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30.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXV

 


O coração de Helena batia acelerado, as lágrimas corriam silenciosas pelo rosto pálido.

Incapaz de falar, as palavras prisioneiras do nó que se lhe alojara na garganta, ela apenas pôde fazer um gesto afirmativo com a cabeça.

- Meu Deus Helena. Tenho uma filha quase adolescente e não sei nada dela, - disse com a voz enrouquecida, escondendo as mãos entre o rosto.

Novamente o silêncio pairou entre eles. Helena sentia-se arrasada com o sofrimento que Gonçalo demonstrava. E não encontrava palavras que pudessem amenizar a sua dor. Um pouco depois, ele levantou a cabeça e os seus olhos procuraram os dela.

- O que ela sabe do pai? Nunca perguntou por ele? Que lhe disse?

- Quando era mais novinha, ela queria saber porque as outras meninas tinham pai, e ela não. Mas ela é uma criança muito inteligente e um pouco precoce, de modo que penso que percebeu a situação, todavia então trocou a pergunta e começou a pedir que lhe dissesse quem era o pai. Queria a todo o custo saber o nome do homem que lhe deu o ser. Diz que não se sentirá inteira sem saber isso. Então prometi-lhe que lhe diria o seu nome quando fizesse treze anos. E está quase a fazê-los.

- Por favor Helena, se estivemos apaixonados ao ponto de ter uma filha não se justifica esse tratamento. Trata-me pelo nome e por tu, está bem?

-Sim.

-Não me sinto capaz de esperar quase um mês para poder ver e abraçar a minha filha. Podemos dizer-lhe já? Quero contar à minha irmã e aos meus pais. Meu Deus eles vão ficar loucos de ansiedade para conhecer-vos. Por isso gostaria que fossem comigo.

. Prometo que contarei a verdade à Matilde em breve, mas não hoje. É uma história muito intensa para contar a uma criança, tenho que o fazer com cuidado. Compreendes? Aliás esta semana estamos na aldeia, em casa de meus pais, onde vamos passar a Páscoa. Também preciso falar com eles, contar-lhes tudo o que me disseste. Eles sofreram muito vendo-me grávida e sozinha.

 Eu liguei várias vezes para o teu telemóvel, mas estava sempre desligado. Mandei email e nunca recebi resposta. Eles e eu pensámos que me seduziste e me abandonaste. Foi um grande desgosto que lhes dei, mas apesar disso, eles sempre me apoiaram. Só com o apoio deles e  da Rita, a filha de um amigo do meu pai, que é a madrinha da Matilde, eu consegui continuar os estudos com um bebé de pouca idade.

- Deve ter sido muito duro para ti. Não posso evitar o sofrimento porque passaste, mas posso fazer o que deve ser feito. Casar contigo, dar o meu nome à nossa filha.

- Não Gonçalo. Vou contar à Matilde e aos meus pais o que se passou. Aceito que dês o teu nome à Matilde, que a apresentes à tua família. Enfim que sejas o pai que ela tanto deseja, mas não me fales em casamento. Nunca me casaria por outra razão que não o amor.

- Mas… nós não estávamos apaixonados?

-Estávamos? Lembras-te disso?

-Não. Mas foi o que me disseram. E se temos uma filha, é porque era verdade.

- Era. Estávamos. Acaso reparaste que falaste sempre no passado?


 

Hoje dia 30 irei de novo ao hospital de Santa Maria. Vamos

 ver se me tiram os últimos pontos. E se me fazem os exames

 para receitar os óculos de modo a que finalmente consiga ler e escrever como dantes. À tarde eu dou notícias. 

 

 

 

29.5.20

ISABEL - PARTE XIII

Queria esticar as pernas, tomar um café.
Entrou no edifício e dirigiu-se à caixa para o pré pagamento do café. Havia uma fila de quatro pessoas e Isabel entrou nela. Na sua frente um homem alto de ombros largos e porte atlético. Bem moreno, a julgar pela cor dos braços meio descobertos pela manga curta da camisa. Ocorreu-lhe um pensamento estranho. Como seria sentir-se presa nuns braços assim? Passou a mão pela testa, desorientada com os seus próprios pensamentos.
O homem pagou e afastou-se. Isabel tomou o seu lugar, pagou o café e aguardou que o outro empregado lho trouxesse, ali mesmo ao lado da caixa. Então pegou na chávena e dirigiu-se à ponta do balcão para o beber. Não lhe apetecia ir para uma mesa, estava farta de estar sentada.
De súbito sentiu uma estranha sensação. Era como se atrás dela, alguém lhe pedisse mentalmente para se voltar. Agitou-se. Levou de novo a chávena aos lábios, tentando esquecer aquela sensação, mas em vão, ela continuava lá, queimando-lhe  a nuca.
Pousou a chávena vazia sobre o balcão e muito lentamente voltou-se. Sentado numa mesa, bem na sua frente, olhando-a fixamente estava o homem que estivera na fila da caixa minutos antes.
Mas o que fez Isabel tremer da cabeça aos pés, foi reconhecer os profundos olhos cinzentos, que a atormentaram durante toda a noite.
A lembrança dessa noite, fez com que se ruborizasse e fugisse dali correndo, como se o diabo a perseguisse.
“Sê inteligente Isabel. Como podia o homem saber que sonhaste com ele? Ou aquilo que estavas a pensar atrás dele? Portaste-te como uma adolescente” murmurou finalmente mais calma, enquanto atravessava a ponte 25 de Abril em direcção ao seu apartamento.
Sempre que Isabel entrava em casa, após alguns dias de ausência, sentia uma sensação de bem-estar e felicidade. Sentia-se protegida. Como se ali no seu pequeno mundo, nada nem ninguém a pudesse molestar. Desta vez porém, a casa pareceu-lhe fria e pouco acolhedora. Abriu as janelas e afastou os cortinados deixando que o sol penetrasse na sala. Como se ao iluminar o aposento afugentasse os fantasmas do passado e aquietasse o coração.
Pegou no telefone.
- Amélia? Já cheguei.
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- Sim, a viagem foi boa. Está confirmado o jantar?
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- Às oito? Está bem. Vens por aqui?
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-Claro. Então vamos juntas.
Desligou.
Passou o resto do dia arrumando as coisas. De vez em quando,  surpreendia-se a pensar no que acontecera na viagem. Desde  que na véspera, esbarrara com aquele desconhecido na praia, e ele a segurou nos braços, que sentia um estranho desassossego.
Não percebia o que se passava consigo, e isso assustava-a.  Afinal tinham passado quase vinte anos desde a morte do marido, e durante esse tempo ela cruzara-se com muitos homens, até porque a sua profissão o proporcionava,  e nenhum lhe tinha nunca provocado tal desassossego. 
 Que estranho feitiço tinham aqueles olhos cinzentos, que pareciam invadir cada recanto do seu corpo, mergulhando até ao mais profundo do seu ser? Estava ansiosa por voltar ao trabalho. Lembrou-se do ditado . "Mente desocupada, oficina do diabo" O que ela estava a precisar, para se livrar de pensamentos indesejáveis, era ocupar a mente.
Arrumou a mala, que entretanto esvaziara, tomou um duche rápido e começou a arranjar-se para o jantar com os amigos.
Pouco passava das sete e meia quando a campainha da porta tocou. Isabel deu um último retoque nos lábios, pegou na mala e saiu. Em frente à porta estava estacionado um carro cinza e junto dele um casal aguardava.





Uma explicação:
O comentário 47.000 pertenceu à poetisa Maria João Brito de Sousa.
Se não conhecem, cliquem ali no nome e vão ver que não se arrependem. 
Uma explicação aos novos leitores para o facto de eu falar no virar do milhar, nos comentários. Sempre que passa um milhar o leitor que o fez, recebe da minha parte um miminho que é constituído por uma das minhas histórias. É a maneira com que tento agradecer a simpatia e o tempo que me dispensam. E já foram distribuídas 47 histórias.

4.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXVIII


- E foi tudo o que consegui saber.
As duas mulheres estavam sentadas à mesa da cozinha, cada uma com a sua chávena de chá. Cidália acabara de contar à enteada, tudo o que o marido lhe contara na manhã do dia anterior.
- Meu Deus, como pôde o meu pai acusá-lo de roubo, sem quaisquer provas?
- Não te recordarás,eras demasiado pequena, mas o teu pai era muito apaixonado pela tua mãe. Quando ela morreu, ficou desesperado. Dedicou-se aos negócios como se não houvesse amanhã. Com um único desejo. Esquecer. Tornou-se num homem insensível, cruel mesmo, em certas ocasiões. No escritório ninguém gostava dele, e ele sabia-o, mas isso não lhe importava. Naquela época nada lhe importava, nem mesmo tu. Aliás, disse-me que na altura te culpava indiretamente pela morte da tua mãe, já que ela teve um parto extremamente difícil, e nunca mais ficou boa depois disso. Nessa época, eu ainda não o tinha conhecido, mas quando o conheci, ele era detestável. Penso que descontava nos outros a dor e a raiva, pela perda da mulher amada. Ainda hoje não sei como pude apaixonar-me por ele, mesmo reconhecendo o seu mau génio. Talvez porque como disse Blaise Pascal, "o coração tem razões que a razão desconhece". Porque a verdade, é que apesar de reconhecer o seu mau feitio, me apaixonei por ele quase no primeiro dia em que fui trabalhar para a firma. 
Mas ele não casou comigo por amor. Casou porque percebeu os meus sentimentos e estava cansado e desorientado. Tu eras adolescente, tinhas entrado numa fase de rebeldia, e ele não sabia como lidar contigo.
-Mas, vocês pareciam tão apaixonados!
-Eu estava. E ele fingia na tua frente, porque eu lhe disse que se tu percebesses a nossa real situação não me ias aceitar, e eu nunca podia ser tua amiga e encaminhar-te na vida como ele desejava. Não foi nada fácil a minha vida na altura, mas eu tinha fé no meu amor por ele, e tu estavas faminta de amor, aceitaste-me muito melhor do que eu esperava, e ajudaste-me com o teu carinho. E acabei por conquistá-lo. Mas quando lhe pedi um filho foi outra luta. Ele temia que a história se repetisse, e só acabou cedendo quando lhe disse que se não me dava um filho, queria o divórcio. Mas tenho a certeza de que se me tivesse acontecido alguma coisa, o Miguel iria sofrer o mesmo, ou pior do que tu sofreste.
-Foi muito cruel. Ele perdeu a mulher, eu perdi mãe e pai, numa época em que qualquer criança precisa acima de tudo, do amor dos seus pais.
-Eu sei, querida. E sempre tentei compensar-te com o meu amor.
- Porque não me contaste antes?
- Porque não tinha a certeza se entenderias, tu não perdoavas a teu pai o quase desprezo com que te tratou, e tinha medo de que em vez de melhorar a vossa relação, a minha intervenção a piorasse. Estou a fazê-lo hoje, para que percebas a sua atitude naquela época. O que fez com o António, teria feito com qualquer outro empregado.
-Mas foi uma monstruosidade. Isso pode destruir a vida de qualquer um.
-Sei. E hoje o teu pai também sabe, e vive atormentado pelo remorso,todavia  o seu arrependimento não pode mudar o passado.
Por algum tempo, o silêncio reinou na cozinha. Paula lembrava as palavras do empresário a primeira vez que foi ao escritório, “arruinar o teu pai não paga um décimo do sofrimento que me causou” ou quando dias antes lhe entregara o envelope “desisti da vingança por ti. E também pela Cidália, porque me disseste que foi para ti a melhor das mães, e pelo Miguel que tanto te ama.” Será que realmente ele se importava com ela? Poderiam aquelas palavras no escritório serem realmente um declaração de amor? 
-Imagino que  António Ferreira deve ter sofrido muito, e compreendo a sua raiva - disse Cidália interrompendo-lhe os pensamentos.- Venho de uma família que nunca foi abastada, e sempre me lembro de ouvir meu pai dizer que a riqueza de um pobre era o seu nome honrado. Ele tinha muito orgulho do seu. Por isso entendo o seu desejo de vingança. O que não entendia, e me revoltava era o facto de ele te querer envolver nessa vingança. E que o teu pai, por medo da falência, estivesse disposto a pactuar com isso. Era imoral.


Porque amanhã é dia das mães, esta história volta Segunda-feira

25.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE VIII




-Não. Ele nem sabe que vim. Mas prepara-te que hoje ou amanhã o tens aí, a  tentar convencer-te.
-E tu? Não vais fazer o mesmo?
- De modo algum. Não casei com o teu pai pelo seu dinheiro. Casei porque o amava, e amo-o hoje muito mais do que nessa altura apesar de reconhecer os seus defeitos. Não me assusta ter de trabalhar. Mas tenho a certeza de que o teu pai virá apelar para os teus sentimentos filiais, e não queria que te apanhasse desprevenida. E também queria saber se vocês se conheciam, entender porque quer ele casar contigo.
-É realmente muito estranha essa exigência a não ser que queira estender até mim o ódio que tem do meu pai.
-E que vais fazer?
- Esperar que o pai me procure e me conte o que acontece. Pode ser que descubra a razão que empurra esse homem, para essa ação. Se bem que muitas vezes não há razão nenhuma especial para esses tubarões quererem abocanhar e destruir quem os impede de aumentar mais uns quantos euros nas suas contas bancárias.
- Bom, querida, tenho que ir. Ainda tenho que fazer umas compras para o almoço. Quando puderes aparece por lá. O Miguel está sempre a perguntar por ti.
- Também tenho muitas saudades dele. Mas tenho tido muito trabalho. Tenho dias que chego a casa exausta.
- Cuida de ti, querida. Até à vista.
- Adeus Cidália. Dá um beijo por mim ao Miguel.
Quando a porta se fechou atrás da madrasta, deixou-se cair na cadeira. Era uma jovem alta, delgada, de rosto moreno, cabelos negros e grandes olhos verdes.  Perdera a mãe, quando criança e fora criada, um tanto por conta própria até aos quinze anos, altura em que o pai voltara a casar.
 Cidália era muito jovem quando casou com o seu pai. Com apenas vinte e cinco anos, dir-se-ia que não seria capaz de aceitar e cuidar de uma adolescente rebelde. Mas não foi assim. Ela impôs-se usando da autoridade necessária, mas sem descurar o carinho de que a jovem estava tão carente. E em poucos meses tinha-a conquistado por completo. O próprio pai se admirou. E foi na madrasta que Paula buscou apoio para resistir ao desejo do pai de que ao entrar na Universidade, cursasse medicina, quando não tinha nenhuma vocação para isso. Depois que terminou a licenciatura, formou a sua própria empresa, e apesar do rápido sucesso alcançado, o pai sempre considerou o seu trabalho como algo menor.  Incapaz de viver em constante conflito com o progenitor, deixou a casa paterna e foi viver sozinha.  Todavia,  tinha uma maior relação de afinidade com a madrasta com quem se encontrava e saía sempre que tinha oportunidade. Aliás muito maior do que com o próprio pai. E adorava Miguel, o seu irmão de sete anos. Abanando a cabeça, como para afastar as recordações que a tinham assaltado, abriu o portátil e escreveu o nome de António Ferreira no motor de busca.


Não vejo melhoras e estou a ficar um tanto apreensiva e desejosa de que chegue o dia 26 para fazer novos exames e ver o que diz o professor.

26.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIV


Aproximou-se perigosamente dele.  
-Que se passa contigo, Simão? O que foi que eu te fiz? Porque me odeias? Desde menina, sempre foste o meu irmão preferido. Aquele em quem confiava de olhos fechados. Depois já adolescente, eras o meu ídolo. Ficava tão feliz quando nos ias buscar à escola e nos trazias para casa. Imaginas o que choramos, eu e Matilde quando foste para Paris? O quanto nos sentimos desamparadas sem ti?
A Marta não. A Marta era muito extrovertida, tinha muitos amigos, uma legião de admiradores, primeiro na escola, depois na Universidade. Ela não deve ter sentido a tua falta. Eu e a Matilde éramos diferentes. Mais tímidas. Tínhamos um certo receio de nos juntarmos aos outros. Tu eras a nossa tábua de salvação. E deixaste-nos à deriva.
As últimas palavras foram como um lamento. Simão amaldiçoou-se em silêncio. Queria consolá-la e não o podia fazer. Se lhe tocasse, não ia resistir. 
Ela revoltou-se. Porque não dizia nada? Sentiu vontade de lhe bater:
- Porquê, Simão? Porque o fizeste? E porque o fazias hoje? Fala pelo amor de Deus. Desde quando começaste a odiar-me?
- Eu não te odeio.- A sua voz soou rouca. Pelo esforço em se conter, ou pela emoção? Ele não sabia. Do que tinha a certeza é que estava utilizando todas as suas forças para resistir à tentação de a apertar nos braços e a beijar até aquietar a angústia que lhe amargurava o coração.
- Não? Então o que é? Desprezas-me? É isso? Porquê?
“Meu Deus fá-la calar. Não aguento mais” – implorou ele mentalmente
- Não sei de onde tiraste essas ideias absurdas, Ana. Porque não vives a tua vida e me deixas em paz?
- Vês? O Simão de antigamente, nunca me falaria assim.
Ia começar a chorar. E ele não ia conseguir conter-se.
- Por Deus Ana. Deixa de remoer o passado. O tempo não passa incólume por ninguém. Todos mudamos.
Semicerrou os olhos. Não queria que ela surpreendesse aquilo que ele teimava em esconder.
De súbito ela voltou-se para a janela. Estava cansada. E muito triste. A sua vida era um desastre. Precisava de se ausentar rapidamente. Ver outras terras, conhecer outras gentes. Para não sentir aquele terrível vazio no peito.
Deixou escapar um soluço.

reedição







2.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLII


Miguel não conseguia desviar os olhos da jovem. Desde o primeiro dia, sempre a achara muito bonita, mas também sempre a vira como uma adolescente. Nunca assim, tão bela, tão feminina, tão mulher.
Depois do jantar, Mariana tomou a iniciativa. Escolheu um CD de música romântica, e quando se ouviram os primeiros acordes, estendeu-lhe a mão dizendo:
-Vem, apetece-me dançar.
Ele enlaçou-a, e ela passou os braços à volta do pescoço masculino, fechou os olhos e deixou-se levar. Dançaram largo tempo, em silêncio, embalados mais pelas emoções, do que pela música, cada um sentindo no seu, o desejo pelo corpo do outro. Para ela, que cedo descobrira o seu amor por Miguel, e o fora alimentando de sonhos para o futuro, a noite era a concretização de um desses sonhos. Para ele que começou por ter pena da jovem, que se foi afeiçoando a ela, sempre olhando-a como uma miúda, que se sentira um pouco pai da jovem, confundindo sentimentos, o que estava sentindo agora, era como um pesadelo, não fazia sentido, era uma aberração e um sacrilégio. Por isso, quando sentiu os dedos femininos na sua nuca, movendo-se numa suave carícia, empurrou-a com firmeza.
-Basta! Já chega!
Passou a mão pela testa, e deixou-se cair no sofá.
Ela não desistiu. Sentou-se no braço do sofá, e inclinou-se para ele.
Porquê Miguel? Não gostas de dançar? – Perguntou baixinho, provocando,  com aparente ingenuidade.
O perfume dela, envolvia-o, inebriava-o. Tinha vontade de abraçá-la e beijá-la até à exaustão.
Em vez disso cerrou os punhos, apelando a toda a sua força interior.
- Não brinques, comigo.
- Não estou a brincar, Miguel. Não percebes que te amo? Que estar nos teus braços me faz a mulher mais feliz da terra?
Levantou-se de um salto, todos os músculos retraídos.
- Não sabes o que dizes. Não devias ter bebido…
Levantando-se, aproximou-se dele:
-Não é o álcool que me dá a volta à cabeça. São os teus olhos, a tua presença, o teu cheiro. Tu é que me dás a volta à cabeça, me inebrias e me pões tonta. Porque resistes?
Miguel travava uma dura batalha consigo mesmo. Por um lado, as palavras de Mariana, soavam aos seus ouvidos como um canto de sereia, e iam ao encontro dos seus instintos masculinos.  E se o desejo de se deixar ir, de a apertar nos seus braços e mostrar-lhe como ele era capaz de amar, era grande, por  outro lado, o seu código de honra, o facto de saber que ela não tinha mais ninguém no mundo, e a promessa que a si mesmo fizera de a proteger  impediam-no de tomar outra atitude que não fosse a rejeição.
Esforçando-se por se controlar, disse com voz rouca:
- É muito tarde.Vai dormir. Amanhã  conversamos.
E voltando-lhe as costas, encerrou-se no quarto.



Recordo que amanhã não haverá esta história.

3.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XVI







Joana estava com os nervos à flor da pele. Durante aquele mês viveu numa correria tal que quase não tivera tempo para pensar no passo que ia dar. Preocupada com a saúde da mãe, que já tinha iniciado o tratamento dez dias antes, tendo de cumprir os dois compromissos anteriormente marcados, uma festa de aniversário de uma menina de cinco anos e outra de uma pré adolescente, e ainda com o bebé que embora estivesse a ter um normal e saudável desenvolvimento, cada dia requeria mais a sua atenção e o seu tempo, ela acabara por se esquecer de si mesma, Agora que o casamento seria no dia seguinte, como que saíra enfim do transe em que estivera e dava voltas e voltas na cama sem conseguir conciliar o sono. Parecia-lhe impossível que há pouco mais de um mês não conhecesse o poderoso empresário e no dia seguinte se fosse converter na sua esposa. É normal que uma noiva esteja nervosa na noite anterior ao seu casamento, pela expectativa de no dia seguinte unir o seu destino ao eleito do seu coração. Não era o que se passava com Joana. O seu casamento era um negócio realizado entre duas partes que sabiam bem o que esperar uma da outra, O empresário deixara-o bem claro, embora  ela tivesse a perceção de que havia mais alguma coisa para além do que ele lhe contara. Não sabia bem definir aquela sensação, mas tinha a certeza de que ele não lhe contara as verdadeiras razões para a ter escolhido a ela, e não a qualquer outra para aquele arremedo de casamento. Sentira-o desde o início, mas isso não impediu que ela o aceitasse. Porque a vida da mãe, e o bem-estar do bebé, eram superiores a todos os seus traumas, e afinal ela também escondera dele o seu segredo.
Pedro surpreendera-a com a rapidez com que tratou de toda a documentação, não só para o casamento, mas também para a entrada do pedido de adoção legal do bebé. Sem dúvida que o advogado dele era muito competente e tinha bons conhecimentos.  O resto o dinheiro comprava. Também a surpreendera ao marcar imediatamente a consulta e os tratamentos da sua mãe, sem esperar pelo casamento. Afinal durante aquele mês, ela verificara que o empresário, era muito mais humano, do que aquilo que pretendia demonstrar em palavras, mesmo não tendo convivido muito, nem tendo outras intimidades que não fossem meia dúzia de beijos.
Ao contrário do casamento faustoso que o noivo pretendia organizar, Joana conseguira que a cerimónia fosse o mais simples possível, no civil, com a presença da família, as testemunhas, e alguns empresários com quem o noivo tivera, ou tinha interesses comerciais. Assim, a cerimónia realizar-se-ia no restaurante “A poesia dos sabores” pertença do noivo, que no dia seguinte por causa do evento, estaria encerrado ao público.
Joana, não tinha mais família que a mãe, e o bebé. O pai rompera com a família, para casar com a mulher por quem se apaixonara, uma jovem criada num orfanato, “que ninguém sabe de onde vem, nem tem onde cair morta” como diziam os pais dele, que ao darem-lhe a escolher entre eles e a jovem Ermelinda, ditaram o rompimento. Anos mais tarde, quando o pai falecera de um ataque cardíaco, a mãe achara seu dever informar os sogros do triste acontecimento. O sogro respondera-lhe com uma carta em que lhe fazia saber que só tinha um filho, vivia com eles e estava de boa saúde.
O sol já raiava no horizonte quando Joana conseguiu adormecer.



Será que este casamento vai dar certo? Que vos parece?


Obrigada a todos pelo vosso cuidado comigo, e com a minha saúde. Eu estou num carrossel.  Uns dias quase não tenho dores, e outros tenho muitas. O tratamento é para 8 dias, fiz 4.







15.2.18

A VIDA É ...UM COMBOIO -PARTE XLII


Dez anos depois.

Numa das melhores galerias de Lisboa, está patente uma exposição de pintura. O pintor do momento, apelidado pelos críticos como a grande revelação portuguesa do século XXI, tem os quadros da sua segunda exposição praticamente todos vendidos. A um canto da sala, o pintor, um homem alto, moreno, a beirar os cinquenta anos, totalmente vestido de preto, conversa com um casal inglês que acaba de comprar uma das suas obras, quando os seus olhos se iluminam a ver entrar uma figura feminina, na galeria. Acompanham-na, João, um rapazinho de nove anos, uma cópia fiel do Martim de há dez anos, e as gémeas Ana Rita e Joana de cinco anos, duas bonecas loiras, parecidíssimas com a mãe. Paulo anotou o endereço que o casal inglês lhe dava para o envio do quadro e delicadamente despediu-se deles e aproximou-se da sua família.
- Que surpresa agradável, - disse beijando-os.
-Tinha que os trazer, para que vissem como a tua arte é apreciada. O Martim vai chegar no fim-de-semana. Telefonou há uma hora. Está ansioso para ver a exposição. 
- Que bom. Tenho tantas saudades dele. Sabes, recebi há pouco um convite para expor numa galeria de arte no Marais, em Paris. 
- Parabéns, amor. Tu mereces, tens muito talento. 
-Logo conto-te. Agora desculpa não vos poder dar mais atenção, mas estão a chamar-me.
-Vai, querido. Nós vamos ver a exposição. Vamos meninos.
Enquanto olhava os quadros, e tentava que os filhos apreciassem a arte do pai, Amélia recuou no tempo e recordou aqueles dez anos de extrema felicidade. Três meses após o casamento, ela ficara grávida. Aproveitando esse facto, o marido convencera-a a deixar a sociedade de advogados e a aceitar um dos escritórios da firma, mantendo-se como advogada da empresa. Quando João nasceu, foi uma grande alegria, não só para o casal como para Martim. Mas Paulo continuava com o seu sonho de se dedicar à pintura, e sentindo-se frustrado com a vida de homem de negócios que levava. Amélia compreendeu que ele nunca seria inteiramente feliz se não desse asas ao seu sonho, e encorajou-o a arranjar um gestor, de modo a poder transformar o sonho em realidade. Depois de muito pensar, Paulo decidira-se. Sabendo que o cunhado era um dos melhores gestores do mercado, ofereceu-lhe sociedade na empresa de camionagem, em troca dele assumir a gestão da mesma. Com a quinta gerida por Alfredo e a empresa por Ricardo, podia enfim dedicar-se à pintura. Entretanto os anos passaram, ela voltara a ficar grávida, desta vez eram gémeos, e ele achou melhor contratar um novo advogado, que trataria de todos os assuntos jurídicos da empresa, pelo menos até que Amélia pudesse voltar, uma vez que ela não queria abandonar a sua carreira. 
Quando as gémeas nasceram, ela decidira dedicar-se apenas à família, e fê-lo até que as meninas fizeram três anos e ingressaram na escola. Nessa altura  voltou à firma, mais como assessora do irmão, do que como advogada, cargo que estava a ser muito bem desempenhado pelo atual advogado. Foi nessa altura que o marido fez a primeira exposição, que foi um grande êxito. E agora dois anos depois a nova exposição confirmava o seu talento. Tinham passado dez anos de intensa felicidade, em que os únicos desgostos que sofrera, foram as mortes de Augusta, e da avó Maria. As duas amigas partiram com um intervalo de um mês, vitimas da mesma doença, uma pneumonia. Nesse espaço de tempo, Ricardo, fora pai duas vezes, de duas meninas, e Martim terminara o Secundário e fora para a Universidade. Nos últimos meses estudara em Inglaterra ao abrigo do programa Erasmus. António e Paulo os filhos de Alfredo também estavam na Universidade. Um cursava Agronomia, outro Veterinária. Isso não seria possível sem a generosa doação do seu marido, ao irmão e criação. 
Martim, que continuava a ter uma relação muito especial com o pai,  aproveitava todas as oportunidades para estar na quinta. Continuava encantado com Matilde, a filha de Alfredo, hoje uma adolescente de treze anos, com quem ele dava longos passeios, a pé ou a cavalo, e com quem mantinha grandes conversas. Não se mostrava muito interessado nas jovens da sua idade, e os pais interrogavam-se, sobre que espécie de sentimento, ele nutria por Matilde.. Será que ia esperar por ela? 
Paulo tinha cumprido a sua promessa. O sonho que lhe parecera viver quando casara, nunca se transformara em pesadelo. Olhando-o do fundo da galeria, ela sentia o coração pleno de amor e no peito um enorme orgulho. Sorriu. Sentia-se a encarnação da própria felicidade.
 A hora do fecho da galeria chegou. Paulo acompanhou a esposa e os filhos   ao automóvel.
- Mãe, posso ir com o pai? - Perguntou João.
- Claro, filho.
 Paulo e o filho segui-los-iam no carro dele. Deixara de andar de moto quando as gémeas nasceram. A velocidade já não lhe dava o mesmo prazer de outrora, a vida era demasiado preciosa para a por em risco.
Enquanto punha o veículo a trabalhar e arrancava, pensou no agradável que era regressar a casa, brincar com os filhos, fazer amor com a sua apaixonada esposa, e sorriu.
O menino que perdera os pais, quase bebé, que tivera uma meninice triste, por não ter conhecido o carinho e os afagos dos seus progenitores, era um homem feliz.


FIM


Elvira Carvalho




E pronto o puzzle está completo.  Espero que tenha sido do vosso agrado. E já agora se me quiserem deixar algum reparo, alguma coisa que não gostaram, ou o contrário, estejam à vontade. É com vocês que eu vou aprendendo a ser melhor. Obrigada.

30.9.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE X






Enquanto procurava um lugar no frondoso jardim que ladeava o rio, Pedro pensava em como aquele lugar era bonito. E na surpresa da tia Palmira, quando o vira chegar. Ela tinha recebido o telegrama, mas não vendo o sobrinho há tantos anos, esperava decerto o jovem adolescente que vira da última vez, como se os anos não tivessem passado por ele.
Depois da surpresa inicial chamou a fiel empregada, que a acompanhara a vida inteira e apresentando-lhe o sobrinho, recomendou-lhe que ele devia ser tratado como um príncipe. Depois acompanharam-no ao quarto. Era um quarto grande, com uma larga janela de vidro ornada de uma grade de ferro no exterior.
"Bem vês, somos duas mulheres sozinhas" dissera com um sorriso quando Pedro olhou a grade com estranheza. Só na manhã seguinte verificara que todas as janelas da grande moradia de pedra ostentavam uma grade exterior. O quarto era confortável embora sem luxos. Uma enorme cama de casal, coberta por uma pesada colcha de renda manual cujo desenho formava várias estrelas. Branca, de franja retorcida como canudos de criança. Pelo menos foi o que lhe ocorreu quando olhou. Um grande guarda-fatos, sem espelho, a cómoda e as mesas-de-cabeceira com tampo de mármore. Tudo em madeira escura e linhas simples. Uma cadeira e um porta chapéus antigo, dum lado da janela. Do outro lado um lavatório antigo, em ferro forjado, ostentava uma bacia de esmalte, e por baixo um jarro do mesmo material, que devia servir para transportar a água. Pendurada no lavatório, uma toalha de linho, com um coração bordado na ponta, e rematada com uma renda de bicos. Ocorreu-lhe pensar como iria fazer a sua higiene ali, mas a tia adivinhando-lhe os pensamentos, disse:
- É só para enfeite não te preocupes. Temos duas casas de banho. Vem, vou mostrar-tas, tal como o resto da casa.