Mostrar mensagens com a etiqueta Marta Orriols. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marta Orriols. Mostrar todas as mensagens

26 junho, 2020

"Aprender a falar com as plantas" - Marta Orriols


A vida é assim: um dia, um céu sarapintado de tonalidades rosa; noutro, escuro como breu.
“Aprender a falar com as plantas”, primeiro romance da catalã Marta Orriols (publicou apenas um livro de contos), é um tratado sobre amor, amizade, relações familiares, traição, morte, perda. A história,  que nos leva em segundos da dor à ternura, do sorriso à emoção mais dramática, é narrada pela protagonista, Paula Cid, 42 anos, neonatologista.
A trama é bem urdida e a linguagem delicada e cativante. A mim agarrou-me logo nas primeiras páginas, como uma plantinha se agarra a um solo fértil.
«O Mauro deixou-me e depois, como se isso não bastasse, morreu.»
Mauro e Paula almoçam num restaurante da praia. A dada altura ele revela-lhe que existe outra pessoa na sua vida e que tenciona sair de casa. Despedem-se zangados. Ela vai para casa. Ele é atropelado e morre duas horas depois, no hospital.
"(…) fomos durante muitos anos um casal. Depois, no lapso de apenas umas horas, deixámos de o ser (…). 
Durante os quatro dias que se seguiram (…) eu só ingeria chá de tília; com um bocadinho de sorte, permitia que o meu pai lhe acrescentasse mel. Eram dias apáticos, irreais, o choque dominava tudo, não havia espaço para a fome (…)
Todos partiam do princípio de que o meu olhar atónito, o ar descuidado e as persianas descidas nas semanas após o acidente se deviam à tristeza em que tinha mergulhado pela desgraça de perder a pessoa com a qual partilhara a vida durante tantos anos; porém, ninguém imaginava que aferroada à dor da morte, havia uma outra dor (…) tão repugnante que eu só conseguia escondê-la, pois também me sentia morta de uma vergonha nova, mais nova que a própria morte.”
Quem herda um morto com o acréscimo duma infidelidade sabe coisas que os outros ignorarão…
Eu sei tudo, mas nada conto. Até porque não se deve contar o que nos contam.
Leiam. Vão gostar de conhecer uma doutora Cid forte e contraditória.
Eu, dela recordarei o assumir da perda e o despertar para para uma nova vida; a relação com o pai (marcada pela ausência da mãe), com Lídia, a amiga de sempre, com o amigo Nacho, com o vizinho Thomas, com os colegas do serviço de neonatologia, onde bebés prematuros lutam pela vida, com Quim «um homem desejado, mas não amado»; e, claro, o encontro com «a outra», Carla «um mundo escondido»
Sobre o título, oiçamos Paula: «As plantas foram morrendo. Como conseguias, Mauro? Regá-las parece não ser suficiente. Dizias que falar com as plantas era um ato íntimo e transformador… Levanto-me, respiro fundo e anoto «Aprender a falar com as plantas.»
Cada um esconde as misérias da vida onde pode.

Não comprei este livro pela fantástica capa (título incluído). Podia ter sido, mas não foi.
Comprei-o depois de ler na entrevista concedida pela escritora à jornalista Isabel Coutinho, publicada na revista «Ípsilon» de 13 de Março 2020, que Marta Orriols começou a escrever "Aprender a falar com as plantas" após uma tragédia pessoal: a perda do companheiro em 2015, no acidente aéreo do voo Germanwings 9525, deliberadamente provocado pelo co-piloto que se fechou  no  cockpit e fez com que o avião se despenhasse contra uma montanha dos Alpes Franceses.
Diz ela "Paula tem muitas coisas minhas... procurei que a minha história não se colasse à dela, deixei só passar o meu estado de ânimo...".
E eu digo que conseguiu, pois este não é um livro de autoficção.

(Decidi, está decidido: vou aprender a falar com as plantas. Por mais que mime as minhas com boa terra, água fresca, sol, fertilizante... elas morrem!)

Aprender a falar com as plantas, de Marta Orriols
Tradução de Maria João Teixeira Moreno
Ed. D. Quixote, 2020
237 págs.