Pela primeira vez desde que se tinha tornado um adulto,
Cláudio sentiu que o pai lhe estava a esconder alguma coisa. Conhecia-o bem. Talvez fosse algum problema
com o casal, ou quem sabe o médico dissera-lhe alguma coisa sobre a saúde da
mulher que ele não lhe queria contar para não o preocupar. Porque com os
negócios não era. Nunca tinham corrido tão bem como no ano anterior, e este
ano, a menos que acontecesse uma catástrofe natural, como chuvas intensas ou
queda de granizo, que naquela época e com as uvas quase na fase das vindimas
seria realmente uma grave perda, o ano ia ser muito profícuo. Porém o tempo estava bom e o prognóstico do
IPMA para os próximos dez dias não podia ser melhor. Teria que telefonar ao seu
amigo Doutor Ricardo Souto, para saber se havia alguma coisa de errado com a mãe.
Até ele chegaram as onze badaladas do sino da Igreja.
Devia ir deitar-se, tinha muito trabalho no dia seguinte. Mas a noite estava
quente, o céu estrelado, e não se ouvia outro ruído que não o cantar dos grilos
na sua ária de sedução para atrair a fêmea. E as cigarras. Cláudio gostava de ficar ali em
silêncio, a sós consigo mesmo e com os seus pensamentos mais íntimos, que
ultimamente tinham um nome. Helena.
Porque teria a jovem fugido dele? Porque não lhe dera, nem
dera a si própria a hipótese de se conhecerem melhor? Será que tinha alguém a
quem não queria trair? Um namorado, um noivo?
Porque havia ela de ter aparecido na sua vida, se não
tinha intenção de ficar? E porque raio ele não conseguia esquecê-la? Mal se
abstraía do que estava a fazer e logo ela chegava, e se instalava nos seus
pensamentos como dona e senhora.
À noite, sozinho no enorme leito de casal, parecia-lhe
sentir o seu perfume, a doçura dos seus lábios. Começava a sentir o peso da
solidão. Estava na altura de procurar uma companheira. O pior é que até
conhecer Helena, não se interessara por nenhuma, e agora, só a jovem lhe
interessava. Mas como encontrá-la? Não podia andar, como os arautos da idade média, de cidade em cidade, gritando o seu nome.
Levantou-se aborrecido consigo próprio. Desde quando,
ele, Cláudio Guerreiro, pensava parvoíces, tais como andar de cidade em cidade a
gritar o nome de uma mulher? O melhor que tinha a fazer era ir deitar-se e tentar
dormir. De dia, com os imensos afazeres, é muito mais fácil esquecer.
E talvez a recordação da jovem lhe desse tréguas.
Pouco depois dormia profundamente. Acordou sobressaltado
com a sensação de que não estava sozinho. Abriu os olhos e ficou espantado ao ver Helena, envergando uma curta e sensual camisa de dormir. Estava de pé junto à cama e sorria para ele.
"Não é possível, estou a dormir, isto é um sonho,"- pensou enquanto esfregava os olhos, esperando que a visão desaparecesse, mas quando os abriu, ficou espantado ao ver a jovem não só não tinha desaparecido, como naquele momento, se deitava a seu
lado.
- Que fazes aqui? – Perguntou estupefacto.
- Chamaste-me e eu vim, - respondeu-lhe num sussurro.
Ainda sem entender como era possível, ele estendeu os
braços e ela aninhou-se neles. Começaram a beijar-se. Primeiro docemente,
depois com toda a força da paixão que os possuía. Beijavam-se, e despiam-se
mutuamente, mãos e bocas percorrendo os corpos em carícias loucas, até que não
podendo mais protelar o momento. Cláudio entrou nela e os dois iniciaram a
dança mais antiga da humanidade.
No momento sublime em que ela gritou o seu nome, acordou encharcado
em suor, deitado sobre a almofada. Acendeu a luz. Quatro horas da madrugada.
Sentou-se na cama e procurou os chinelos. Precisava com urgência de um duche.
Gente estão cansados da história? É que está tudo a falar no final!... E a procissão ainda só está no adro.
A quem pergunta pela minha saúde, estou a fazer fisioterapia e estou melhor, embora longe de estar bem.
Esta tarde, fui a uma consulta de oftalmologia, pois notei que estava a deixar de ver do olho direito e como a mãe tinha glaucoma e o irmão tem glaucoma e quando descobriu já estava cego da um olho e com apenas metade de visão no outro, fiquei assustada e fui logo de manhã marcar uma consulta.
Pois bem o farol direito está com uma catarata que já me está a roubar 50% da visão. Mas não há nenhum sinal de glaucoma.
Aconselhou a operação até ao fim do ano.