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29 janeiro, 2019

À terça - imagens e palavras: "mel"






“Achaste mel? Come só o que te for suficiente…”


David Grossman, escritor israelita (1954-), in “Até ao fim da terra”, Ed. Dom Quixote, 2012

Leia mais sobre este admirável romance aqui.
(Foto da net.)

26 outubro, 2018

"Um cavalo entra num bar" - David Grossman

Vocês fazem ideia do que é hoje manter uma alma? É um luxo, porra. Façam a conta e verão que sai mais caro do que rodas em magnésio. E estou a falar da alma mais simples, não de Shakespeare, Tchekhov ou Kafka, que aliás é material bastante bom, pelo menos é o que me dizem, eu pessoalmente não li nenhum.
"Quero que venhas ao meu espetáculo…
Mas para quê? Para que precisas de mim lá?
Quero que me observes… Que me observes bem e depois me digas.
Dizer o quê?
O que viste."
Avishi Lazar, juiz reformado (narrador-personagem deste estranho/genial romance/história de vida) e Dov Grinstein, comediante em fim de carreira, dois amigos na adolescência que a vida separou, vão reencontrar-se quarenta e três anos depois num longo espectáculo de stand-up comedy em Natania, uma pequena cidade israelita.
Sozinho no palco do bar decadente, o frágil Dov (ou Dovaleh), o cómico, o palhaço, o malabarista de palavras, o homem de meia-idade de rosto cadavérico de expressão ora doce, ora crispada, inicia o espetáculo com piadas no limite do politicamente correcto e do bom gosto, muitos palavrões, muitas anedotas, saltos desmesurados e corridas desenfreadas no palco …meus irmãos, minhas jóias, esta noite vamos festejar, vamos desbundar… 
Os espectadores aplaudem ruidosamente. Estão ali para se divertir com Dovalech que, lembram-se alguns, na infância andava sobre as mãos, de pernas para o ar, para confundir os adolescentes violentos que no bairro se riam dele.
No decorrer da performance, já com o público nas mãos, o humor irreverente, exagerado, torna-se humor triste com o comediante a desvendar dramas profundos da sua triste história de vida…vão ter de armar-se de paciência, meus irmãos, porque é uma história que, juro por Deus, ainda nunca contei num espetáculo, em nenhum e a ninguém em particular, e esta noite vai acontecer... e abordar assuntos sérios como o holocausto, a questão israelita, o conflito israelo-árabe.
A tensão aumenta. Não se ouvem risos. Incomodados, alguns espectadores abandonam a sala. Outros assobiam.
Sentado longe do palco, na penumbra, Lazar ouve o comediante tudo revelar sobre o tempo que passaram juntos num campo militar para jovens; sobre o que os uniu e o que os separou; sobre o  inferno da infância e da adolescência; sobre a estranha relação com o pai austero e com a mãe, uma sobrevivente do Holocausto.
Constrangido, percebe que o que Dov faz no palco... a transformação da matéria de vida em anedota... é um relato, também, da sua história de vida e da de muitos dos espectadores.

Um cavalo entra num bar” (prémio Man Booker International de 2017) não é um livro de leitura fácil mas não se consegue abandonar. A história de vida de Dov incomoda mas a excelência da escrita de Grossman prende-nos até ao epílogo.
Gosta de anedotas? Sim, então, aqui vai uma:
Um cavalo entra num bar e pede ao barman uma Goldstar à pressão. O cavalo emborca-a e pede um copo de whisky. Bebe-o e pede uma taça de arak. Bebe. Pede mais um shot de vodka e uma cerveja…  Como termina? Não sei!
Não sei pois é a única inconclusa de entre as muitas espalhadas na narrativa.
O que eu sei é que na penúltima página está lá, em destaque, uma frase de Fernando Pessoa. Para saber qual é leia/assista a este divertido/doloroso espectáculo de stand up.
Será que uma piada é só uma palavra?
Assim vai a vida, o homem põe e Deus lixa-o…

(Se não leu "Até ao fim da terra", extraordinário romance de David Grossman, corra a fazê-lo. Não se assuste com as primeiras 60 páginas, continue porque o deslumbramento está todo lá. Espreite AQUI o que escrevi sobre este romance, em 2012.)

Um cavalo entra num bar, de David Grossman
Tradução de Lúcia Liba Mucznik
Ed. D. Quixote, 2018
229 págs.

02 novembro, 2012

"Até ao fim da terra" - David Grossman


As famílias são altas matemáticas – demasiadas incógnitas, demasiados parêntesis e demasiadas elevações ao quadrado…
Virada a 684ª página deste avassalador e inesquecível romance, o livro de uma vida, ou “um épico doméstico”, como diz o autor - fiquei sem palavras para escrever sobre ele. A sério!
Resta-me uma para o definir: EXTRAORDINÁRIO!
Mas como quero que todos leiam este romance, vou tentar escrever qualquer coisa.
Para já, cito o autor:
Comecei a escrever este livro no mês de Maio de 2003, meio ano antes do fim do serviço militar do meu filho mais velho, Yonatan, e meio ano antes da incorporação do seu irmão mais novo, Uri. Ambos serviram no Corpo de Blindados…. Uri cumpriu a maior parte do serviço militar nos Territórios Ocupados, em patrulhas, vigias, emboscadas e nos checkpoints e, de vez em quando, partilhava comigo as suas experiências.
Nessa época eu tinha o sentimento – ou mais exatamente o desejo – de que o livro que estava a escrever o protegesse.
A 12 de agosto de 2006, nos momentos finais da Segunda Guerra do Líbano, Uri foi morto no sul do Líbano. O seu tanque foi atingido por um míssil…
Agora, nesta história imaginada é Ora, mãe do soldado Ofer, que foge das más notícias dos “notificadores”. Pensa ela que se não a encontrarem, não lhe podem comunicar a morte do filho e enquanto isso se mantiver, ele continuará vivo.
Mas vamos ao início da história:
Ora festeja a desmobilização do filho e prepara-se para uma caminhada com ele pela Galileia. As mochilas estão prontas. Inesperadamente, Ofer diz à mãe que não farão a caminhada porque tem de partir imediatamente para outra missão, desta vez na Cisjordânia.
Ela sabe depois, que ele se ofereceu como voluntário, para um período de mais vinte e oito dias. Como foi capaz de a enganar o único dos seus homens que fora sempre leal para com ela.
Ora está separada do marido Ilan e é mãe de Ofer e Adam, o filho mais velho, que vive com o pai. Estão ambos de férias fora do país.
Desiludida, triste, sozinha e temendo a pior notícia que uma mãe pode receber , Ora foge de casa, para não poder ser encontrada durante todo o período em que Ofer estiver em missão.
Decide, então, fazer a caminhada e “arrasta” consigo Avram, o artista, o pacifista, antigo namorado e amante, ex-prisioneiro de guerra do Egipto e o melhor amigo dela e de Ilan.
Uma das regras, provavelmente a mais importante, determinava que ela estivesse sempre em movimento e é isso que faz, caminhando sem cessar por montes e vales “até ao fim da terra”.
E falam, falam muito. Aliás, ela fala e ele ouve embevecido interiorizando lentamente o facto de que pela primeira vez em trinta e cinco anos estava só com ela, realmente, sem Ilan, até mesmo sem a sombra de Ilan.
Mas também há silêncios, silêncios difíceis de suportar.
E há segredos escondidos, verdades amargas, alegrias, angústias, tristezas, sofrimento, desilusões, paixões e muitas histórias contadas para o ventre da terra. Principalmente sobre Ofer, o ser que ambos trouxeram ao mundo.
- Devias saber que enquanto falo contigo sobre ele, ele está bem, está protegido.
- Como?
- Não sei. É o que eu sinto. Está pura e simplesmente resguardado.
- Sim.
- Parece-te loucura?
- Não.
- Conto mais?
- Sim.
Sem ordem cronológica, Ora vai desfiando a sua vida inteira, nos pormenores íntimos da sua família, nos seus amores e desamores, nos dramas físicos e psicológicos da guerra sobre os homens que ama. Uma vida inteira sem sentido, num país enfraquecido, com um povo de exilados sempre em busca de novos caminhos. Reencontrará o amor?
Mas é por Ofer que ela fala, é por Ofer que ela caminha, na companhia do pai daquela criança curiosa que, quando soube que em Israel havia quatro milhões de pessoas, ficou impressionado e até sossegado…. Mas depois quis saber “quantos são contra nós” e não descansou enquanto não soube o número de habitantes dos países muçulmanos no mundo.
Uma criança que, com o seu dinheiro de bolso, compra um pequeno bloco laranja e aponta nele diariamente, a lápis, quantos israelitas restam depois do último atentado terrorista.
Um dia descobriu que uma parte dos israelitas são árabes… Descobriu que os seus cálculos estavam todos errados…
Ofer que lhe sussurrou ao ouvido, no momento da despedida, em frente das câmaras e de todos, que… (não digo!)
O que ele lhe disse pode ter mudado tudo?
Pode abandonar-se um país que se ama mas que não sabemos se sobreviverá?

Que grande mulher esta Ora de David Grossman.
Sobre ela, disse Paul Auster: uma personagem viva e autêntica como não há outra na ficção recente.
Grossman, também caminhou durante 500 quilómetros ao longo de Israel Trail, do extremo norte, na fronteira com o Líbano, até Jerusalém. Premonição?
Por favor, leiam, chorem, riam, deslumbrem-se com a escrita do aclamado "profeta secular de Israel", o escritor que gosta das palavras e que sabe construir personagens femininas como nenhum outro.
Que grande, grande Ora!

Até ao fim da terra, de David Grossman
Ed. Dom Quixote, 2012
Tradução de Lúcia Liba Mucznik
684 págs.