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quarta-feira, 18 de julho de 2012

O NORDESTE, SEXTA-FEIRA, 28 DE JUNHO, DE 1952

MANOEL DE OLIVEIRA PAIVA (XIV)
Uma vocação em disponibilidade
J. Paiva

Na Casa Velha, da família Oliveira Paiva havia um harmonium...
Adolfo Ferreira Caminha(1867-1897), faleceu jovem,
como o seu amigo Oliveira Paiva. (Wikipédia)
Capa da 1ª edição de  A Afilhada, 1º romance 
de  Oliveira Paiva.(Mercado livre).
"A gente vai ao quintal e não acha ata, vai a Virgínia e ach' ata"..



A convivência do lar, o enlêvo dos seus, a áura de oração, estudo e trabalho do Colégio, de onde constantemente vinha para ele e o irmão João, um chamado da Irmã Superiora a fim de prestarem algum serviço necessário que dependesse de suas habilidades e de seus préstimos, foram suavemente forçando Oliveira Paiva como a anestesiar um pouco o recalque que de todo  não mais o abandonaria senão no fim da vida.

O Mês de Maria, a Trezena de Santo Antônio, as Novenas de São José, acompanhados, ao som de um harmonium que havia em casa, com antífonas em latim entoadas pelos dois irmãos, também contribuíram para modificar a primitiva intensidade dos gestos de rebeldia contra não sabemos se a disciplina clerical que irremediavelmente o aniquilara, ou antes vindos do inferno para afastá-lo da carreira eclesiástica que, porventura, com o seu privilegiado talento e sua retidão de proceder, leva-lo-ia à cultura superior, às mais destacadas dignidades, senão às virtudes incomuns e ao apostolado irresistível...

Já se desenvolvia sua inesgotável veia de fina ironia, sua habilidade de mudar os nomes das pessoas por apelidos, empregar expressões esdrúxulas que lhe vinham de momento, procurar sempre meio de provocar a hilaridade sem ofender à dignidade e ao pudor. Isso faria com que Adolfo Caminha, na referida poliantéia, visitando-o no leito de mote, dele afirmasse : " O Paiva que eu muitas vezes vi passar triunfante como um herói legendário, entre ala se "amigos" que o cortejavam abertamente, o Manoel Paiva das quermesses com os seus epigramas finíssimos a fazer rir toda a geração hipocondríaca e atrofiada pela indolência, aquele belo tipo de cearense honesto e laboriosos, tritando "au-jour-le-jour", como um mineiro da Arte, o mármore fulgurante de seu grande talento; o Oliveira Paiva da "A Afilhada", o analista vigoroso da vida cearense, alí estava longe das alegrias ruidosas deste meio, outrora campo azul de suaves conquistas ideais onde ele se amestrava nos jogos florais da pilhéria e do folhetim..."


Havia, para exemplificarmos, no sítio do Outeiro, cajueiros e ateiras, uma verdadeira mata, com outras árvores e também arbustos. Ele e o irmão, na safra das atas, corriam apressadamente pelo quintal, e não encontravam quase nenhuma delas madura.  E, enquanto uma das irmãs, minha tia Virgínia, que não pude alcançar viva, por ter morrido também muito jovem, baixinha e sutil, sofrendo de arma, voltava de um giro mais demorado, com várias  pinhas a rachar, despertando a vontade, só pela vista, ele a observava irônico : "A gente vai ao quintal e não acha ata; vai a Virgínia e ach'ata".  Em tudo o mais tinha o dom de distribuir alegria constante e sadia, como nos mostra no romance póstumo que nos levou a referir cousas que a memória nos conservou, e para cujo contexto apenas algumas vezes ajustamos provas outras de documentos que obtivemos, ou de cuja leitura muito anterior vamos nos lembrando.


Perdida a vocação, tão bem começada e tão mal acabada, embora estivesse gozando um resto de infância no dôce remanso  da casa materna, Manoel de Oliveira Paiva, agora não lhe convindo ao talento a mediocridade da vida, tornara-se uma vocação em disponibilidade, tendo, em 1876, já pouco menos da metade de seus 31 anos de vida...
Por J. Paiva
...continua...


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NOTAS:
1- Em todos os capítulos, do texto biográfico de J. Paiva, aqui transcritos, vimos mantendo as normas ortográficas do ano em que foi escrito e publicado,  no jornal O NORDESTE, de Fortaleza: 1952;

2- As imagens que antecedem ao texto de J. Paiva, acompanhadas de legendas, tem o intuito, apenas, de ilustrar algumas referências citadas pelo biógrafo;

3- Os três próximos capítulos a serem publicados terão, como sub-título, " Na Escola Militar do Rio".  

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Até a próxima semana.................Um abraço!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O NORDESTE, TERÇA-FEIRA, 20 DE MAIO DE 1952

MANOEL DE OLIVEIRA PAIVA (VI)
"DONA GUIDINHA" no quadro da época
J. Paiva
Papa Pio IX, autor da Bula  "Pro Animarum
Salute" de 6 de junho de 1854, pela qual o
 Ceará foi elevado à categoria de Diocese.
Dom Luis Antônio dos Santos,1º Bispo do Ceará.
Lazarista  Antônio Ferreira Viçoso,(1787-1875), nascido 
em Peniche-Portugal, que foi Bispo de Mariana -MG, (é o mais
idoso, na foto.)  Imagem copiada do google, como as demais acima...
Enseada do Mucuripe, vendo-se ao fundo o Velho Farol.
(Foto: Arquivo Nirez)
Publico esse vídeo, sobre o Farol do Mucuripe, que foi
 transformado no Museu do Jangadeiro, para mostrar o quanto o local
  está  abandonado, pela Administração do Município de Fortaleza e pela
  falta de zelo, da população, ao Patrimônio Arquitetônico e Cultural  da cidade.




Queremos, com este modesto estudo, não apenas retratar a exata personalidade de Manoel de Oliveira Paiva, como também interpretar seu romance, tanto quanto possível, à luz de uma época perfeitamente determinada pelo ambiente religioso, político e social, salvando assim a crítica de inquinações que ora surdem, menos de acôrdo com a formação do autor. Aprendi a viver tendo sua memória por um dos nomes da família;  tenho padecido, pássaro que tem vivido levando cargas às costas como bêsta, as mesmas torturas do ideal;  sua mãe foi minha inesquecível "vovó", a quem mais queria, nos meus oito anos, abaixo de pai e mãe;  e meu pai, José Joaquim de Paiva, genro de minha avó materna e seu próprio irmão, foi tio e cunhado de Manoel de Oliveira Paiva.
Mas vamos primeiramente apreciar a parte rligiosa do cenário do romance.

O Ceará, até a data de sua elevação à Categoria de Diocese, pela Bula, de título aliás particularmente significativo, "Pro animarum salute", do Papa Pio IX, de 6 de junho de 1854, tinha sido vigaria forânea da Diocese de Olinda.  Dom Luis Antônio dos Santos, um santo discípulo do santo lazarista  Antônio Ferreira Viçoso, depois Bispo de Mariana, fôra sagrado a 14 de abril de 1861, e tomou posse solene da Diocese a 29 de setembro seguinte.  Ele considerava desolador o estado do rebanho católico que lhe havia sido confiado, para isso bastando avaliar-se a imensa distância que a separava do Bispado de Pernambuco.  "Que trabalho verdadeiramente sôbre-humano, exclama um seu biógrafo, exigia tão grande emprêsa!  Pobres almas que jaziam assentadas à sombra da morte, sem lar e sem amor!  Dom Luis não esmoreceu um só instante diante de tão árdua tarefa ! ".

O primeiro Bispo do Ceará empreendeu a formação e santificação do Clero, a ereção de novas Paróquias e as visitas pastorais, além da constante pregação da Palavra de Deus. Também foi um prelado possuidor de inesgotável amor ao próximo. Entre as notas do seu "Diário" havia muitas como esta:  "1878 - 3 de Dezembro - Fui socorrer a uma pobre viúva doente com dois filhos; achei mortos ela e um filho à fome ; - Confissão em Mucuripe (bexiguentos). Outeiro:  Visitas  às barracas de S. Luiz, de Pajeú, de Pacatuba".
Estes três pontos do Bairro do Outeiro eram:  um ao lado da  igreja de S. Luiz, hoje demolida;  Pajeú, junto ao antigo açude;  e Pacatuba, nas terras do Barão de Aratanha, atrás da futura igreja do Sagrado Coração de Jesus, cuja construção estava sendo iniciada como um voto do sr. Bispo para que findasse a Grande Seca. Perto do Pajeú, do lado direito, ficava o sítio ou terreno arborizado de minha avó a que nos referimos anteriormente. A mãe de Oliveira Paiva abrigava retirantes à sombra das árvores ou em casebres, sendo que inúmeros apanharam varíola, com muitos casos fatais. Minha avó, dava água a todo o povo e no Outeiro se dizia que a cacimba de Dona Mariquinha não secara  durante os três anos porque ela franqueava água a todos.  Essa cacimba fica hoje no quintal da casa à Rua 25 de Março nº 681, de propriedade do sr. Messias Gonçalves. Supomos que em seu romance o meu tio Manoel refletiu o que vira então na Casa Velha de Dona Maria Izabel de Paiva Oliveira.
Por J. Paiva
...continua...
*******

NOTAS:
1- Estou mantendo, sempre, a ortografia original do texto biográfico, de J. Paiva, publicado em 1952 no jornal O NORDESTE;

2- Os leitores mais antigos, deste espaço, devem devem ter se lembrado de alguns fatos, no texto acima, como o da "cacimba da Dona Mariquinha", que foram tratados na "Saga de uma família", em postagens de 2011;

2- O romance "Dona Guidinha do Poço", foi "inspirado" em um fato real, ocorrido em Quixeramobim, no Sertão Central do Ceará, 
quando Manoel de Oliveira Paiva teve, em mãos, um processo sobre um "crime passional". Estava o escritor naquela cidade aprazível, tratando-se de uma tuberculose que o acometera...;

3- No capítulo VII, o próximo, mais "Guidinha do Poço" no quadro da época. Não percam!!!

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Garanto que volto, na próxima semana. Abraços!





quarta-feira, 16 de maio de 2012

O NORDESTE, TERÇA-FEIRA, 13 DE MAIO, DE 1952

MANOEL DE OLIVEIRA PAIVA (V)
Contingências e sentimentos da família
J. Paiva
Nesta foto, vê-se a Rua 25 Março, em Fortaleza, no antigo bairro  
Outeiro,onde ficava o sítio comprado por Maria Isabel, mãe de 
Manoel.de Oliveira Paiva, ao ficar viúva do Mestre João. 
Era localizado à esquerda,  na parte inferior, tendo sido adquirido
em 1871. A foto é do início do século XX. Muito mudou...aí...
(Foto: Arquivo Nirez).
Praça Cristo Redentor, vendo-se ao fundo a Igreja da Prainha (N.S.
da Conceição da Prainha) que era frequentada pela família Oliveira
Paiva . A Igreja é do século XIX, mas a torre  com a praça, foi
construída na 2ª década do século XX.. Tanto a torre do Cristo Redentor,
como a Igreja da Prainha, estão sendo preservadas. (Foto: Arquivo Nirez) 
A ladeira, vista na foto, vem dar na Praia de Iracema, bem à frente.
Descemos muito essa ladeira, para irmos tomar banhos de mar.
Os degraus e os trilhos de bonde, já não existem. Hoje, é via
de carros, com intenso movimento. ( Foto: Arquivo Nirez).
O casario do Bairro da Prainha, vista do alto, da igreja. A
torre, que se avista ao longe, é de uma edificação que hoje
abriga  a Secretaria da Fazenda do Estado (SEFAZ). Já não
o coqueiral da época...próximo ao mar (antiga Praia do  Peixe,
hoje Praia de Iracema - Foto: Arquivo Nirez).
Fotos atuais, em detalhes, da Igreja da Prainha, que passou  por
algumas reformas. O Cristo na Cruz, que fica à frente da igreja,
é uma obra que foi executada pelo Mestre João (João Francisco
de Oliveira), pai de Manoel de Oliveira Paiva (meu bisavô paterno).
(Fotos: Oficina de Projetos)
Imagem de Santa Catarina Labouré, Irmã de
Caridade. Assim, era o "hábito" das Irmãs de
 Caridade francesas, que vieram para o Ceará em 1864.
Esse tipo de indumentária, inclusive o chapéu, chamado de
"corneta", permaneceu em uso até os anos 1960, salvo engano...!
(Imagem: blog ORAÇÃO E VIDA DE SANTOS).


Mas vamos descer do terreno elevado das crenças e das virtudes, a fim de apreciarmos as tristes contingências materiais em que ficára a mãe de Manoel de Oliveira Paiva.


Ela não podia continuar na casa onde uma hipoteca a precipitara. Não sei se pela exiguidade de espaço, ou por outro motivo. De um casal de escravos que, entre poucas coisas, lhe restara de uma partilha com herdeiros de dois casamentos de seu pai, filhos de uma escrava da família, vendera o Anselmo, de quem Manoel de Oliveira Paiva se lembrava certamente criando um moleque com êsse nome no romance "Dona Guidinha do Poço", astucioso que era o verdadeiro Anselmo, que molhava um pedaço de pão de milho no no azeite da lamparina acesa, ante um nicho de São Francisco das Chagas.  Pedia licença ao santo, e como êle se calava naturalmente, molhava o cuscús no azeite de côco e o comia, rindo da própria astúcia.
Rendeu o negrinho 800 mil reis, e minha avó chorava ao desfazer-se dêle, a quem queria como a um filho, forçada pelas circunstâncias duríssimas em que ficára com a morte de Mestre João. Sua irmãzinha Paula era a Madrinha Paula, "de girau", minha e de minha irmã. Tudo se acabou, tudo entrou para a eternidade...


Com êsse dinheiro, aforára um grande terreno no Outeiro. Lá foi construída uma casa de taipa, que na tradição de todos ficou conhecida como a "Casa Velha", ao ser demolida. Dali, enquanto meu tio Manoel de Oliveira Paiva ia entrar no Seminário do Crato, pois fizera sua Primeira  Comunhão ao tempo da Missão do Padre Onoratti e, demonstrara vocação ao sacerdócio, isto em 1875, parte de suas irmãs, inclusive minha mãe, ingressaram no Orfanato do Colégio da Imaculada Conceição, cuja Superiora era a Irmã Bazet, de quem lá em casa tanto se falava bem, como  nas demais Irmãs que aqui chegaram em 1864.
Três de minhas tias, entre mais ou menos 1875 e 1879, entraram no postulado das Filhas de São Vicente de Paulo, e tornaram-se verdadeiros Anjos da Guarda da nossa família. Com duas me correspondi desde os meus 7 anos. A última veio a falecer no Colégio Santa Izabel, em Petrópolis, a 1º de julho de 1945, aos 91 anos de idade e mais de 70 de vocação. Minha avó foi uma das mais antigas e assíduas Senhoras de Caridade Visitantes;  e até poucos dias antes de morrer, aos 88 anos de idade, em 1898, minha avó-bisavó, viuva de meu avô assassinado em 1842, ia todos os dias, acompanhado pelo sr. Áfio Bezerra de Menezes, da nossa casa na Praça do Colégio ou Rua 25 de Março para a Capela Velha, como assim era conhecida a antiga Capela das Irmãs, ao lado da igreja do Pequeno Grande, cuja construção apenas se iniciára. 


Enquanto Manoel de Oliveira Paiva seguia seu destino de sacertdote que um insólito incidente impediu de sêr; de militar a quem a moléstia pôs fora da carreira; de romancista que só teria de ser realmente conhecido e glorificado 60 anos após a morte, ficava o outro irmão, João de Oliveira Paiva. Pobre e enfrentando a criação e educação de não pequena família, minha avó, hábil aliás em prendas domésticas, no entanto pela madrugada fazia angu de milho, e lá ia à sua infalível Missa na Prainha. O filho João, depois que o angu ficava frio, cortava os mercados, punha-os sobre um tabuleiro, jogava-o sobre a cabeça de um negrinho e saia pela rua a vender o angu de milho feito pela mãe de Manoel de Oliveira Paiva. João de Oliveira Paiva, casado depois na família Menescal  Frota, de Arronches, não teve o espírito inventivo de seu pai, porém nenhum instrumento de música para êle tinha segrêdo, a uns afinando, a outros restaurando, a outros deslocando peças para reconstruir um terceiro. Tibúrcio Targino, com êle muito aprendera, e há pouco tempo faleceu, pobre e ignorado, o velho Mestre Antônio, afinador de piano, a quem chamávamos Antônio Conselheiro, e que tudo devia a João de Oliveira Paiva, cuja memória idolatrava.


Foi portanto, em meio a essas contingências de vida mas vivendo um ambiente doméstico de trabalho, piedade e virtudes, que se tornou adolescente Manoel de Oliveira Paiva.  Vamos já compreendendo que não era simples atavismo, uma ruminação mental e crenças desfeitas, o traço religioso, embora com alguns senões, que atravessa sua obra literária.  Vê-lo-emos com a continuação destas notas, que mais me sáem do coração que da mente, se grafar no papel...
Por J. Paiva
...continua...


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NOTAS:
1- Optei por transcrever esse texto biográfico, sobre Manoel de Oliveira Paiva, escrito e publicado em 1952 por J. Paiva, mantendo a forma original da época, em sua ortografia.

2- Sempre que possível, trarei imagens que possam "levar" o leitor a ter uma ideia de como era o "cenário" da Fortaleza da época, ou próximo à época, em que viveu Manoel de Oliveira Paiva, o personagem principal dessa história de família.

3- Quero aqui, tocar na dolorosa  "ferida" daquela época: a escravatura. Por "ironia", a mãe do biografado vendeu um escravo que criava como a um  "filho"... Assim, era: famílias abastadas, "possuiam" escravos. No entanto, Manoel de Oliveira Paiva tornou-se um dos maiores baluartes, no Ceará, no movimento abolicionistas, como pode-se constatar em sua obra, em sua  vida...


4- O Sr. Áfio Bezerra de Menezes, que acompanhava a minha bisavó-trisavó paterna, a quem J. Paiva, meu pai, se refere no seu texto acima, viria a ser meu meu bisavô e tio- avô materno.
O "parentesco duplo", se deve ao fato de que, tanto meu avô paterno, quanto meu avô materno, casaram-se, ambos, com uma sua sobrinha.


5- Os próximos capítulos, o VI, o VII e o VIII terão o seguinte sub-título:  "Dona Guidinha" no quadro da época.

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Mais uma semana, e estarei de volta.....Um abraço!

















sábado, 1 de outubro de 2011

PAPAI CANTAVA....( IV )

A FLOR DA SAUDADE...



No ano de 1911, ou seja, há exatos 100 anos, meu pai já era um
moço feito, com seus 16 anos de idade...Sendo a sua mãe viúva, desde que ele tinha 10 anos, e tendo a mãe e a irmã para manter financeiramente, cedo começara a trabalhar...
Minha mãe, à altura, era apenas uma menininha, de 3 anos de 
idade. Ambas as famílias, a de meu pai e a de mãe, residiam  
na mesma rua, em Fortaleza, no bairro Outeiro (hoje Aldeota).
Frequentavam a mesma igreja, na missa aos domingos: Igreja do Pequeno Grande. Interessante, é que os dois núcleos familiares se assemelhavam, na composição de seus membros: mães viúvas , e ambas com dois filhos,  uma menina e um menino.
Maria Carolina, minha avó materna, era mãe de Lauro e Maria José; Rosa, minha avó paterna, era mãe de José Joaquim e Maria Carmelita.O tio Lauro, era mais velho que a mamãe;meu pai, era mais velho que a tia Carmelita...
As duas senhoras, apenas se cumprimentavam, ao passar uma pela outra,nas ruas ou quando estavam na igreja, contava minha mãe...
Papai, inúmeras vezes comentou que se lembrava, perfeitamente, do tempo em que, ao assistir à missa, ele já rapazinho, observava a criança loirinha, de olhos bem azuis, que brincava com um terço, de joelhos, debruçada sobre o longo banco, daquele belo templo néo-gótico que é o Pequeno Grande. Aquela cena dominical, creio, 
o encantara, tal era a ternura com que ele se referia a essa passagem de sua vida, de quando conhecera minha mãe, ainda menina. A diferença de idade, entre os dois, era de 13 anos...
Mamãe, por sua vez, nos dizia que, quando já mocinha, ainda com as duas famílias morando  nas mesmas casas,na mesma rua, ao passar acompanhada de sua mãe, pensava, quando o via:" O José, só cumprimenta a mamãe...antipático e besta, como ele só!".. Era a  contra-partida para o relato do meu pai, sobre o"terço" com o qual, quando ela era pequenina, brincava, enquanto o padre celebrava à  missa....

Trago aqui, essas "cenas" de fatos reais, no intuito de associar, à  letra da canção,"A Flor da Saudade", que papai tanto gostava de cantar, ao intenso amor, tecido, pacientemente, por meu pai, à minha mãe, desde a sua adolescência...
Ele acompanhara o desabrochar daquela "mimosinha flor" que
era a sua  bela prometida :" a Mazé, da Dona Carolina, menina prendada, pobre, mas de "boa" família"...(palavras dele)...

Apreciem a pureza, o romantismo da letra..,que é bem curtinha mas, naturalmente, mimosa...

A FLOR DA SAUDADE

Ó terna saudade
Mimosinha flor
Só tu me acompanhas
Meu pranto e dor

Só tu me acompanhas
Meu pranto e dor     
Eu quero, quero amar-te
Mimosinha flor

Ó grito tristonho
Do campo assolas
Do meu coração
És fiel retrato

Só tu me acompanhas
Meu pranto e dor
Eu quero, quero amar-te
Mimosinha flor

Ó terna saudade
Que exprime paixão
Só tu tens entrada
Em meu coração

Só tu me acompanhas
Meu pranto e dor
Eu quero, quero amar-te
Mimosinha flor

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NOTAS:
1- A imagem, no início da postagem, que achei bem apropriada, para a letra de A Flor da Saudade, "salvei-a" no google...

2- No caderno, em que a letra está manuscrita, não há referência sobre o autor...como em grande parte das letras, como já me referí antes...


3- Retornando hoje, de nossa belíssima Capital Federal, Brasília,
devo confirmar que não vi, sequer, a famigerada "Rampa do Planalto". Além de visitar o "museu" do B., meu mano "véio", assistir à eterna Elza Soares (inteira) e alguns curtas e longas (muito bons) do 44 º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, fiquei "meia enclausurada" na bela "Asa Sul", da "Cidade Avião", projetada por Niemayer, revisitando o acervo de meu pai, onde, à cada visita, mais descubro de sua encantadora personalidade. Pasmem: não me fiz fotografar uma única vez, apenas fotografei objetos-relíquias...que tantas vezes passaram por suas prodigiosas e carinhosas mãos...

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Estou indo...........................................mas eu volto, um abraço!













domingo, 24 de abril de 2011

LETRAS das 7 CANÇÕES que a MAMÃE mais CANTAVA - V

Passamos do meio... esta, é a Canção de nº 5, das 7, que a mamãe
mais gostava de cantar. Antes de transcrevê-la, porém, quero lhes
mostrar a  igreja que a "viu" nascer, no antigo bairro do Outeiro,
à margem do Riacho Pajeú, em Fotaleza: Igreja do Pequeno
Grande, anexa , desde 1903, ao Colégio da Imaculada Conceição,
onde ela estudou  por alguns anos..


Foto antiga, da Igreja do Pequeno Grande,inaugurada em 1903. 
À esquerda, do templo, o Colégio da Imaculada Conceição,
onde minha mãe estudou, por alguns anos...
(Foto da Galeria de fotos do Windows) 



Foto atual, da Igreja do Pequeno Grande, com o Colégio da Imaculada Conceição.
  A igreja foi inaugurada em 1903, há mais de um século, portanto...
(Foto da Galeria  de fotos do Wimdows)



A bela Igreja do Pequeno Grande, com sua imponente arquitetura neogótica...
(Foto da Galeria de fotos do Windows)

Agora, sim, a letra da canção de nº 5, Ave-Maria,
cujo autor é Erothides Campos . Cantores
famosos, como Augusto Calheiros e Francisco Alves, a
gravaram, na primeira metade do século XX. A última
gravação, de que tenho conhecimento, foi a de Jair Rodrigues,
mais recentemente.

Letra da Canção 5

AVE-MARIA

Autor> letra e música: Erothides Campos

Cai a tarde tristonha e serena
Em macio e suave langor
Despertando em meu coração
A saudade do primeiro amor
Um gemido se esvai lá no espaço
Nesta hora de lenta agonia
Quando o sino saudoso murmura
Badaladas da Ave-Maria

Sino que tange
Para amenizar a saudade
De um tempo que vivo a sonhar
Mil ventura suave harmonia
É minh'alma ao som da Ave-Maria

Estes sons de profundo mistério
Faz pulsar meu fiel coração
Quando penso tão triste sosinho
Num passado de grata ilusão
Eu me lembro das tardes de outrora
Que contigo sonhava poesia
De um amor que fiel te jurava
Ao murmúrio da Ave-Maria

Sino que tange
Com mágoa dorida
Recordando o sonho da aurora da vida
Dai ao coração paz e harmonia
Na prece ao som da Ave-Maria

No alto do campanário
Uma cruz simboliza o passado
De um amor que já morreu
Deixando um coração amargurado
Lá no infinito azulado
Uma estrela formosa irradia
A imagem do meu paasado
Quando o sino tange Ave-Maria

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NOTAS : 1). Na postagem do dia 16/04, passado, há um
comentário, de Vera Lúcia, em que diz ser  a canção,
O Jangadeiro, de autoria de Stefana de Macedo.
Fica aqui, portanto, o registro.
                  2). A letra da canção postada hoje, Ave-Maria,
foram gravadas, pelos cantores, contendo um menor
         número de versos. Esta versão, aqui postada, com mais versos, era a que mamãe sempre
cantava. Desconheço, qual a composição original,
criada por Erothides Campos.





Voltarei ,em breve, com a canção de nº 6................um abraço!