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31.1.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXIII


A tarde já ia a meio quando o clínico estacionou junto da cerca que rodeava a casa. Há mais de duas horas que parara de chover, e o vento acalmara bastante, soprando agora com pouca intensidade. A tempestade passara, mas demoraria ainda algum tempo até que os seus efeitos no rio, nas árvores arrancadas pela raiz e nas casas destelhadas desaparecessem.
-Boa tarde, doutor, - saudou Luísa ao abrir a porta ao médico.
-Boa tarde Luísa. Peço desculpa pela demora, mas tive que ver dois doentes de última hora. Onde está o doente?
-Por aqui doutor - disse encaminhando o médico para o quarto.
O homem agitava-se febril apesar do antipirético que tinha tomado ainda não havia quatro horas. Depois de um rápido olhar ao doente, o clínico perguntou:
-O que lhe aconteceu? Há quanto tempo está assim?
Não sei doutor. Era quase uma da manhã quando o Tejo começou a arranhar a porta e a ladrar aflitivamente. Fui ver o que se passava, e encontrei-o meio inconsciente à entrada da cerca.
-Não pensou chamar uma ambulância e mandá-lo para o hospital?
- Não me ocorreu, só pensei que precisava de um banho e uma bebida quente. Hoje disse-lhe que ia fazer isso e ele suplicou-me angustiado que não o mandasse para o hospital.
- Muito bem, vou examiná-lo.
- Obrigado. Aguardo lá fora, se for necessário alguma coisa basta chamar.
Saiu do quarto fechando a porta atrás de si. Não soube quanto tempo esperou até que o médico saiu, mas a espera pareceu-lhe interminável. Uma vez na sala, o médico disse:
- Parece tratar-se de um estado gripal, mas continuo a pensar que devia ir para o hospital. Lá lhe fariam exames para despistagem de outro tipo de problemas, coisa que eu não lhe posso fazer aqui.
-Será que a gripe foi causada pela tempestade de ontem? Quando o encontrei estava gelado e encharcado.
- Não Luísa, a gripe como deve saber é transmitida por um vírus. O que aconteceu ontem podia ter-lhe provocado hipotermia e matá-lo de frio, ou provocar-lhe um resfriado, mas não lhe causaria a gripe.  A chuva, o frio e mais do que isso, a exaustão, podem sim ter acelerado a progressão do vírus que ele já teria em incubação. E então minha amiga, chamo a ambulância?
- Não sei doutor, não podia medicá-lo e aguardávamos até amanhã, para ver se melhorava? Parece ter pavor do hospital, fez-me prometer que não o mandaria para lá.
- Muito bem, vou aviar a receita e  trago-a cá, já que não convém a Luísa, deixá-lo aqui sozinho. Quando eu voltar, vai seguir à riscas o que lhe digo, e amanhã volto a observá-lo. Se melhorar pode continuar o tratamento, aqui em casa, mas caso contrário eu mesmo chamo imediatamente a ambulância. Nunca se sabe quando não está uma pneumonia em desenvolvimento atrás de uma gripe. Também devo avisá-la de que o vírus da gripe é altamente contagioso. E pode já estar contagiada.
- Nunca tive gripe, nem quando há três anos o meu irmão, esteve aqui bastante mal e fui eu que cuidei dele, como o doutor decerto se lembrará.
- Já não me recordava dessa gripe do seu irmão. Mas não se deve fiar muito nisso. O organismo nem sempre tem as mesmas defesas. Então já sabe, siga à risca as instruções que lhe dei nessa altura. Vou à farmácia e volto já com os medicamentos.



8.1.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXIII



PARA QUEM NÃO SE LEMBRA, OU NÃO LEU O ÚLTIMO CAPÍTULO

PODE FAZÊ-LO AGORA AQUI








Levantou-se atordoado, apoiando-se no tronco de uma árvore. A roupa molhada e o vento agreste tinham-no enregelado. Passou a mão pela testa e sentiu que estava ferido. Possivelmente era por isso que lhe doía tanto a cabeça. Tentou lembrar-se do que lhe acontecera, mas a sua cabeça estava oca. Pensou que tinha de sair dali rapidamente, ou iria morrer de frio em pouco tempo. Olhou à sua volta com a luz de um relâmpago, mas só viu árvores. O ribombar do trovão, quase fez estremecer o chão.
“A trovoada está demasiado próxima, preciso sair daqui estas árvores podem ser uma armadilha mortal” - pensou.
Mas para onde ir? As pernas não o ajudariam a subir pelo que foi descendo, devagar, procurando não voltar a cair. Quem sabe lá em baixo havia alguma casa, onde pedir ajuda.  Ouviu o barulho da água e pensou que devia correr um rio perto.
Pouco depois chegava ao fim do arvoredo. Estava relativamente perto de um rio, mas até onde a vista alcançava, cada vez que um relâmpago iluminava a terra não via nenhuma casa. Cansado e gelado, sentia vontade de se deitar no chão e dormir.
“Não podes fazer a vontade ao corpo, ou nunca mais te levantas” – gritou a si mesmo, enraivecido pela fraqueza que o invadia .
Tinha parado de chover, mas a trovoada continuava, embora agora parecesse mais afastada. Sem saber onde poderia arranjar ajuda, ficou por momentos indeciso. Devia caminhar em frente, ou voltar para trás? O vento continuava a soprar enraivecido, gelando-o até aos ossos. Uma rajada mais intensa quase o atirou ao chão, e deu-lhe a resposta. O vento soprava nas suas costas, e ele não chegaria a lado nenhum lutando contra ele, no seu atual estado de debilidade. Tinha que aproveitar a força do vento, para compensar a sua falta de forças, pelo que seguiu em frente.
Não queria saber quem era, nem o que fazia naquele sítio. Recusava-se a pensar noutra coisa que não fosse chegar a um sítio habitado onde pudesse pedir ajuda. Apesar do latejar constante na cabeça, das dores no corpo, e da falta de força nas pernas, ele murmurava como se quisesse hipnotizar-se a si próprio. “Não pares, já falta pouco para que encontres uma casa e alguém te dê uma chávena de chá quente e um cobertor, para te aquecer. Anda, estás quase lá. Não vais desistir agora. São só mais meia dúzia de metros”
Quando finalmente viu uma luz iluminando a entrada de uma casa, quase não acreditou. Não sabia quanto tempo tinha andado, mas juraria que tinha percorrido vários quilómetros. Apressou o passo na tentativa de chegar mais depressa, e aproximou-se de uma pequena horta que dava acesso à casa. Jogou a mão à cancela e um cão veio ladrando direito a ela. A vista nublou-se-lhe e as forças faltaram-lhe, fazendo-o perder os sentidos e cair, derrubando a cancela.
O cão parou de ladrar. Aproximou-se, cheirou-o, e partiu a correr até à porta de casa, onde se pôs a ladrar, e a arranhar a porta como se quisesse chamar a atenção do dono da casa.
A mulher que se encontrava sentada num cadeirão junto da lareira, levantou os olhos do livro e franziu o sobrolho com ar interrogativo.
Olhou o relógio no delicado pulso. Meia noite e quarenta. Muito tarde. Já devia estar a dormir, mas entusiasmara-se com a leitura.
Pousou o livro e levantou-se. Pegou na tenaz para revolver as achas na lareira, preparando-se para ir dormir. Porém o cão continuava a ladrar aflitivamente, e a arranhar a porta, pelo que se dirigiu para lá e abriu-a. O animal abocanhou a barra do seu robe e começou a puxá-la para a rua. Inquieta, sem saber o que a esperava, segui-o ao mesmo tempo que lhe falava, tentando acalmá-lo.
--Meu Deus! – murmurou quando o animal parou junto à cancela, e ela viu o vulto caído no chão.






15.10.19

TI' JOÃO O DOIDO

reedição


Encontrava-me sentada na soleira da minha porta. Tinha por hábito sentar-me ali todos os dias à tardinha. Gostava de ver o sol esconder-se, lá longe, atrás do rio, que vinha espraiando-se até quase à minha porta. Gostava de ver os bandos de passarinhos que regressavam, sabe-se lá de onde, enquanto os grilos iniciavam os seus cantos, e as luzes começavam a aparecer do outro lado do rio. O sol desaparecera há pouco, deixando apenas um clarão avermelhado, sobrepondo-se ao azul do céu.
Ouvia-se o bater de remos na água. Chap...chap...chap...
Logo depois vozes fortes sobressaindo por entre o bater dos remos. Nestes rios de águas salgadas, afluentes de outros rios, abundam pequenos peixes, como a tainha, a boga, os chocos e xarrocos. Ao cair da noite, se a maré está cheia, os pescadores vão pôr "o cerco". Umas redes colocadas em círculo, presas por estacas. Quando a maré começa a vazar, todo o peixe que estava naquele perímetro tenta fugir e fica preso nas redes. Mais tarde, com a maré já vazante,, mas ainda com água suficiente para a navegabilidade dos botes, os pescadores recolhem as redes onde o peixe ficou preso. Às vezes meu pai deixava-me ir no bote para ajudar.
Nos finais de Outubro os dias são já mais curtos, pelo que a noite caiu rapidamente. Aos meus ouvidos chegou a voz de um grupo de homens que eu ainda não via, mas que se aproximavam e eu sabia bem quem eram. Os trabalhadores da quinta regressavam às suas casas falando alto como de costume. Falavam das dificuldades da vida, do dinheiro que faltava para cobrir as necessidades da mulher ou de um filho doentes. E falavam do tempo e do futebol. Sim o futebol era tema constante das suas conversas.
-Vamos ter chuva - dizia o ti 'António Moço que por ironia do destino era o mais velho dos trabalhadores
-Parece que sim, - retorquiu outro, e acrescentou. - Está mau este ano para secar o Bacalhau. Com este tempo de chuva que tem feito, nem o pessoal ganha nada de jeito, nem o patrão que o Bacalhau que se estraga só dá prejuízo.
- Pois sim Bernardino, mas nós ficamos sempre pior. Com os dias de chuva do mês passado, levámos mais de 15 dias sem trabalhar, e sem ganhar. E o pior é que comemos todos os dias.
-É verdade. Nem me quero lembrar disso. O dinheiro não chegou para pagar ao merceeiro. Isto de um homem levar um dia inteiro, de enxada na mão, exposto às condições do tempo e depois não ganhar para comer...
Passavam agora à minha porta. E foi nesse momento, que o Bernardino, mais inconsciente, talvez por ser o mais jovem, mudou o rumo à conversa.
Ó! Ti’António e que me diz à vitória do campeão no Domingo?
As vozes foram ficando cada vez mais longe e já não consegui ouvir a resposta.
- Olá pequena!
Olhei sobressaltada
-Olá ti'João, então só agora?
-É verdade. Estive ali sentado na muralha a ver os pescadores. Ah! Quem me dera ir com eles pôr o cerco. Mas isto é a vida. Enquanto um homem é novo, farta-se de trabalhar, chega a velho e pronto; não pode com as pernas, as mãos tornam-se inúteis e adeus, era uma vez um velho.
-Ora não diga isso ti'João, ainda não é tão velho assim...
-Não filha - interrompeu-me ele, - ainda não estou a morrer, mas olha que já faltou mais. Ah! Se o meu filho fosse vivo, outro galo cantava.
- Morreu em África não foi? -
- Morreu. E olhe que era um rapagão. Alto forte, moreno dos ares do campo e do mar. Não era por ser meu filho, mas levava a palma a qualquer rapaz cá da terra. Foi para a tropa, e em menos de um ano fiquei sem ele.
- Coitado - murmurei, e levantando a voz perguntei:
- Morreu na guerra?
-Sim. Oh! Malditas sejam as guerras que levam o sangue novo da humanidade. Veja lá a menina, se vale de alguma coisa a vida de um homem, na flor da idade e cheio de saúde, na frente duma metralhadora. Nunca foi doente, nunca sofreu de nada, sonhava casar-se, ter filhos…
Calou-se por momentos. E continuou em voz sumida como se falasse apenas para ele mesmo.
-Dizem que o meu filho foi um herói e deram-me uma medalha. Medalha! Bah! Que me importa a mim a medalha? Ela não me acarinha, não conversa comigo, quando à noite me vejo em casa sozinho, nem me dá o neto que me tornaria mais doce a velhice, -terminou num soluço rouco.
Passou-me pela memória o facto de lhe chamarem João, o Louco. É possível que estivesse doido sim, mas não se juízo e sim de dor.
-Vamos lá ti'João, acalme-se. Não remedeia nada com isso, e o seu filho não havia de gostar de vê-lo assim.
-Tem razão menina, mas que quer, às vezes parece que tenho umas garras no peito que me rasgam de alto a baixo. E penso, que para as guerras, só deveriam ir os velhos. E morrer lá todos. E connosco, os ódios e rancores para tirar toda a peçonha da terra. Talvez assim o mundo ficasse mais justo.
- Filha! Anda para dentro que já é muito tarde, - chamou minha mãe.
-Vou já, mãezinha, vou já.
- Vá sim menina, vá. Se calhar ainda não jantou, e já vão sendo horas. Eu também vou indo. Até amanhã.
- Até amanhã, ti' João - e fiquei-me a vê-lo afastar-se até que a escuridão da noite o tragou
- Com quem falavas tu há tanto tempo? - perguntou minha mãe
-Com o ti'João do Moinho.
-Ora valha-te Deus filha, se dás conversa a doidos.
Doido? 


Ontem passei junto ao rio, no lugar onde há muitos anos esteve a minha casa. E que saudades senti, da minha soleira, do cantar dos grilos, do pôr-do-sol, do bater dos remos na água, das conversas, dos homens do campo, e do pessoal da Seca. Saudades de uma juventude que se perdeu algures numa longínqua estação do tempo. E de repente pareceu-me ouvir a voz do ti'João. Não pude deixar de pensar que talvez em algum lugar, terá enfim reencontrado o filho e quem sabe hoje será feliz... 



Fim

23.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIII

.



- Obrigada. Mas agora temos que ir. Já é tarde e a mamã pode ficar preocupada. Até outro dia.
E afastou-se levando o irmão pela mão. Tão frágil e tão linda que parecia uma boneca. Sacudiu a cabeça, e sentando-se tentou retomar a leitura, mas a imagem da jovem não lhe saía do pensamento. Seria da vila? De alguma localidade próxima? Não, não lhe parecia. Devia ser uma forasteira como ele. A figura feminina não lhe saía da cabeça e deu consigo, depois de almoço, passeando pela praça das Termas e pelo parque junto ao rio, na esperança de a encontrar de novo. 
Para sua desilusão, não voltou a vê-la nessa tarde nem no dia seguinte. 
Tentando esquecer a jovem, dois dias depois, deixou as Termas, dirigiu-se à vila, e por lá passou a manhã. No largo central andou pelo jardim, observou o edifício do tribunal, passou pela Câmara Municipal e vendo aberta a Igreja do Convento de S. José, resolveu entrar. Quando era menino, a mãe, senhora de grande religiosidade, levava-o sempre à missa. Frequentou a catequese e até fez a comunhão solene. Depois aos poucos foi arranjando desculpas até deixar de frequentar a paróquia. A Igreja estava deserta e ele sentou-se num dos bancos, admirando o altar de talha dourada Joanina, decorado por dois pares de colunas torsas e o retábulo enquadrado numa escultura representando Nossa Senhora da Conceição. Num dos nichos, do intercolúnio do mesmo retábulo, havia uma outra escultura representando Santo António. Ali, naquele silêncio, sentiu uma enorme vontade de dirigir uma súplica ao Criador. Não pediu a cura, nem fez promessas. Pediu desculpas pelo seu afastamento e rogou ajuda divina para a sua mãe quando ele partisse.

28.8.19

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS...DA TROPA III


O Manuel e sua esposa no dia do casamento.





 Para ir ver a jovem, Manuel tinha que atravessar o rio e na Seca havia sempre um bote e um par de remos disponíveis para o fazer. Mas às vezes o mau tempo fazia perigar as visitas. Como naquele dia, 20 de Janeiro de 1946, noite de chuva forte, e ventos intensos, em que ao regressar com o Aires, que também tinha ido ver a namorada, a trabalhar na mesma Seca do Seixal, perderam os remos, e Manuel mergulhou várias vezes, perante o terror do amigo, até os conseguir apanhar e regressarem assim com dificuldade, mas sãos e salvos. O casamento fora marcado para Novembro, e embora faltasse pouco tempo, a Manuel parecia que ele tinha parado. O barquito e os remos, não descansavam um só dia, da travessia entre a Seca da Azinheira e a Seca do Seixal. A par da sua ansiedade, reinava o medo. Manuel tinha que tirar os documentos para se casar, e como era desertor, pensava que podia ser preso a qualquer momento.
Mas os documentos vieram sem problemas e o ele aquietou o seu coração. 
Finalmente, Novembro chegou, e com ele o tão ansiado dia do casamento. A 9 de Novembro, na Igreja de Santa Cruz, no Barreiro, o Padre Abílio Mendes, casava o Manuel com a sua amada Gravelina.
A partir desse dia, a mulher passou a trabalhar na Seca da Azinheira, e o bote e os remos foram dispensados.
Sem casa, nem dinheiro para a pagar, Manuel vivia na malta dos homens e a mulher na malta das mulheres.



                                           foto minha


A malta, era um enorme edifício que existia na Seca, para o pessoal que todos os anos, era recrutado nas aldeias do norte para a safra de bacalhau, que decorria entre Setembro e finais de Março, princípios de Abril. Este pessoal, mesmo sendo constituído muitas vezes, por marido e mulher, não podia, segundo a mentalidade de outrora, viver junto durante todo o tempo da safra. Logo, na Seca existiam dois edifícios, as  "maltas", uma para os homens e outra para as mulheres. As regras eram claras, os casais, podiam fazer as refeições juntos, num ou noutro local, mas antes das onze horas da noite, teriam que estar nas suas respectivas "maltas", sob pena de o vigia encerrar as portas e terem que dormir ao relento.
Para dar asas à paixão, os casais procuravam um pinhal que havia na Seca, situado numa ribanceira, que criava zonas ocultas aos olhares de quem por ele passava, ou o canavial, que ladeava a vedação da Seca, até à povoação da Telha.
 Usavam um nome de código que era: "Aviar a caderneta" Consta, que a pessoa que vos está a contar esta história, é filha de um "aviamento de caderneta". Em 1947, com o aproximar do final da safra, e com a mulher grávida, Manuel deita contas à vida, sem saber como evitar a ida da mulher para casa dos sogros, em Santa Cruz da Trapa, na Beira Alta.
Quer que esteja  junto de si, mas de Abril a Setembro a Seca, não tem trabalho a não ser para os que trabalham na sua manutenção. Logo a mulher não poderá ficar na malta das mulheres, e o que ele ganha, não dá para alugar uma casa.

                                               

14.10.18

PORQUE HOJE É DOMINGO




ESCUTA


Escuta
O murmúrio do rio
De pedra em pedra.
Não te parece
Alguém
Chorando?

Talvez seja
O choro dorido
Das pobres mães
A quem
Falta a comida
Para matar a fome
Aos filhos.
Ou quem sabe o lamento
Do pobre velho
Abandonado
Num corredor de hospital
O corpo doente
A alma sem forças
Para lutar.

Ou ainda, o desespero
Do jovem,
Que dia após dia,
Rompe solas
E energias
Na busca de emprego
Engolindo a raiva
Contra aqueles
Que lhe roubam
O direito ao futuro.

Escuta
O murmúrio do rio
De pedra em pedra
Não te parece
Alguém
Chorando?


13.9.18

HISTÓRIAS DE ANTIGAMENTE - DO NAVIO PARA O PRATO

Pinheiro Manso, sob o qual havia a tal barraquita de madeira onde eu nasci.




Antes de eu nascer, o meu pai falou com o senhor Capitão, gerente da Seca, para ver se a minha mãe podia ficar lá a viver, o ano todo com ele, visto que o meu pai era o lenhador e ficava o ano todo, enquanto a minha mãe quando acabava a safra ia pró norte, para a casa dos pais. Ele ganhava pouco, não tinha condições para alugar uma casa na Telha, mas não queria a minha mãe longe dele, na hora do parto.
Havia quase à entrada da Seca, perto da eira, onde se malhava o milho e o centeio na época das colheitas, uma barraquita de madeira, debaixo de um pinheiro manso. Estava desocupada, e o Capitão, disse-lhe que podiam habitá-la. Foi aí que nasci e vivi os primeiros seis meses da minha vida. Depois o Capitão, mandou-nos para um enorme barracão que ficava junto ao portão, que dava para a praia, e para a já falada "Caldeira do Alemão", por onde entrava o pessoal que vinha do Barreiro. Era um casarão de madeira com mais de onze metros de cumprimento, com quatro quartos, e um grande salão, onde havia uma mesa comprida e bancos corridos, e num  canto sobre uma chapa, dois tijolos ligados por uma grelha de ferro, que servia de fogão. Por estar junto ao rio e por causa das cheias estava assente em pilares de cimento. Aí já viviam 3 casais, ocupando cada um, o  seu quarto com os respetivos filhos. Eu e os meus pais fomos ocupar o único que ainda estava disponível.
 Foi neste casarão que nasceram mais tarde, os meus irmãos, numa altura em que os outros casais já tinham saído, e vivíamos apenas os três no casarão. E que vivi até aos 18 anos. Esta introdução servirá a quem me lê, para me conhecer melhor.
Mas voltemos ao trabalho na Seca.
Quando os navios chegavam, fazia-se a descarga. Embora a Seca estivesse junto ao rio, os barcos ficavam ancorados na parte mais funda e era preciso ir lá descarregá-los. Fazia-se isso da seguinte maneira. Iam umas tantas mulheres para o porão do navio e arrancavam o bacalhau, jogando-o para uma pequena plataforma onde 2 mulheres o apanhavam e jogavam pró convés. Era especialmente duro, enquanto os navios estavam muito cheios, até sair bacalhau suficiente para ficarem de pé, levavam as horas a trabalhar de "gatas".
  No convés outras mulheres apanhavam-no e atiravam-no para uma  lancha acostada ao navio. Quando a lancha estava cheia, um homem levava-a para o cais, enquanto outro homem acostava outra lancha vazia ao navio, para que o trabalho nunca parasse. Quando a lancha cheia, chegava ao pontão de madeira com carris de ferro, por onde deslizavam as " zorras". As" zorras" eram uns vagões que levavam o bacalhau pelo pontão até ao armazém principal para ser pesado, e depois para as câmaras frigoríficas para ser empilhado.


Mesmo no fim do pontão, haviam degraus que desciam até ao rio. Nessas escadas estavam mulheres, uma a cada dois degraus. Quando a lancha chegava ao pontão o homem acostava a lancha e passava para outra vazia, que seguia o caminho do navio. 

Na descarga, duas mulheres agarravam mãos cheias de bacalhau, pelo rabo e passavam à mulher que estava na escada junto à lancha, que por sua vez o dava à seguinte que passava à outra até chegar à zorra. Quando esta estava cheia, duas mulheres, normalmente das mais moças, empurravam a correr as "zorras" para a pesa, onde a largavam pegando noutra vazia e seguindo a correr até ao fim da ponte.
Outras mulheres levavam a zorra cheia, depois de pesada para o armazém frigorífico onde o bacalhau ia ser empilhado. Quando a altura dos braços já não chegava, iam mulheres para cima da pilha para receberem o bacalhau e o empilhar até quase ao teto.  
Aí ficava a aguardar a fase seguinte, que era a saída para o armazém de lavagem.
Nesta altura,  meia dúzia de mulheres, geralmente as mais jovens, iam para as pilhas de bacalhau nas câmaras frigoríficas, onde arrancavam o bacalhau e o jogavam em carros de mão que os homens levavam para o armazém de lavagem.
Nesta zona, havia umas enormes tinas (tanques) ocupados por 16 mulheres, 8 de cada lado. Os homens vinham com os carros de mão cheios de bacalhau e despejavam-no nas tinas. As mulheres de escova na mão pegavam o bacalhau de dentro de água e levavam-no um a um, lançando-o de seguida para outra carrinho que estava colocado no intervalo entre cada duas tinas. Enquanto faziam este trabalho cantavam em coro melodias dos ranchos folclóricos das suas terras, e não raras vezes cantavam ao desafio. Era uma maneira de passar o tempo mais rapidamente e não sentir tanto as dores nas costas, provocadas pela posição sobre a tina. Imaginam o que era estar oito horas diárias de pé, em cima de um estrado, curvadas sobre uma tina de água a lavar o bacalhau? Sem luvas, com a água gelada de inverno?
Lavado o bacalhau, era novamente salgado e empilhado e ficava assim por cinco ou seis dias. Depois era banhado. Banhar o bacalhau era mergulhá-lo em água com sal, e tirá-lo imediatamente. Isso fazia com que não fosse a secar com excesso de sal.

Estava então pronto para a secagem. Se estava bom tempo era estendido ao sol, se chovia ia para a  estufa. Com bom tempo começávamos a encher a seca às 5 da manhã e terminávamos volta das 9. Almoçávamos, às 11, merendava-se às 16 e acabava-se o dia pelas 22 horas, em dias que havia serão da noite para lavar o bacalhau. Quando não havia serão da noite, não havia a hora da merenda e o trabalho acabava perto das 18 horas.

Bacalhau secando ao sol. Foto da net.

Durante 4 ou 5 dias o bacalhau secava. À medida que secava, os escolhedores, ( homens que separavam o bacalhau seco em montinhos  consoante tamanho e categoria). Do miúdo ao graúdo.
Quando à tardinha as mulheres iam com os carros de mão, apanhar o bacalhau, levavam o bacalhau seco e escolhido para o armazém de enfardamento, e o outro para outros armazéns onde se guardava o que ainda precisava mais tempo de sol.
O armazém de enfardamento, era composto por duas partes. No rés do chão, ficava empilhado o bacalhau pronto para enfardar que depois era transportado num elevador, para o primeiro andar, onde era pesado amarrado em fardos de 60 kg, e metido  em sacos de serapilheira. Uma mulher com uma grande curva agulha e cordel cozia a boca do saco. Era o enfardamento.
Depois cada fardo era levado em carros de mão até à porta do armazém onde era lançado para uma mesa no rés do chão por um escorrega. Aí dois homens punham cada saco num carrinho de mão que as mulheres levavam até ao fim da ponte onde era lançado em fragatas, por outra tábua de escorrega, que se encarregavam de o levar pelo rio para a sede em Lisboa, onde os compradores o iam buscar.  E aqui terminava tudo. Só voltávamos a vê-lo no prato. 


Amanhã falarei da "queda do bacalhau" ou seja, do que aconteceu para terminar com algo que chegou a ser uma das nossas grandes fontes de economia.
Se até lá não estiverem ainda enjoados de tanto bacalhau.

9.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE LI


Encostou-se mais a ele, o corpo tremendo, mais de ansiedade que de medo. Insistiu
- Não te atormentes mais, nem me tortures. Deixa de lutar contra fantasmas que só existem na tua cabeça.  Eu sou real, e o meu amor por ti, é tão real, quanto esta tempestade.
 Segurou-lhe o rosto entre as mãos, e aproximou o seu do rosto dele, até quase se tocarem. Insistiu:
- Beija-me. Agora. Ou não te perdoarei nunca.
Incapaz de resistir, por mais tempo, ele obedeceu.
E, tal como um rio, que no auge da tempestade, galga  margens e arrasta tudo à sua passagem, assim o beijo que os uniu, despoletou tal paixão, que destruiu  medos e inseguranças, deixando apenas um homem e uma mulher que se amavam, e se entregavam às primícias desse amor.
Lá fora chovia torrencialmente. Aos poucos a tempestade afastava-se, e a trovoada, ficava cada vez mais distante.
Mais tarde, quando a luz voltou, ela sussurrou:
Tens fome?
-Só de ti, - respondeu ele com paixão
Ela riu baixinho. E de novo as bocas se procuraram ansiosas, as mãos  se perderam nervosas, em carícias  delirantes,  e os corpos se envolveram na ancestral dança do amor.





************************************** - EPÍLOGO -******************************** 



Já se passaram mais de quatro anos, desde aquela noite de Dezembro.   Tempo em que muita coisa aconteceu na vida dos dois protagonistas desta história. 
Mariana recuperou os seus documentos, bem como a chave da sua casa.Continuou com as sessões de psicoterapia, durante algum tempo, até interiorizar que o sentimento de culpa, que quase a endoidecera, não tinha razão de ser.
 Casaram numa manhã de sol,no início da primavera. Numa cerimónia, simples e íntima, na presença de Luísa, da filha e do namorado desta, e de alguns amigos do noivo.
 Mariana, voltou à universidade e terminou o curso. Por seu lado, Miguel era cada dia mais respeitado por público, e críticos. O seu quadro,  " Folha em branco"., que retratava Mariana, naquele dia, entre a vegetação da falésia, tal como ele a vira, fizera o maior sucesso, e fora alvo de vários estudos, e muitas ofertas, mas Miguel não o vendeu. Tinha lugar de destaque na sua sala.  
Tinham vivido na casa dela, enquanto remodelavam aquele apartamento, e quando as 
acabaram voltaram para ali, e venderam a outra casa.
Mantinham Luísa como empregada. E Maria continuava a ser, a  sua melhor amiga, embora ela tivesse recuperado a antiga amizade de algumas colegas da Universidade.
Mariana estava cada dia mais bela, mais mulher, mais madura.
Irradiava felicidade.
Por vezes, ao olhá-la, voltava a insegurança de Miguel, o temor de a perder, o medo de que a jovem o trocasse por alguém da sua idade. Tinha esse medo enraizado no peito, muito embora lutasse contra isso todos os dias. Mas às vezes, era maior que as suas forças. Ensombrava-se-lhe o rosto, entristecia-se-lhe o olhar.
Atenta, Mariana afastava essa dúvida, com todo o amor que sentia pelo marido.
Ela sabe, que essa, é uma nuvem,  que ainda vai demorar a sair do horizonte de Miguel.
Mas  hoje é um dia especial. Miguel faz cinquenta e um anos. Daqui a pouco descerá do estúdio, sairão para jantar, e festejar com alguns amigos.  
Mariana acaba de se arranjar e espera ansiosa pelo marido. Ela tem uma prenda especial para ele.
Quando ele desce, ela enlaça-o e murmura-lhe  algo ao ouvido.
 -Verdade?- pergunta ansioso, mergulhando o olhar, naqueles olhos castanhos que tanto ama.
Acena afirmativamente  com a cabeça.
 Sentindo um nó na garganta, o coração batendo desenfreado no peito, ele aperta-a contra si, e murmura emocionado:
-Bendita sejas, Mulher!


FIM


 Elvira Carvalho.




18.2.18

ENTRE DUAS DATAS



foto da net
                                                        I
Corria o ano de mil novecentos e sessenta e quatro.
O dia amanhecera radioso. Era um belo dia de Setembro, quando Setembro capricha ainda por nos dar um Verão, que a pouco e pouco se vai despedindo, renitente em dar lugar ao Outono.
 Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:

- Acorda preguiçosa. Não sabes que dia é hoje? É um grande dia!

A jovem sorriu. Sorriu para o céu azul, para o passarinho, que naquele momento, passou a cantar, esvoaçando pela janela do seu quarto, e para o sol radioso que anunciava um dia de calor. Levantou-se, foi até à janela e abriu as vidraças, deixando que o sol lhe beijasse o rosto moreno. Na sua frente, o rio, maré cheia, águas calmas, mais parecia um espelho, onde o céu se refletia vaidoso. Tomou banho, vestiu a sua melhor roupa e foi acordar a irmãzita que dormia na cama ao lado da sua. Deu-lhe banho, barrou-lhe o pão com um pouco de margarina, que constituía o de-jejum habitual, juntou-lhe um copo com leite quente,  e deixou-a a comer, enquanto "puxava as orelhas" à cama e dava uma arrumação aos quartos. Pouco passava das dez, quando a pequenita gritou alvoraçada:

- Mana, já se vê o barco, já lá vem...

Correu à janela. Era verdade. Do outro lado da ponte já se via o barco. Resolveu ir até ao cais de desembarque. Porque o navio que se via ao longe, era o Gazela, um lugre-patacho da pesca bacalhoeira, que pertencia à Parceria Geral de Pescarias, dona da Seca da Azinheira, onde ela nascera e vivia. Andando devagar, com a irmã pela mão, chegou até à velha ponte de madeira, que servia de cais de desembarque da Seca. Ali já se encontravam muitas mulheres, velhas e novas, bem como alguns homens idosos, e muitas crianças. Eram os pais, as mulheres, e os filhos dos pescadores, que ali tinham ido espera-los, a fim de anteciparem de algumas horas, a visão dos entes queridos, que há mais de seis meses, haviam partido, para os mares distantes, da Terra Nova, e Gronelândia. Era assim todos os anos. Mas apesar de não ser novidade, ela ia lá sempre. E sempre se emocionava, como se fora a primeira vez. Não tinha lá ninguém e tinha toda a gente. Nascida ali, conhecia todos os pescadores e a todos admirava. Alguns, mais novos, filhos de gente que morava na Telha, e trabalhava na Seca durante a Safra, foram companheiros de brincadeiras. Depois cresceram, e ou por gosto, ou por falta de opção, ou ainda para fugirem da guerra colonial,  juntaram-se aos pais, ou substituíram-nos, nos navios de pesca bacalhoeira. Com custo arrastada pela irmã, cuja curiosidade a empurrava lá para a frente, chegou mesmo à ponta do cais. Olhou à volta sem curiosidade. Sabia o que ia encontrar. Alentejanas, algarvias, nazarenas. Algumas vinham da terra, outras há muito tempo se tinham radicado na Telha, Quinta da Lomba, ou Verderena, localidades à volta da Seca, sabendo que tinham trabalho sempre que chegavam os barcos. Todas vinham à espera de alguém. Um filho, um pai, um irmão, um noivo, um marido...

2.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXV








- Então, filha, porque não convidaste o jovem a entrar. O Martim veio todo contente, dizer que tu autorizaste que eles fossem juntos ao jogo.
- E onde está o Martim, avó?
- Lá em cima no quarto. Trazia um livro, disse que ia ler. Mas… agora reparo. Onde é que está a tua aliança?
- No fundo do rio.
- Viva! Foi esse rapaz que conseguiu o milagre?
- Não foi o que me disseste para fazer, quando ia a sair de casa? Pois fiz-te a vontade.
- Vou fingir que acredito. Mas diz-me: Como é esse rapaz? É que o teu filho, fala dele com um entusiasmo que muitas crianças não têm pelo próprio pai. Sempre é o sobrinho do falecido António?
-É. Sobrinho, único herdeiro, jovem, atraente e muito rico. Chega para a tua curiosidade?
- Caramba Amélia, dizes isso como se estivesses com raiva do pobre rapaz. O que é que ele fez? Ignorou-te? Se assim é deve estar a precisar de óculos.
- Nada disso, avó. É que me irrita que de repente os meus amigos, a minha avó e até o meu próprio filho,  queiram à força que arranje um namorado. E como se isso não chegasse, cai-me do céu um homem que mexe comigo e me faz pôr em causa, tudo o que acreditei como certo até agora.
- Bom se admites que o rapaz mexe contigo, isso já me dá esperanças de te ver amparada antes de fechar os olhos. Só não entendo porque não o mandaste entrar.
- Porque ele convidou-nos a passar o dia na sua quinta, amanhã. Além disso praticamente se declarou. E eu precisava pensar em tudo o que me disse, antes de me decidir, e não queria ser pressionada. Importas-te de dizer ao Martim que venha jantar. Vou pôr a mesa, e aquecer a comida.
- Eu vou. Mas não penses que te escapas assim. Continuamos  esta conversa mais tarde.
Durante o jantar, Martim falou pelos cotovelos como soe dizer-se.  Estava entusiasmado com o encontro com Paulo e com a perspetiva de ele o acompanhar na festa da escola. Era incrível como em apenas dois encontros a criança se apegara aquele homem. E mais estranho ainda que da parte de Paulo, houvesse o mesmo carinho. Como se os dois já se conhecessem de qualquer lado.
De vez em quando avó e neta trocavam olhares. Era como se mantivessem uma conversa muda, mas que versava a admiração que o facto causava nas duas.
- O Paulo convidou-nos a passar o dia amanhã com ele. O caseiro tem três filhos, gostarias de os conhecer? – Perguntou Amélia.
- Claro que sim, mãe. E vamos todos? Também a avó e o Rex?
-Todos menos o Rex. Não sabemos os animais que há na quinta, não vamos criar confusão.O Paulo vem-nos buscar às onze horas. Agora vai escovar os dentes e vai para a cama. A mãe já lá vai dar-te um beijo



7.7.17

ROSA - PARTE VIII


Esta foto, tirada por mim, retrata a antiga Caldeira do Alemão depois da intervenção da POLIS. Claro que a única coisa que a liga à antiga, a que se refere o conto, é ser no mesmo sítio. De resto na altura não existiam por ali prédios nenhuns. Existia sim uma fábrica de cortiça, um pouco mais acima onde hoje é o parque da cidade. Pertencia a um alemão de nome Hermann Zunn Hingste, que faliu pouco depois do termino da Segunda Guerra Mundial.Tudo o resto era uma quinta improdutiva.

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                                             VIII

Antes de chegarem ao seu destino, passaram por uma espécie de pequena lagoa que, contrariamente ao rio, se apresentava cheia de água. Numa ponta entre a lagoa e o rio, uma pequena ponte de madeira e, sob ela, um grande portão de zinco, que servia de comporta. Apesar da escuridão noturna, ela parou:
- É a caldeira do Alemão, pertence àquela casa grande ali em cima, que é uma fábrica de cortiça. É ali que eu trabalho. Vem, já falta pouco.
Andaram mais um bocado e foram ter a um sítio cercado por arame farpado com um portão grande no qual o homem bateu.
Pouco depois, uma mulher abriu o portão. Era Amália, a irmã de João, a porteira daquele lugar, que ela soube depois, era a Seca do Bacalhau da Azinheira, de que falavam na aldeia, algumas pessoas que todos os anos eram engajadas para a safra.
Amália tratou-a com naturalidade e até talvez um pouco de carinho. Rosa pensou que ela não devia saber onde o irmão a tinha ido buscar. Estava enganada.
João era o mais novo de seis irmãos. Não chegou a conhecer o pai, que morrera na batalha de La Lys na França, na primeira grande guerra. Devia sentir-se orgulhoso, já que toda a gente lhe dizia que o pai fora um herói, mas não era assim que ele sentia. O que sentia era uma grande mágoa de não o ter conhecido e uma grande revolta contra as guerras que deixam sozinhas mulheres cheias de filhos para criar. Pouco depois do início da segunda grande guerra, João foi para a tropa. Portugal não entrou diretamente na guerra mas, através dos Açores e da base Americana lá implantada, pode dizer-se que de certa maneira lá esteve. João foi destacado para os Açores, para prestar serviço nessa base aérea. Quando embarcou, o medo de que a base fosse atacada pelas forças inimigas era real, tanto entre os portugueses como entre os americanos. O grupo de soldados foi a Fátima, despedir-se da Virgem e pedir a sua proteção.
Então, lá perante a Virgem, João fez uma promessa que para muitos podia ser estranha, mas que foi o que lhe ocorreu no momento. Prometeu, que se voltasse são e salvo, tiraria uma mulher “da vida” e casaria com ela. Toda a família sabia da promessa e, naquele tempo, uma promessa à Virgem, era uma coisa sagrada que se cumpria sem contestação.
 Depois de sair da tropa, João procurou trabalho e quando o teve começou a pensar que tinha que cumprir a promessa. Naquele tempo, os bordéis eram proibidos por lei mas, em Lisboa, havia alguns que por qualquer razão, que ele não entendia, as autoridades fingiam desconhecer.
Aos fins-de-semana, João começou a percorrê-los. Quando encontrou Rosa, já tinha visitado dois, mas ninguém lhe agradou. As mulheres, que encontrou ou eram já demasiado velhas, para a mulher que ele queria para mãe dos seus filhos, ou estavam por demais ligadas àquela vida e não se habituariam a uma vida diferente. Por isso, quando viu Rosa, com o seu ar de menina, provinciano e assustado, sentiu que tinha encontrado o que procurava.
Quando foi buscar o dinheiro exigido pela dona do bordel, João falou com a irmã, que lhe disse que podia levar a moça lá para casa até casarem.
E agora, ali estava ela, numa casa estranha, pobre de móveis, mas rica de vida, a julgar pelos dois catraios que andavam à roda dela como cão à volta do dono.
Amália destinou-lhe a cama de um dos filhos, os rapazes dormiriam juntos, não havia problema. Depois, não seria por muito tempo.



18.10.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXII





- Olha só quem voltou. Vai buscar um pedaço de broa e um naco de presunto  que o Pedro deve vir cheio de fome. E o almoço ainda demora muito?
E voltando-se de novo para o sobrinho. 
- Mas afinal porque voltaste? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas? -voltou a perguntar andando nervosa à sua volta.
Pedro colocou o braço à volta dos ombros da tia e disse:
- Acalme-se tia. Vamos entrar que já lhe conto tudo.
Entraram e depois que a empregada se dirigiu à cozinha,  o jovem começou a contar tudo o que se passara consigo, o que se passara nos últimos três meses, à tia que o escutava com o maior interesse. Quando terminou a senhora disse:
-Como deves ter sofrido. Graças a Deus não contaste nada à tua mãe. Nem sei se ela resistiria à ideia de que ia ficar sem ti. Lembro-me bem como ela  ficou quando morreu o meu irmão. Muitas vezes pensei que se não fosses tu, ela teria ido atrás dele. Mas e agora? Como vais encontrar a rapariga? Devias ter sido sincero com ela.
- Ainda tenho a esperança de que o outro empregado tenha algum recado. Afinal era ele que estava na portaria quando a Rita partiu. Mas ele só entra às quatro. Agora se não se importa vou ligar à mãe. Já deve estar já em cuidado.
Quando terminou o telefonema, a empregada anunciava que o almoço estava pronto e dirigiram-se para a mesa.
Depois do almoço o jovem informou que ia dar uma volta pelas margens do rio, depois ia ao hotel e seguiria nesse mesmo dia, pelo que se despedia já das duas. A tia insistiu para passar por lá antes da partida, a empregada ia arranjar-lhe um farnel para a viagem, porém o jovem recusou e  agradecendo a gentileza despediu-se das duas, prometendo dar notícias à tia quando tivesse novidades.
- E convida-me para o casório, se tudo correr bem,  - disse-lhe a tia quando ele já ultrapassava o portão.
- Claro - respondeu acenando num último adeus.
Pouco depois embrenhava-se no parque junto ao rio, recordando cada dia, cada gesto,  cada palavra trocada com Rita nos passeios que por ali fizeram.

27.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXXIX



            Jardim Constantino, um espaço verde entre a casa e o trabalho do casal



 Abandonado, o casarão junto ao rio, onde o Manuel passara uma boa parte da sua vida, e onde vira nascer dois dos seus filhos, foi demolido. O gerente, temia, que os arames farpados que separavam a seca, da azinhaga fossem cortados e o casarão ocupado.
Depois, o portão junto ao casarão estava selado, o pessoal na seca, que já não chegava aos cem trabalhadores, (antes da mecanização, chegaram a ultrapassar os quatrocentos) era quase só o que vinha do norte, e os poucos trabalhadores dos arredores, entravam pelo outro portão, do qual a Gravelina era a porteira.
Para o Manuel, foi como se lhe arrancassem um pedaço da alma. Há quase nove anos que lá não vivia. Mas ele continuava a cultivar o terreno, e o casarão com todas as suas memórias era sua companhia diária, enquanto cavava, regava ou sachava.
A vida do Manuel era agora muito diferente. Tinha os filhos "arrumados" ( o rapaz continuava solteiro, mas alugara uma casa ali pertinho e vivia independente) fazia o seu vinho todos os anos, com a ajuda dos cunhados que ajudara a criar, e dos genros, na pisa da uva, e até fazia uns passeios de vez em quando, de comboio, que o filho como empregado da CP, tinha direito a umas quantas viagens por ano. 
Um ano depois, a filha do meio arranjou casa em Lisboa, na Alexandre Braga, ali mesmo ao pé do emprego, já que o casal trabalhava na Pascoal de Melo. 
Era muito bom para eles, que assim deixavam de ter que madrugar e de pagar transportes, uma economia de tempo e dinheiro, de relevo.
Para o Manuel e mulher, foi uma tristeza, pois era o afastamento da neta, que agora estava numa fase de gracinhas que os trazia enfeitiçados.
Para a mais velha também foi muito doloroso. A rapariga, que apesar de tudo o que já tinha feito, continuava estéril, dedicara-se à sobrinha, como se fosse sua filha. Porém a vida é mesmo assim, a família tinha que se concentrar no que era melhor para eles, e conformar-se. Depois Lisboa, não é o fim do mundo, fica ali logo do outro lado do rio.