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04 janeiro, 2019

"À espera no centeio" - J.D. Salinger

- A vida é um jogo, meu rapaz. A vida é um jogo que se joga segundo as regras.
- Pois é, senhor professor. Eu sei que é. Eu sei.
(Um jogo, uma ova. Raio de jogo…)
À espera no centeio” (The Catcher in the Rye, 1951) - marco incontornável da literatura mundial, incluído na lista dos 100 melhores livros de língua inglesa do século XX, uma das obras mais controversas da história da literatura norte-americana após II Guerra Mundial - é um romance doce, emocionante, despudorado e bem humorado que aborda temas como a adolescência, a sexualidade, a amizade, o amor, e outros mais, na América dos anos 50.
Tem por protagonista  Holden Caulfield, 16 anos, segundo de três filhos de um casal  nova-iorquino abastado, jovem rebelde, inconformista, sensível, inteligente, que desvenda (alguns) factos da sua curta vida numa linguagem desassombrada, espontânea, repleta de calão e palavrões …não lhes vou contar a merda da minha autobiografia toda nem nada que se pareça. Vou-lhes contar só aquela história de loucos que me aconteceu o ano passado por volta do Natal antes de me ter ido completamente abaixo e de ter vindo parar aqui para me pôr em forma.
A "história de loucos” tem lugar em Dezembro de 1949 e começa com a expulsão de Holden do colégio que frequenta em Agerstown, Pensilvânia, não por mau comportamento mas por falta de empenhamento escolar.
É sábado. Holden só pode deixar o colégio na quarta-feira seguinte (dia da saída dos alunos para as férias de Natal) e sabe que a comunicação da expulsão aos seus pais seguirá por correio na segunda-feira.  Então, na calada da noite, num repente, foge do colégio, caminha até à estação, apanha o comboio para Nova Iorque, mas... não vai para casa, decide ficar num hotel até quarta-feira dia que,  pensa ele, os pais já terão recebido a carta do colégio... "não me apetecia ir para casa antes de eles a terem recebido e de a terem digerido bem digerida e assim. Além disso, estava a precisar de umas pequenas férias. Tinha os nervos em franja. A sério."
A "história de loucos" são três dias de deambulação solitária de Holden pelas ruas da cidade, procura de antigas namoradas e amigos, muitas bebedeiras, muita crítica social, reflexão sobre a sua vida,  o futuro, o que o rodeia e que considera desprovido de sentido e esperança, sobre a ligação com os pais frios e distantes, com o irmão mais velho ausente, com a irmãzinha Phoebe, a sua heroína, a única pessoa com quem comunica pacificamente.
Se calhar podia dizer-lhes que a seguir fui para casa e contar-lhes como fiquei doente e tudo, e para que escola devo ir no outono,  depois de sair daqui, mas não me apetece... um tipo psicanalista que eles têm aqui... está sempre a perguntar-me se me vou aplicar quando voltar para a escola em setembro. É uma pergunta bastante estúpida, acho eu. Quer dizer, como sabemos o que vamos fazer até o fazermos? A resposta é que não sabemos. Eu penso que vou, mas como hei-de saber? Palavra que é uma pergunta estúpida.

"À espera no centeio" é um romance fascinante, envolvente, intemporal, com um  extraordinário protagonista-narrador que ouvi embevecida. Leia ou oiça também pois, por ser feio contar o que alguém nos contou, eu revelei quase nada da comovedora "história de loucos" de Holden Caulfield .
Estupendo! (Se há uma palavra que eu odeio, é estupendo. É tão pirosa.)

À espera no centeio, de J.D. Salinger (1919-2010)
Tradução de José Lima
Quetzal Editores, 2015
233 págs.

14 fevereiro, 2018

Namorar é andar de mãos dadas...

"Não quero que fiquem com a ideia de que ela era alguma pedra de gelo ou coisa assim, lá porque nunca fizemos amor nem estivemos na marmelada. Não era. Passava o tempo de mãos dadas com ela, por exemplo. Não parece grande coisa, bem sei, mas é que ela era bestial a andar de mãos dadas. A maior parte das miúdas se lhes damos os mãos, a merda das mãos delas ou «morre» na nossa mão ou então acham que têm de estar sempre a «mexer» a mão ou coisa assim. A Jane era diferente. Íamos à merda de um filme ou assim, e dávamos logo as mãos e não largávamos até o filme acabar. E sem mudar de posição e sem fazer disso uma grande coisa. Com a Jane, nem sequer me chateava a pensar se tinha as mãos suadas ou não. A única coisa que sabia é que era feliz. E era mesmo."


Excerto do extraordinário romance "À espera no centeio", de J. D. Salinger.
O narrador é Holden Caulfield, um adolescente de dezassete anos.

NAMOREM MUITO!
Hoje e todos os dias.

Foto da net.