O coração de Helena batia acelerado, as lágrimas corriam
silenciosas pelo rosto pálido.
Incapaz de falar, as palavras prisioneiras do nó que se lhe
alojara na garganta, ela apenas pôde fazer um gesto afirmativo com a cabeça.
- Meu Deus Helena. Tenho uma filha quase adolescente e não
sei nada dela, - disse com a voz enrouquecida, escondendo as mãos entre o
rosto.
Novamente o silêncio pairou entre eles. Helena sentia-se
arrasada com o sofrimento que Gonçalo demonstrava. E não encontrava palavras
que pudessem amenizar a sua dor. Um pouco depois, ele levantou a cabeça e os
seus olhos procuraram os dela.
- O que ela sabe do pai? Nunca perguntou por ele? Que lhe
disse?
- Quando era mais novinha, ela queria saber porque as
outras meninas tinham pai, e ela não. Mas ela é uma criança muito inteligente e
um pouco precoce, de modo que penso que percebeu a situação, todavia então trocou
a pergunta e começou a pedir que lhe dissesse quem era o pai. Queria a todo o
custo saber o nome do homem que lhe deu o ser. Diz que não se sentirá inteira
sem saber isso. Então prometi-lhe que lhe diria o seu nome quando fizesse treze
anos. E está quase a fazê-los.
- Por favor Helena, se estivemos apaixonados ao ponto de
ter uma filha não se justifica esse tratamento. Trata-me pelo nome e por tu,
está bem?
-Sim.
-Não me sinto capaz de esperar quase um mês para poder ver
e abraçar a minha filha. Podemos dizer-lhe já? Quero contar à minha irmã e aos
meus pais. Meu Deus eles vão ficar loucos de ansiedade para conhecer-vos. Por isso gostaria que fossem comigo.
. Prometo que contarei a verdade à Matilde em breve, mas não hoje. É uma história muito intensa para contar a uma criança, tenho que o fazer com cuidado. Compreendes?
Aliás esta semana estamos na aldeia, em casa de meus pais, onde vamos passar a
Páscoa. Também preciso falar com eles, contar-lhes tudo o que me disseste. Eles
sofreram muito vendo-me grávida e sozinha.
Eu liguei várias
vezes para o teu telemóvel, mas estava sempre desligado. Mandei email e nunca
recebi resposta. Eles e eu pensámos que me seduziste e me abandonaste. Foi um grande desgosto que lhes dei, mas apesar disso, eles sempre me apoiaram. Só com o apoio deles e da Rita, a filha
de um amigo do meu pai, que é a madrinha da Matilde, eu consegui continuar os estudos com um bebé de pouca
idade.
- Deve ter sido muito duro para ti. Não posso evitar o
sofrimento porque passaste, mas posso fazer o que deve ser feito. Casar contigo, dar
o meu nome à nossa filha.
- Não Gonçalo. Vou contar à Matilde e aos meus pais o que
se passou. Aceito que dês o teu nome à Matilde, que a apresentes à tua família.
Enfim que sejas o pai que ela tanto deseja, mas não me fales em casamento.
Nunca me casaria por outra razão que não o amor.
- Mas… nós não estávamos apaixonados?
-Estávamos? Lembras-te disso?
-Não. Mas foi o que me disseram. E se temos uma filha, é
porque era verdade.
- Era. Estávamos. Acaso reparaste que falaste sempre no
passado?
para receitar os óculos de modo a que finalmente consiga ler e escrever como dantes. À tarde eu dou notícias.








