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03 novembro, 2020

a VIDA numa só linha

"A vida é toda feita de coincidências."
JOSÉ SARAMAGO, in “O ano da morte de Ricardo Reis

"A vida é uma farsa."
PHILIPPE CLAUDEL, in “O arquipélago do cão"

"A vida é o que fazemos dela"
FERNANDO PESSOA, in “Livro do desassossego"

"A vida é um saco muito pesado."
J.M.G. LE CLÉZIO, in “A música da forme"

"A vida é um colar."
MIA COUTO, in “O fio das missangas"

"A vida é uma luta de todos contra todos."
MILLAN KUNDERA, in “A festa da insignificância"

"A vida é o que se vê nos olhos das pessoas."
VIRGINIA WOOLF, in “Contos"


Fotos tiradas nos jardins do HOTEL VILA GALÉ COLLECTION PALÁCIO DOS ARCOS, Paço de Arcos / Portugal.

22 maio, 2020

"Orlando" - Virginia Woolf

… mal Orlando abriu a janela, o seu rosto ficou iluminado apenas pelo próprio Sol (…) Feliz a mãe que gera um filho assim e mais feliz ainda a biógrafa que lhe narra a vida! Porque jamais terá de se preocupar e ir pedir ajuda a um poeta ou a um romancista. A um tal biografado, basta ir de façanha em façanha, de triunfo em triunfo, de cargo em cargo, e o escriba apenas tem de o seguir, e ambos alcançarão as alturas que desejam.
Quem é Orlando? Um aristocrata inglês, com uma grande variedade de eus, azarado, rico, erudito, «inapto para o convívio social», amante da poesia, que certo dia acorda em corpo de mulher, e que vive mais de 400 anos - da Inglaterra isabelina do século XVI a 1928, ano da publicação deste romance. Romance/biografia, fantasiosa, hilariante, detalhada, uma história de vida que primeiro se estranha, depois se entranha,  depois não se esquece: quem é Orlando, o que fez, como viveu, com quem privou, quem amou? Uma vida tão longa não pode ter sido vivida por uma só pessoa. E não foi! Ou foi?! Isso agora não importa, como não importa se ficamos a saber, ou não, quem é Orlando. Tudo escapa. E não é só ao leitor. Do mesmo se queixa a narradora/biógrafa/escritora desta história "traquinas irreverente, rebelde"«haverá coisa mais irritante do que ver o nosso biografado (a quem dispensámos tanto tempo e por quem nos prestámos a tanta maçada) escapar-se-nos por entre os dedos…».
Não se assuste com a prosa densa, não desista se tudo lhe parecer destituído de sentido. Continue a ler e logo perceberá que este livro inteligente e muitíssimo bem escrito, não sendo fácil se lê com gosto, se lê sorrindo! 
"Orlando" é invenção - mas atenção, invenção devidamente documentada com ilustrações e índice remissivo -, paródia, desconstrução de género, crítica literária, crítica política, crítica social, retrato de um país nebulento: «Quanto menos virmos, mais acreditamos.» Uma "obra virada para a modernidade, para o futuro (...) um dos raros momentos em que a literatura, rompendo barreiras e o pudor de uma época, alcança a intemporalidade, para nunca mais se sentir datada ou ultrapassada na sua coragem, beleza, e estilo.»
Há quem diga que "Orlando" é uma apaixonada e provocadora carta de amor de Virginia Woolf para a amante Vita Sackville-West, que terá servido de modelo ao/à protagonista Orlando. E não será Orlando a própria Virginia Woolf?
«Escrevi este livro com mais rapidez do que qualquer outro, e é uma grande piada; acho, apesar disso, que é uma leitura alegre e fácil: Umas férias de ser escritora.», pode ler-se numa das entradas dos diários da escritora.
«A verdade destrói-nos. A vida é um sonho. (...) E aquele que nos rouba os sonhos está a tirar-nos a vida. (Podia seguir nesta linha por mais seis páginas, acreditem, mas é uma escrita maçuda, portanto mais vale parar por aqui.)»

Leitura maçuda é que não foi, juro!
E juro também, que quase gastei um lápis em imennnnnsos sublinhados.
O segredo da vida é...
(Não digo; é segredo!)

Orlando, de Virginia Woolf
Tradução de Miguel Romeira
Ed. Cavalo de Ferro, 2019
239 págs.

29 outubro, 2019

Sem "derramar" lágrimas!


Desta vez não foi uma fotografia nem uma música a transportar-me para bons momentos do passado, foi o comentário que uma querida amiga deixou na minha postagem sobre "Joker", o filme. 
Diz ela, no final do comentário:
" (...) Vou pedir pela TV, sou o contrário da nossa Emília, gosto de sair para outras coisas, filmes me esparramo no sofá"
E respondi eu:
"(...) Eu, viciada em filmes (vício bom!), vejo mais agora derramada no sofá.
Tais, tu esparramas-te no teu sofá, eu derramo-me no meu. Coisa boa!
(Aprendi a «derramar-me» no sofá, com um dos meus escritores favoritos. Um dia destes digo-te quem é ele.)"


E aqui estou eu a dizer-te, querida amiga, que  o tal escritor que derrama o verbo "derramar" na sua escrita inteligente, poderosa, violenta, viciante é: Cormac McCarthy (1933-)
Deixo alguns exemplos retirados do seu romance "A travessia":
"… onde o regato se derramava para sul.
… em cujo seio o mundo audível se derramava.
… olhou para ele à luz que se derramava da porta aberta.
… a luz do meio-dia se derramava sobre os campos.
… o cabelo escuro dela derramava-se sobre o ombro do irmão…
… examinou aqueles mundos derramados nas suas pálidas ignições sobre a noite sem nome…
…cabelo claro que ele já não cortava há muito tempo derramado em volta dele…"

Mas... também me encontrei com o verbo "derramar" no livro "Contos", de Virginia Woof (1882-1941):
"… refulgiam róseas e de novo refulgiam alaranjadas quando o sol, derramando-se pelas macieiras, incidia nelas. (No pomar)
… quando Miss Milan lhe pusera o espelho na mão e Mabel se olhara com o vestido novo, finalmente pronto, uma felicidade extraordinária se derramara no seu coração. (O vestido novo)
… o ramo de uma árvore à sua frente embebia-se e penetrava a sua admiração pelas pessoas daquela casa; derramava-se em gotas de outro; ou permanecia erecto como uma sentinela. (Resumo)
… Sasha já não se sentia capaz de derramar por cima do mundo inteiro a sua nuvem de ouro. (Resumo)
… o espelho começou a derramar sobre ela uma luz que parecia fixá-la, que parecia um ácido corroendo o acessório e superficial para deixar apenas a verdade. (A senhora no espelho: uma reflexão)"


Há uns anos diverti-me a sublinhar, a guardar e a publicar estas mesmas frases aqui no Rol.
O teu comentário, amiga, transportou-me àqueles momentos de boas leituras e gostosas partilhas. Obrigada!

Brincadeirinha à parte, brindemos à (nossa) amizade. Sem "derramar" lágrimas!





(“Derramar”, do inglês spill, shed, pour in)
(Fotos da net.)

20 fevereiro, 2018

À terça - imagens e palavras: "olhos"


“A vida é o que se vê nos olhos das pessoas.”

Virginia Woolf, escritora inglesa (1882-1941), in “Contos – Um romance que não foi escrito”, Ed. Relógio d’Água, 2004
(Veja mais no blogue Pétalas de Sabedoria)
Foto da net.

20 setembro, 2013

Dois autores, dois estilos, o mesmo verbo: "derramar"


 Contos, de Virginia Woof (1882-1941)
… refulgiam róseas e de novo refulgiam alaranjadas quando o sol, derramando-se pelas macieiras, incidia nelas. (No pomar)
… quando Miss Milan lhe pusera o espelho na mão e Mabel se olhara com o vestido novo, finalmente pronto, uma felicidade extraordinária se derramara no seu coração. (O vestido novo)
… o ramo de uma árvore à sua frente embebia-se e penetrava a sua admiração pelas pessoas daquela casa; derramava-se em gotas de outro; ou permanecia erecto como uma sentinela. (Resumo)
… Sasha já não se sentia capaz de derramar por cima do mundo inteiro a sua nuvem de ouro. (Resumo)
… o espelho começou a derramar sobre ela uma luz que parecia fixá-la, que parecia um ácido corroendo o acessório e superficial para deixar apenas a verdade. (A senhora no espelho: uma reflexão)
 
A travessia, de Cormac McCarthy (1933-)
… onde o regato se derramava para sul.
… em cujo seio o mundo audível se derramava.
… olhou para ele à luz que se derramava da porta aberta.
… a luz do meio-dia se derramava sobre os campos.
… o cabelo escuro dela derramava-se sobre o ombro do irmão…
… examinou aqueles mundos derramados nas suas pálidas ignições sobre a noite sem nome…
…cabelo claro que ele já não cortava há muito tempo derramado em volta dele…
 
O que eu me diverti a procurar, sublinhar, contar e guardar estas frases.
Enfim, o calor de Agosto faz destas coisas…
 
(“Derramar”, do inglês spill, shed, pour in)

13 setembro, 2013

Contos de... Virginia Woolf

Foi talvez por meados de Janeiro deste ano que vi pela primeira vez, ao olhar para cima, a marca na parede. Quando queremos fixar uma data precisamos de nos lembrar do que vimos.
Começa assim “A marca na parede”, o primeiro dos contos desta compilação da Relógio d’Água (2004), que só agora descobri, comprei, devorei e… adorei.
Por momentos “emperrei “ no primeiro conto e desanimei, mas logo “mergulhei” no segundo, rejubilei e não mais parei.
. A marca na parede
. Objectos sólidos
… qualquer objecto de mistura tão profundamente com a matéria do pensamento que perde a sua forma real e se reconstitui de modo ligeiramente diferente numa forma ideia que assombra a mente quando menos se espera.
. Um romance que não foi escrito
A vida é o que se vê nos olhos das pessoas.
. A casa assombrada
. Segunda ou terça-feira
. No pomar
. O vestido novo
. Uma melodia simples
. Resumo
. Momentos de ser: “Os alfinetes da Slater’s não seguram”
Enfiava a tarde no colar dos dias memoráveis, que não era demasiado comprido para que pudesse recordar este ou outro dia; esta vista, aquela cidade; para lhes tocar, para os sentir, saboreando, num suspiro, a qualidade que o tornava único.
. A senhora no espelho: uma reflexão
. O fascínio do pequeno lago
O encanto do lago residia no facto de lá terem sido depositados pensamentos por pessoas que haviam partido e sem os seus corpos os seus pensamentos vagueavam por ali livres, cordiais e comunicativos, no fundo comum.
. Três quadros
. Ode parcialmente escrita em prosa ao ver o nome Cutbush sobre um talho de Pentonville
. A duquesa e o joalheiro
. A caçada
. Lappin e Lapinoca
Eram amigos e, ao mesmo tempo, inimigos; ele era o senhor, a senhora era ela: enganavam-se um ao outro, precisavam um do outro, temiam-se reciprocamente, e ambos o sentiam e sabiam todas as vezes que as suas mãos se tocavam assim naquela saleta escura, com a luz branca lá fora, a árvore com seis folhas, o ruído distante da rua e os cofres-fortes atrás.
. O holofote
. O legado
. O símbolo
. A estância balnear
. A velha Mrs.Grey
. A história de Septimus Warren Smith
Gostei mais de uns que de outros, claro, mas Objectos sólidos, Três quadros, A duquesa e o joalheiro (que escrita fabulosa!), Lapin e Lapinova e O legado conseguiram empolgar-me.
Virginia Woolf, uma das mais conceituadas escritoras inglesas do séc. XX - autora do extraordinário romance “Mrs. Dalloway” (1925), divulgado mundialmente pelo filme “As horas”, de Stephen Daldry e baseado na obra homónima de Michael Cunningham -, não ficou conhecida como contista, porém, escreveu algumas das mais delicadas e sublimes pequenas histórias da literatura inglesa.
Nestes vinte e três contos é notável a mestria narrativa, a escrita arrebatadora, a construção psicológica perfeita das personagens e o retrato da vida da época que, de tão rigoroso, permite compreender melhor a vida, o sofrimento e a morte (uma entrada no lago, sem regresso) da escritora.
Coloque este livro na sua lista de prendas do próximo Natal, “mergulhe”, também, nestas belíssimas histórias e descubra o que era a marca na parede… a tal, do primeiro conto.
 
Contos, de Virgina Woolf
Relógio d´Água, 2004
Tradução de Miguel Serras Pereira, Manuela Porto, Clara Rowland e Margarida Vale de Gato
251 págs.