«- Que mundo é este? Um corpo transformado em calçado, em almôndegas, em salsichas, em tapete estendido junto à cama, em caldo feito com os ossos de outro ser… Sapatos, sofás, malas de pendurar ao ombro feitas da barriga de outros seres, aquecer-se à custa do pelo de outrem, comer o corpo de outrem, cortá-lo aos pedaços e fritá-lo no óleo… Será verdade? Será possível tal pesadelo macabro, tamanha matança, cruel, desapaixonada, mecânica, sem pesos na consciência, sem a mínima reflexão, reflexão que é afinal o objectos dos engenhosos campos da Filosofia e da Teologia?
Que mundo é este, onde a norma é matar e infligir dor? O que se passa realmente connosco?
- A senhora está a exagerar (…)
- A senhora leva o assunto muito a peito (…)
- A senhora é mesmo louca.»
Publicado em 2009, "Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos” é uma surpreendente mistura de policial negro, fábula macabra bem doseada de humor, que questiona a nossa posição acerca dos direitos dos animais e responsabilidade sobre a natureza, bem como todas as ideias preconcebidas sobre a loucura, a justiça e a tradição.
A acção decorre numa terriola polaca «não mais que meia dúzia de casas (…), longe do resto do mundo», onde o «vento não pára de soprar», e é difícil viver de Outubro a Abril.
Ali vive, sozinha, a excêntrica idosa Janina Duszeijko, engenheira de pontes «construí pontes na Síria e na Líbia», professora reformada, tradutora, astróloga.
Durante o inverno rigoroso Janina, continua a fazer rondas pelos campos e baldios; a cuidar da ponte sobre a ribeira; a tomar conta das casas desabitadas dos vizinhos que vivem parte do ano na cidade. Resta-lhe tempo para ajudar um amigo a traduzir poemas de William Blake; interpretar os sinais dos astros; fazer horóscopos; ver tudo sobre Meteorologia na televisão; cuidar do cemitério dos animais; tratar das suas Maleitas (não saberemos quais são) «as minhas Maleitas aparecem traiçoeiramente e eu nunca sei quando».
A pacatez dos dias desta mulher estranha, a quem chamam «velha tresloucada» por preferir a companhia dos animais à das pessoas, termina quando um dos seus vizinhos aparece morto, engasgado com um osso. Acidente ou crime? A esta morte seguem-se outras, violentas, todas de caçadores furtivos membros de um clube de caça local.
«- Oh, meu Deus! Oh, meu Deus!, Oh, meu Deus! - repetia mecanicamente, o que me tirou do sério, pois é sobejamente sabido que nenhum deus há-de vir para pôr ali as coisas em ordem.»
Então, a Dona Janina - protagonista-narradora desta história - decide investigar os estranhos homicídios e chega a uma teoria muito própria que espalhará o terror na comunidade.
Quer saber o que se passou naquele lugarejo agreste, onde «as manhãs de Inverno são feitas de aço, têm um sabor metálico e arestas afiadas»? Não posso, não quero, não desvendo!
Genial, inteligente, surpreendente. Leia!
(o título deste romance é uma citação de William Blake)
Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos, de Olga Tokarczuk, Prémio Nobel de Literatura, 2019
Tradução de Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Ed. Cavalo de Ferro, 2019
286 págs.


