foi à cozinha, precisava de uma dose de cafeína que a despertasse por completo. Depois iria ver como estava o doente. O doutor Fonseca dissera que voltava de manhã e decerto o faria antes de ir para o seu consultório.
Fez um café bem forte e bebeu-o deliciada. Nada na vida lhe dava mais prazer do que um café bem forte pela manhã. Especialmente quando se levantava com dores de cabeça, como era o caso.
Depois foi ao quarto ver como estava o doente. Encontrou-o muito melhor e a querer levantar-se. Era como se com a transpiração que tivera de noite, tivesse expulsado a doença. Pôs-lhe o termómetro e verificou que não tinha febre.
- Graças a Deus está bem melhor. Pregou-me um susto. Mas não se vai levantar enquanto o doutor Fonseca não vier vê-lo, vou preparar-lhe o pequeno almoço para que possa tomar a medicação.
Torradas e café, ou prefere outra coisa?
- Uma torrada está bem. Na verdade, não sinto fome.
- Teve febre alta, é normal que não lhe apeteça comer, mas precisa fazer um esforço. Daqui a pouco o doutor Fonseca está aí e fica zangado se eu lhe disser que não comeu.
Com efeito pouco passava das nove e meia quando o doutor chegou. Depois de um cuidadoso exame ao doente disse:
- Meu amigo, estou francamente admirado. Nunca vi um doente no seu estado que tivesse recuperado antes de três a cinco dias. Estou em crer que o meu primeiro diagnóstico estava incorreto. Apesar dos seus sintomas serem em tudo semelhantes aos de uma gripe, o problema seria antes um resfriado, agravado pelo stress emocional da perda de memória. Só assim se explica o desaparecimento de todos os sintomas em tão curto espaço de tempo.
- Quer dizer que não corro perigo se sair desta cama?
- Talvez. Mas diga-me, continua sem se lembrar de nada?
- Nada, doutor. É como se uma borracha tivesse apagado toda a minha memória.
-E dores de cabeça, náuseas, tonturas, visão dupla. Sentiu?
- Dores de cabeça, ontem até meio da noite. Hoje já não.
- Muito bem. O período mais perigoso para um possível traumatismo craniano já passou, mas até que faça as 72 horas, quero que avise imediatamente a Luísa, se sentir algum desses sintomas. Entretanto pode levantar-se e fazer a sua vida normal. Continue a medicação mais um dia, por precaução. 
O homem esboçou um esgar trocista. Ele sabia lá o que era a sua vida normal. Ele nem sequer sabia qual era o seu nome!
- E continuo a pensar que devia ir ao hospital, e fazer alguns exames para tentar descobrir o que lhe provocou essa amnésia - disse o clínico ao despedir-se.
Saiu, e ele levantou-se em seguida. Precisava com urgência de um bom duche que lhe tirasse do corpo aquele cheiro a suor, que parecia ter-se entranhado na pele. Ouviu que o médico falava com a dona da casa. Ela não era uma grande beleza, mas o seu rosto redondo, os cálidos e expressivos olhos castanhos, a boca bem desenhada, o nariz ligeiramente arrebitado, o corpo pequeno, mas bem proporcionado tornavam-na uma mulher bonita e interessante. Todavia, não era apenas o aspeto físico que a tornavam tão atrativa. Era qualquer coisa de sublime, que transparecia no seu olhar e que ele não sabia identificar, mas que sentia, lhe ia direto ao coração.



4.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXIII









Por volta das quatro,  dirigiu-se ao hotel
Ao chegar ao átrio do mesmo, verificou que o empregado já não era o mesmo que o atendera no final da manhã. 
- Boa tarde. Sou Pedro Medeiros. Já aqui estive de manhã para saber se a menina Rita Sequeira, tinha deixado alguma mensagem para mim. O seu colega disse-me que não tinha nada, mas para passar a esta hora, podia ser que o senhor tivesse.
- Boa tarde. Sim a menina Rita deixou-me um envelope para lhe entregar, caso o senhor viesse procurá-la. - E abrindo uma gaveta retirou um envelope que lhe estendeu. - Aqui está.
Com mão trémula recebeu o envelope, agradeceu ao empregado e dirigiu-se a passos largos para o automóvel.
Aí chegado hesitou. Abria ou não o envelope imediatamente? Seria uma despedida? Um contato? Só havia uma maneira de o descobrir. Com as mãos a tremer, abriu o envelope e retirou de dentro dele uma folha de papel perfumado. Cada vez mais ansioso percorreu-a com o olhar. Tinha pouca coisa escrita. Apenas uma morada em Castelo Branco e a assinatura da jovem. Mas para ele aquilo foi como a mais bela declaração de amor. 
Olhou a cabine telefone,pensando que devia telefonar à mãe, mas de pronto decidiu retomar a viagem. Ligaria à mãe quando chegasse a Castelo Branco. Afinal ela já sabia que tinha chegado bem a S. Pedro e só esperaria novo telefonema à noite. Pôs o motor a trabalhar e o carro arrancou em direção ao sul. O sol aquecia a natureza, e a felicidade inundava o seu coração.Tinha a certeza de que Rita ia perceber as suas razões, e não só lhe ia perdoar, como  ia aceitar ser a rainha da sua vida.

Fim


Elvira Carvalho


                                          
Bom gente ontem estive no Hospital de Santa Maria desde as duas e meia até aos vinte para as seis. 
As notícias não foram lá grande coisa. Foi-me dito que tão breve haja uma córnea, farei o transplante e também que embora seja uma cirurgia combinada, ou seja tirar pontos, silicone, redução de um edema ocular e transplante de córnea, não me será posta a lente nesse dia por uma questão de prevenção de possibilidade de rejeição. O professor disse-me que prefere que eu faça a recuperação total do transplante e só depois fazer uma pequena cirurgia para por a lente.  Postas as coisas neste pé, não será tão cedo que eu estarei livre disto. E já faz hoje 8 meses. 

17.9.19

VIDAS CRUZADAS PARTE VIII



Na manhã seguinte, assim que o patrão chegou, Pedro pediu para falar com ele. Este olhou-o com estranheza, mas mandou-o entrar para o seu gabinete. O mais sereno possível, o jovem pediu a sua demissão e contou-lhe o que se passava. Mais do que patrão, ele sempre fora ao longo dos dez anos que levava no escritório um bom patrão, quase um amigo.  Um amigo com quem não se tem uma grande intimidade é verdade, mas que se estima.  O patrão olhou-o incrédulo. Custava-lhe a acreditar, que um jovem como Pedro, que nunca em dez anos tinha perdido um dia por doença, viesse agora dizer-lhe aquilo que estava a ouvir. Parecia-lhe um absurdo.
- E é por isso que eu quero a demissão, e também peço ao senhor Costa, que não conte a ninguém no escritório o que acabo de lhe dizer. Como deve compreender, não quero manifestações de pesar, que só me constrangem. Também não quero que a minha mãe possa vir a saber do que se passa.
- Claro. Se esperar um pouco eu mesmo faço as suas contas e passo já o cheque.
- Muito obrigado, senhor. Eu aguardo no meu lugar, enquanto ponho tudo em ordem.
Menos de uma hora volvida, Pedro saía do escritório sem se despedir de ninguém, com o cheque no bolso. Na verdade bem mais do que pensava receber, já que o Sr. Costa generosamente acrescentara uma  indemnização, coisa que não era habitual, nem de lei. Depositou o cheque no banco e saiu descansado. A conta sempre fora conjunta
com a sua mãe, e embora ela nunca fosse ao banco, sabia-o. E como sabia ler e escrever, não teria problemas em movimentá-la, quando ele já não fizesse parte do seu mundo.
Voltou para casa e começou os preparativos para a viagem. Estranhou a mãe não estar em casa, mas ela chegou logo depois.
- Fui aos correios mandar um telegrama à Palmira dizendo que chegavas hoje.
- Mas porquê mãe? Não era mais fácil telefonar?
- Fico mais descansada assim. A tua tia é um pouco dura de ouvido e podia entender mal o telefonema.
- E a tia Rosa? Já falou com ela?
- Já. Ontem à noite. Deve estar por aí a aparecer. Disse que vinha de táxi, mal rompesse a manhã.
Ele suspirou aliviado. Não queria partir, sem que a tia Rosa chegasse. Assim podia continuar os preparativos. Depois de fechar a mala da roupa, escolheu criteriosamente alguns livros, entre os últimos que recebera de prenda de aniversário e que ainda não tivera tempo de ler e meteu-os num saco. Guardou também uma caneta e um bloco de notas. Quem sabe se lhe apeteceria escrever alguma coisa? Fechou o saco e juntou-o à mala de viagem que repousava em cima da cama. Saiu do quarto e encontrou a mãe atarefada na cozinha.
- Mãe vou com o carro à oficina do senhor Duarte. Há mais de três meses que não ando com ele, preciso saber se está tudo em ordem. Não tinha graça ficar empanado no caminho, e tenho que ir à bomba encher o depósito.
- Vai filho. É melhor que ele veja o carro, sim. A tua avó sempre dizia que "quem vai para o mar avia-se em terra."
- Até logo, mãe.
- Vai com Deus, filho.



17.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXVI

   
Era ela quem sustentava a casa. Fazia limpezas. Trabalhava de manhã à noite. E aos fins-de-semana ainda lavava roupas para fora. Ele só sabia beber. E quando queria dinheiro e ela não lho dava, batia-lhe. Lembro-me de ser bem pequeno, e meter a cabeça debaixo dos cobertores para não ouvir os seus gritos, nem o choro da minha mãe.
 Um dia, tinha os meus sete anos, estava no primeiro ano, a escola ia fazer uma recita de Natal. Fui escolhido para entrar. Na altura estavam na moda uns ténis que se tornavam luminosos com o andar. Todos os meninos da minha sala os tinham, menos eu. Então a professora disse que seria bonito que todos os levassem calçados no dia da recita. Faria um efeito muito bonito no palco.
Fiquei muito triste. Cheguei a casa a chorar. A minha mãe quis saber o que se passava, e eu contei-lhe. Prometeu que me comprava os ténis. Naquela semana trabalhou mais horas do que nunca
Na sexta-feira à saída da escola levou-me à sapataria e compramos os ténis. Não cabia em mim de contente. Escondi-os  debaixo da cama, e fiquei a sonhar com o dia da festa. Todos os dias quando chegava da escola,ia buscar a caixa, e sentava-me na cama, a olhar para eles. Eram tão bonitos. Não via a hora de os poder calçar. Porém no  dia da festa, a caixa não estava no sítio. Procurei por todo o quarto, e não a encontrando fui perguntar por ela, à mãe. Disse-me a chorar que ele os tinha descoberto, e os tinha entregado na loja em troca do dinheiro. Só não me disse que era para se embebedar, mas não era preciso. Eu sabia. Jurei à minha mãe que havia de ser um homem muito rico. Depois, enlouquecido pela raiva, ou pela vida que levávamos, adoeci de tal modo que fiquei de cama. Levei três dias com febre, e vómitos.
Falava baixo e devagar. Notava-se quão penosas eram aquelas recordações. Teresa tinha os olhos rasos de água. Não conseguia imaginar, uma criança com um sofrimento tão grande. Levantou a mão e acariciou ternamente a face masculina. Não era a carícia de uma mulher apaixonada. Era a carícia de uma mãe, solidária com o sofrimento do filho.
Rui agarrou os ténis, e pressionou-os na mesa, fazendo com que uma corrente luminosa, percorresse a face visível da base.


29.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE X


Quando naquela manhã, Teresa chegou a casa de Luísa, a amiga viu logo que a noite não tinha sido benévola para ela.
Teresa, saudou Tiago e entregou-lhe o filho, de quem se despediu com um beijo e as habituais recomendações. 
Depois entrou no carro da amiga, que já a esperava para seguirem para o emprego.
- Estás pálida. Não conseguiste dormir?
Teresa que apertava o cinto de segurança, retorquiu:
- Tu dormirias se estivesses no meu lugar? Hoje mesmo vou começar a procurar emprego. Não será fácil, mas não posso continuar na “Tudilar”
- Porquê? Amaste-o tanto que ainda mexe contigo passados todos estes anos?
- Nem devias perguntar isso. Tu, melhor que ninguém, sabes que o amei mais do que tudo no mundo. Sofri muito. Não foi só o seu abandono, foi a falta de uma qualquer explicação, o que implica uma rejeição total ao meu amor e à minha pessoa. Tenho medo de não ser, suficientemente forte, para que não se reacendam sentimentos antigos. E não quero voltar a passar pelo mesmo.
- Já pensaste que pode ter casado?
- Não. Não acredito que alguém o tivesse interessado a esse ponto. Teria que ter mudado muito.
- Chegamos. Vamos lá a ver como corre o dia. Almoçamos juntas?
- Claro.
Separaram-se à porta do escritório. Teresa seguiu para o seu gabinete no outro extremo da empresa. Tirara o casaco e preparava-se para o pendurar quando o telefone interno tocou.
- Teresa? – Era a voz de Luísa
- Já tinha saudades de te ouvir – disse rindo. Até ela chegou o riso da amiga. Depois…
- Tê, ele deixou uma nota em cima da minha secretária. - Não precisava nomear quem deixara. As duas sabiam-no. - Quer todos os chefes de secção na sala de reuniões às 11 horas. Estou nervosa. Será que vai haver despedimentos?
- Não fiques. Logo se verá. Já avisaste mais alguém?
- Não. Vou fazê-lo agora. Até logo.
Desligou e ficou pensativa. Que quereria ele? Todos sabiam que a firma  estava quase na falência. Será que ele ia despedir pessoal?
Trabalhava naquela empresa, há quase seis anos. Quando lá entrou, a situação era bem diferente do que estava hoje. Havia muitas encomendas, exportavam muito, mas também vendiam bem para o mercado nacional. Depois veio a crise, as encomendas começaram a diminuir, o preço dos o materiais subiram, e a situação começou a deteriorar-se.


Peço desculpa se continuo um tanto ausente, não está fácil conseguir tempo para blogar, enquanto os problemas atuais se mantiverem. Tenham no entanto a certeza que sempre que puder estarei convosco.



26.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE VIII




Todos os dias, Teresa, saía de casa de manhã, com o filho e dirigia-se a casa de Luísa. Aí, deixava Martim com o padrinho, Tiago, o marido de Luísa, e o filho deles, André.
Tiago trabalhava por conta própria, tinha flexibilidade de horário, pelo que se encarregava de levar os meninos à escola e ir buscá-los à tarde.
Teresa deixava o carro junto à casa da amiga e ia com ela, para o emprego. Por vezes trocavam, era ela quem levava o carro e a amiga.  O regresso era feito também em conjunto. Assim naquele dia, quando Teresa, desceu ao estacionamento já a amiga estava no carro à sua espera.
- Então? O que te pareceu? - Perguntou Luísa, iniciando a marcha, mal a amiga entrou no veículo,
-É o Rui. – Respondeu quase sem voz
- O Rui?- Perguntou com estranheza. Que Rui? Perguntava-te o que te pareceu o novo dono da empresa, Mário Silveira.
- Sim. Antigamente chamava-se Rui.
A amiga travou a fundo, fazendo com que o carro se imobilizasse, com um longo lamento dos pneus. Olhou para ela e só naquele momento reparou na palidez da jovem, e no tremer das suas mãos.
- Queres dizer que é… o pai do Martim?
Assentiu com a cabeça
- Caramba Tê, não tinhas dito que era milionário.
- Não era. Ou se o era, eu não sabia. Bem na verdade, eu nunca soube nada dele. Apenas que trabalhava num Banco e que fazia traduções para uma editora. Nada mais. Tinha pouco mais de vinte anos, era uma miúda loucamente apaixonada, e isso era tudo o que me importava.
- E agora?
-Agora é melhor que ponhas o carro a trabalhar. Se nos atrasamos as crianças ficam impacientes.
- Tens razão, - disse obedecendo. E acrescentou:
- Vais contar-lhe do Martim?
- Não. Nunca. Não quero que saiba. É meu filho.
Fez-se silêncio. Depois…
- Achas que te reconheceu?
- Para meu sossego e do Martim, gostaria de dizer que não. Mas tenho a certeza de que me reconheceu. Outra coisa, Luísa, por favor, não contes nada ao Tiago.
- Claro que não. Fica descansada.
Tinha acabado de estacionar. Tiago já estava à porta com as crianças. Martim despediu-se com um até amanhã, e correu para a mãe, que se baixou para o abraçar.
 Depois, despediu-se dos amigos, entrou no carro, e seguiram para casa.
Como sempre Martim não se calava, contando as peripécias do dia escolar. Porém Teresa tinha a mente ocupada com outras coisas



28.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XI



Paula chegou ao escritório no dia seguinte, pelas catorze horas.
Tinha trabalhado no dia anterior até às dez da noite e toda a manhã daquele dia,  mas estava tudo pronto para a festa.  Agora só tinha de se preocupar em estar presente no início da festa, e assegurar-se que ela ia decorrer sem nenhum incidente que lhe roubasse o brilho. Era sempre assim. Ela estava presente em todas as festas, mas só até se assegurar que tudo estava a correr como ela planeara. Depois despedia-se dos anfitriões e regressava a casa. Não se sentia bem naqueles ambientes tão cheios de hipocrisia. Ela era muito frontal. Gostava da verdade acima de tudo. Saudou Irene e dirigiu-se para o seu gabinete, seguida pela secretária.
- Já terminaste a decoração do salão?
- Trabalhei ontem até às dez e esta manhã, mas está tudo pronto.
Falta-me confirmar data e hora com a empresa de segurança que vai estar presente. Podes fazer isso em seguida. E o “rei” da Cozinha Portuguesa, sempre vem?
- Tal como te disse ao telefone ontem à noite, telefonaram de novo à tarde para saber a resposta e eu marquei para as quinze.  Estou muito curiosa. Não é costume que os futuros clientes, queiram marcar uma entrevista contigo. Por norma, sempre nos contactam por telefone, ou correio eletrónico. E só já quase em cima do evento é que aparecem. E às vezes nem chegam a aparecer, são as secretárias ou os agentes que tratam de tudo. Não estás curiosa?
- Nunca ouviste falar em milionários excêntricos? Ou maníacos do trabalho?
- Dos primeiros já ouvi falar, mas nunca conheci nenhum. Maníacos do trabalho, tenho uma na minha frente. Bom se não tens nada urgente para mim vou para o meu lugar.
Dirigiu-se para a porta, mas antes de a abrir voltou-se e batendo a mão na testa disse.
- Ah! Já me esquecia. Chegou a resposta do Ferraz. Aprovou a primeira opção. A festa vai ser ao estilo dos gloriosos anos vinte. Vou encomendar os endereços.
  Irene saiu e Paula olhou o relógio. Catorze e vinte e cinco. Levantou-se e foi até à janela. No céu sem nuvens o sol brilhava aquecendo tudo à sua volta. Estava-se na Primavera, mas os dias já anunciavam o Verão que se aproximava. Na rua não andava muita gente. Não era para admirar, quem não estava a trabalhar, não saía aquela hora. Voltou para a secretária. Estava nervosa. A situação da sua família preocupava-a. Nunca fora muito chegada ao pai, talvez porque ele também não se tivesse preocupado em criar laços de carinho, quando ela mais precisava. Mas gostava muito da madrasta, e adorava o irmão. E depois havia aquele homem que ela não conhecia, e que o pai dizia que o podia salvar da ruína, em troca de se casar com ela. Tinha cabimento uma coisa assim? Retirou da mala, um pequeno espelho e olhou-se, tentando descobrir o que poderia ter levado aquele homem a semelhante disparate. Os seus cabelos negros como asa de corvo, estavam penteados para trás e presos num coque. O rosto moreno era na sua opinião vulgar. O nariz não era grande nem pequeno nem sequer arrebitado. A boca pequena era cercada por lábios grossos que seriam mais bonitos se os realçasse com um batom atraente. Porém só usava maquilhagem quando se deslocava às festas. Tinha um bonito sorriso, mas vulgar. A única coisa que reconhecia, ter muito bonitos, eram os olhos.  De um verde intenso e límpido como esmeraldas, quando estava calma, ou verde escuro como jade, quando alguma coisa a tirava do sério. Voltou a olhar o relógio. Catorze e cinquenta e cinco. Estava cada vez mais nervosa. Ligou o computador e abriu o esboço da festa do Ferraz.


5.12.18

UMA HISTÓRIA DE NATAL - O BURRO





Era uma vez um burro. Velho e cansado como todos os burros, que viveram  anos e anos, dia após dia, sempre carregando no lombo, pesadas cargas. Agora, no fim da vida, ele só esperava que o seu dono o deixasse morrer em paz. Mas parecia-lhe que não era essa a intenção dele, quando nessa manhã de Inverno o levou para a feira. O burro, que não era tão burro quanto o seu nome dizia, percebeu que o dono, a quem servira toda a vida, se ia desfazer dele, porque achava que não tinha mais préstimo.  E embora reconhecesse que até já não tinha forças para grande coisa, doía-lhe a ingratidão do dono. 
Esperaram por mais de três horas na feira. De vez em quando aparecia alguém que parecia interessado no burro, mas ao analisá-lo de perto concluía que era demasiado velho para o que precisavam, e depressa se desinteressavam. 
Um dos que se aproximaram para o ver, dissera mesmo ao dono. "Está velho. Já não tem préstimo. Devia abatê-lo"
O velho burro estremeceu de terror. E pensou que os homens eram animais perigosos. Serviam-se dos outros animais, enquanto eles podiam, executar por si as tarefas mais difíceis, e quando estavam velhos, matavam-nos. Pensou se eles fariam o mesmo aos da sua espécie. Mandariam abatê-los quando estavam velhos?
Ao findar do dia, quando o dono se preparava para fazer o regresso, e o pobre burro, não pensava noutra coisa que não fosse a frase cruel ouvida de manhã, sem conseguir descortinar no seu dono se era ou não isso que ele ia fazer, um homem alto e magro de ar calmo e bondoso aproximou-se do burro e do seu dono.
Examinou-o e perguntou o preço. 
-Muito alto para um burro velho, -disse.
Voltou a examinar o burro. Passou-lhe a mão pelo lombo. O burro estremeceu. Sentiu os calos na mão do homem, e no entanto aquela mão, transmitiu-lhe uma tal doçura, que o pobre do burro não habituado a isso, ficou maravilhado.  Ah! Se ele soubesse rezar, decerto teria rogado ao Deus do homem,  para que o comprasse, de tal forma o desejou. Mas ele era apenas um burro.
-Dou-lhe metade, -disse o homem
O dono regateou. E o homem virou costas decidido a partir. O burro ficou triste. Tão triste, que uma lágrima turvou o seu olhar cansado.  Mas então o dono, perdida já a esperança de melhor preço, chamou o homem.
Este voltou atrás e fez a compra.
O homem pegou o burro pela arreata, e dirigiu-se para casa. Pelo caminho falou como se soubesse que o burro o entendia:
-Estás velho, amigo. Vamos a ver se consegues ajudar-nos.  Para te ser sincero, preferia um animal mais novo. Mas não vi nenhum. E ainda que visse, talvez não tivesse dinheiro suficiente para o comprar. Espero que dês conta do recado e nos ajudes na viagem.
A palavra viagem, não agradou ao velho burro, que  já sentia as patas fracas. Mas entre uma viagem e a morte,  que decerto o esperava na volta para casa do seu antigo dono, a escolha era óbvia. 
Relinchou tentando dar ao novo dono, uma confiança de que ele próprio duvidava.
Nessa noite, foi o burro muito bem tratado, em palavras e ração, pelo que adormeceu feliz da vida.
Na manhã seguinte, eis que o homem se apresenta com a esposa, e uma carga que lhe põe no lombo, e os três empreendem a tal viagem. De vez em quando, o burro olhava a mulher, que se apresentava em adiantado estado de gravidez, e pensava que ela não ia aguentar muito tempo a caminhada. Em breve teria que a carregar.  Temia não ter forças para isso.
A meio do dia, fizeram uma pausa.  Tiraram-lhe a carga e deixaram-no livre, para que pastasse algumas ervas que por ali espreitavam entre o gelo do inverno, enquanto o casal se sentava sobre um pedaço de rocha e comia alguma coisa. 
Pouco tempo depois, o homem pegou o burro pela arreata e levou-o até junto da mulher que se mostrava visivelmente cansada. O burro percebeu que tinha chegado o momento tão temido. E se ele não fosse capaz de levar a mulher? Que seria do casal, perdido no descampado ermo, em pleno inverno?
O homem ajudou a mulher a montar e pegando na carga até aí transportada pelo burro colocou-a às costas e os três recomeçaram a viagem.
Mal retomaram a marcha, o velho burro abriu ainda mais os seus grandes olhos, espantado. Que milagre era aquele? Porque não sentia qualquer peso no lombo?  Será que a pobre mulher tinha caído? No seu estado? Virou a cabeça, para constatar que ela seguia bem sentada no seu lombo.
Então porque ele não sentia qualquer peso? Seguia sem esforço, caminhando melhor que nos anos da sua juventude. E assim seguiram os três até que à noitinha chegaram à cidade. O burro reconhecia aquela cidade. Várias vezes lá fora com o antigo dono. Até já ficara num estábulo numa daquelas ruas, uma vez que o dono pernoitara na cidade. Por isso, quando depois de percorrerem várias estalagens, não encontraram lugar para pernoitar, e o casal já desanimava, na eminência de terem que pernoitar ao ar livre naquela noite fria de Inverno, o velho burro, ansioso por mostrar a sua gratidão ao casal, tomou o rumo do estábulo que ele conhecia bem.


Elvira Carvalho

21.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE IV




Acabara de se maquilhar, quando o telemóvel tocou:
-Ana, estás em casa?
- Ia sair agora, Matilde. Está tudo bem contigo? Estive em casa esta manhã, mas tinhas saído.
- A mãe disse-me. E eu queria tanto estar contigo. Por isso estou a ligar. Não nos podíamos encontrar?
- Claro que sim. Mas é sábado. Pensei que preferisses sair com o Pedro.
- Sim. Olha, se não te importares vamos os dois ter contigo. Depois se tiveres outros planos para a noite separamo-nos. Não temos que andar juntos toda a noite, mas preciso mesmo de falar contigo. É por causa do aniversário dos pais. Queres jantar connosco? Vamos jantar a um restaurante novo de comida indiana. Dizem que é muito bom.
Pensou rapidamente. Não lhe agradava fazer de pau-de-cabeleira para a irmã e o noivo. Não há nada pior para uma mulher que acabou de ter uma desilusão amorosa, do que acompanhar um par apaixonado. Por outro lado, ela gostava de comida indiana, e uma refeição no ambiente frio de um restaurante, é sempre mais agradável acompanhada
- Então Ana? Vá lá, diz que sim. Temo-nos visto tão pouco ultimamente.
- Está bem. Espero-vos aqui, ou queres que vá ter convosco a algum lado?
-Apanhamos-te aí dentro de meia hora. Está bem para ti?
-Está.
- Então até já.
Desligou o telemóvel e ficou pensativa.
Matilde era a sua irmã mais nova. Aquela com quem se sentia mais intimamente ligada. Mas desde que há três anos, decidira viver sozinha, viam-se muito menos. Às vezes, sentia uma saudade atroz da vida que tinha na casa paterna. Do quarto partilhado com as irmãs, das primeiras conversas sobre rapazes, sussurradas com Marta, a irmã mais velha, para que Matilde, ainda uma menina não se apercebesse. Dos irmãos, tão diferentes entre si, João, alegre, divertido, sempre pronto para a brincadeira, e Simão. Este, era a antítese do irmão. Sério, responsável e protetor. Especialmente com ela e com Matilde.
Sentia saudade das longas conversas com a mãe, do pai, do calor que emanava da casa paterna.
Lembrou, do dia em que decidiu ir morar sozinha. Tinha vinte e três anos e estava prestes a casar com um jovem advogado, que trabalhava com o pai, quando rompeu o noivado. O pai ficara muito zangado. E o pior, foi quando Miguel, inconformado pediu a demissão. Afonso perdia assim, não só o homem em quem confiava para entregar a vida da filha, mas também o melhor advogado da sua equipa. Ela não suportara, as recriminações paternas e decidira que era tempo de ir viver sozinha.
O toque do telemóvel interrompeu-lhe os pensamentos. Atendeu.
- Ana, chegamos. Desces, ou ainda estás atrasada?
-Desço já, - e pegando na mala, apressou-se a sair.

reedição











7.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLIX



Quando na manhã seguinte acordou, Mariana já encontrou em casa a empregada e a sua filha.
- Bons dias.
- Bom dia, dorminhoca.- Respondeu Maria
- Vieste cedo! Tínhamos combinado alguma coisa?
- Não. Mas estava ansiosa por falar contigo.
- Já tomaste o pequeno-almoço?
- Já. Mas acompanho-te com um café.
- Pode ir para a mesa, menina. Levo-lhe já o pequeno-almoço, - disse Luísa.
- Obrigado Luísa. Viu o Miguel?
-Não, menina. Quando chegámos já não estava.
Foi para a sala e Maria foi atrás.
- Parece que não dormiu em casa, - disse baixinho
- Porque dizes isso?
-Porque a mãe estranhou o quarto arrumado.
Engoliu em seco. Onde teria ficado? E com quem?
Tinham-se sentado. Mariana, numa das cabeceiras da mesa, a amiga, a seu lado, numa das laterais.
Maria inclinou-se para a frente e perguntou baixinho:
-Como foi?
-O quê?
- A noite de Natal, tu e Miguel.
- Não foi, -respondeu triste
-Ó que pena!
Depois, vendo a tristeza da amiga, acrescentou:
-Deixa lá. Vão aparecer outras oportunidades.
Calou-se enquanto a mãe colocava na mesa, uma travessa com torradas, um sumo de laranja e uma taça com frutos secos.
Quando Luísa se retirou, Mariana disse:
- Fazem-me falta as sessões de análise. Preciso desabafar.
- Estou aqui, - retorquiu Maria com seriedade, colocando a sua mão sobre a da amiga. - Se te serve de algo…
Serviu. Ante o espanto da amiga, Mariana contou tudo, desde os seus tempos de estudante, jovem, tranquila e cheia de sonhos, até à conversa com Miguel no dia anterior. As torradas arrefeceram, o sumo e os frutos ficaram intactos. Quando Luísa veio retirar a bandeja, ralhou com a filha, que estava a impedir a menina de comer, e com ela, porque assim ficava doente, as pessoas não vivem sem comer, e retirou-se zangada
Mariana retomou a conversa interrompida, e quando terminou, a amiga apertou-lhe a mão num gesto de carinho. 
- Como deves ter sofrido! E agora? Que vais fazer?
- Recuperar as minhas coisas, e voltar para a minha casa. Tentar seguir com a minha vida. Sei que não vou esquecer o Miguel. Mas não consigo viver neste jogo de gato e rato, esperando por ele, e ele fugindo de mim.
- Eu no teu lugar não desistia. Não dizem que “água mole em pedra dura, tanto dá até que fura”? Então, amiga, se ele é o rochedo, sê tu a água.
- Não tenho forças, para isso. Estou farta de sofrer!
- Acredito. Deves ter sofrido horrores. Que história, meu Deus! Parece uma novela.
Mariana esboçou um sorriso e disse com tristeza:
- A vida, é bem mais complicada que uma novela, Maria.