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02 junho, 2025

Pétala nº 3858

"Ser Cogumelo"


"Se eu não fosse um ser humano, seria um cogumelo. Um cogumelo indiferente, insensível, com uma pele fria e escorregadia mas, ao mesmo tempo, dura e delicada. Haveria de crescer sombria e sinistramente em árvores derrubadas, estaria sempre em silêncio e, com os meus dedos de cogumelo estendido, sugaria delas as réstias de Sol. Haveria de crescer naquilo que morrera. Haveria de penetrar essa manta morta até alcançar a terra pura e os meus dedos de cogumelo aí se deteriam. (…) 

Seria efémera, mas, como ser humano, também sou efémera. Não estaria interessada no Sol, não o seguiria com o olhar, jamais voltaria a esperar que nascesse. Ansiaria apenas pela humidade, exporia o meu corpo às neblinas e às chuvas, cobrir-me-ia com gotas de ar húmido. Não haveria de distinguir a noite do dia, pois, para quê? (…)
Haveria de perdurar deliberadamente horas a fio, sem movimento, sem crescer, nem envelhecer, até alcançar a firme convicção de que tinha poder não só sobre as pessoas, mas também sobre o tempo. Cresceria apenas nos momentos mais importantes do dia e da noite – ao alvorecer e ao entardecer, quando tudo o mais está ocupado em despertar ou em adormecer.

Seria generosa com todos os vermes; ofereceria o meu corpo aos caracóis e às larvas dos insectos. Nunca sentiria medo e não recearia a morte. O que é a morte, afinal, pensaria eu – a única coisa que me podem fazer é arrancar do solo, cortar, fritar e comer.”

OLGA TOKARCZUK, psicóloga e escritora polaca (1962-), in “Casa de Dia, Casa de Noite”, Ed. Cavalo de Ferro, 2022
Prémio Nobel de Literatura, 2018

(Fotos: PIXABAY)

28 abril, 2025

Pétala nº 3855

"Bastam-me apenas as palavras
para viver o amanhã"
(Albino Santos, versos do poema "Bastam-me as palavras")


A COMPLEXIDADE DAS COISAS BANAIS (excerto)

"O tempo é infinito... mas tão efémero. De repente, ele se esvai no interior de nós e oculta o sol, que se extingue nas sombras impenetráveis do destino. Fecham-se as janelas da alma, expulsam-se os sorrisos, até que o murmúrio da noite se sobreponha a tudo cobrindo-me com o seu lençol de silêncio. Estou só, numa árida deambulação sem caminho, procurando as palavras quase sem ardor nem gosto. Na complexidade das coisas banais, talvez uma luz imprevista venha reacender a paisagem!"


O SILÊNCIO É NEGRO

Apetece-me o silêncio!
O silêncio nocturno das cidades,
entre a penumbra e a alba
onde crepitam todas as paixões.
Nos meus versos insaciados
escondem-se lúgubres noites
entre sonhos imperfeitos e nostálgicos
amanheceres.

Eu sei que o silêncio é negro
como é negro sentir
que o olhar que queremos não nos afaga
e a boca que desejamos não nos procura.
Mas a minha boca ainda respira em versos
e sente o sabor do beijo
com que as pétalas amam o coração das rosas!

ALBINO SANTOShttps://as-polyedro.blogspot.com/, in "A COMPLEXIDADE DAS COISAS BANAIS", Seda Publicações, 2025


Obrigada, meu amigo!


(Foto net. Agradeço a quem me enviou.)

27 janeiro, 2025

Pétala nº 3842

"O tempo separa aqueles que se amam..."
(Vzlérie Perrin, in "TRÊS")


"Nunca mais disseram «amo-te» um ao outro. O amor tornara-se uma deficiência oculta. 

Eram agora pessoas tão diferentes que poderiam até mudar de nome e apelido, ir ao registo civil e preencher o seguinte requerimento: «Já não somos as pessoas que éramos. Solicitamos a alteração dos nossos dados pessoais». 
O passar dos anos tudo muda, excepto a saudade.

Como é o mundo quando a vida se torna saudade? Parece que é feito de papel, desfaz-se entre os dedos, desmorona-se.
Cada movimento, observa-se a si próprio, cada pensamento contempla-se a si próprio, cada sentimento tem início, mas não acaba, tornando-se o próprio objecto da saudade ilusório e irreal.
Só a saudade é verdadeira, viciante, impositiva – estar onde não se está, ter o que não se tem, tocar quem não existe. Este estado tem uma natureza variável e contraditória em si mesma. É a quintessência da vida e é contra a vida. Estranha-se na pele, chega aos músculos e aos ossos, que, doravante, começam a existir dolorosamente."

OLGA TOKARCZUK, psicóloga e escritora polaca (1962-), in “Casa de Dia, Casa de Noite ”, Ed. Cavalo de Ferro, 2022
Prémio Nobel de Literatura, 2018


“- Pensava que as pessoas casadas conversavam sobre tudo.
- De certeza que algumas falam.”

MICHAEL CUNNINGHAM, escritor norte-americano (1952-), in “dia”, Ed. Gradiva, 2024


Fotos de Teresa Dias: 
1 - PORTUGAL/Mafra, 2023
2 - PORTUGAL/Beja, 2022


29 julho, 2024

Pétala nº 3828

“Sabemos sempre porque caminhamos. 
Para avançar, partir, alcançar, recomeçar.”
(Frédéric Gros, in "CAMINHAR uma filosofia)


"Toda a gente sabe caminhar. Um pé à frente do outro, eis a medida certa, a distância para se ir algures, seja aonde for. E basta recomeçar.
Um pé à frente do outro."

"Quando se caminha, é preciso partir de madrugada, a fim de se acompanhar o nascimento do mundo e, nessa hora azul, sentir as palpitações da presença, a indigência da nossa vontade."

"Caminhar ao amanhecer é compreender a força dos começos naturais."

"A paisagem é um conjunto de sabores, cores e odores que o corpo absorve."

"É um dos segredos da caminhada. A aproximação lenta das paisagens torna-as familiares, tal como a convivência aumenta a amizade."

"A lentidão é colarmo-nos ao tempo a ponto de os segundos se desfiarem. Escoarem-se gota a gota. Como pingos de chuva sobre a pedra. Esse alongamento do tempo aprofunda o espaço."

"Os dias passados a caminhar são mais longos: permitem viver mais porque deixámos que cada hora, cada minuto, cada segundo respirasse, se aprofundasse..."

FRÉDÉRIC GROS, filósofo, professor, escritor francês (1965-), in "CAMINHAR uma filosofia" (2009), Ed. Antígona, 2024

"Caminhar é uma oração silenciosa, que não se faz com palavras, mas com as pernas, que avançam. É uma expressão de gratidão, um modo de prestar homenagem à paisagem e ao mundo."

FRÉDÉRIC GROS, filósofo, professor, escritor francês (1965-), em entrevista a Pedro Rios, publicada na revista Ípsilon, jornal Público, 12 Abril 2024 


“O tempo pode passar de modo mais subtil ou explícito, mas passa. O tempo – que não é só cronológico, mas expressão da própria existência – é passagem, fluxo, travessia.”
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal, teólogo e poeta português (1965-), em entrevista a Christiana Martins, publicada na revista "E", do jornal Expresso de 22 Dezembro 2023 

“… dentro do tempo, o que será verdadeiramente importante?"
PATRÍCIA REIS, jornalista e escritora portuguesa (1970), in “Chave de entendimento para uma sinfonia perdida”, Ed. Expresso, 2018 


“O tempo arrasta-nos,
e empurra-nos,
ilude-nos
e alaga-nos em remoinhos de lodo.
Envelhece-nos e mata-nos a todos.”

JAIME PORTELA, https://riosemmargenspoesia.blogspot.com/versos do poema
"O Tempo", 18 Março 2024


(Fotos: PORTUGAL/Albufeira do Alqueva, 2022. Mais fotos aqui.)


01 abril, 2024

Pétala nº 3811

"O tempo existe e tem som."


“Nas aldeias, ou nas cidades, nas casas perto das igrejas, o som dos sinos que assinalam a passagem das horas ainda resiste – e por vezes incomoda um pouco, mas sim, impõe respeito. O tempo existe e tem som."

“… para os distraídos do mundo, uma possível oferta: um relógio que em vez de emitir um tic-tac constante ou em vez do som de um pássaro, que hora a hora nos faça saltar de susto pelo volume sonoro e não pelo conteúdo da mensagem, em vez disso, ter um relógio que murmure, alternadamente duas frases:
- não te esqueças que vais morrer 
- não te esqueças de viver 
Duas frases que estão evidentemente ligadas e de que muitos filósofos já falaram com detalhe. Imaginar, então, um relógio que, por exemplo, a cada 30 minutos diga a frase “não te esqueças que vais morrer” e a cada 15 minutos a frase “não te esqueças de viver”. Cada pessoa poderia, claro, manipular a frequência das duas frases de acordo com o seu gosto privado, no limite ficando apenas, por exemplo, com a frase “não te esqueças de viver” a ser ouvida a cada hora. Um relógio cuja passagem do tempo seja assinalada com frases sábias.“ 

GONÇALO M. TAVARES, professor e escritor português (1970-), in crónica “O som que o tempo faz quando muda o ano”, revista "E", jornal Expresso, 5 Janeiro 2024



PORTUGAL / Aldeia histórica do Piódão, fotos daqui.


Obrigada Luis, pela linda flor primaveril.
 Ao amigo poeta / pintor, desejo uma feliz e inspiradora Primavera.


19 maio, 2023

Pétala nº 3776

Tempo, tempo, tempo...


“Tenho tempo à minha disposição e estou à disposição do tempo, portanto mais vale prestar contas. Mais cedo ou mais tarde, todos temos de o fazer.”

“Toda a gente tem de prestar contas a Deus, mais cedo ou mais tarde, e isso é um assunto entre cada pessoa e o seu Criador.” 
ABDULRAZAK GURNAH, escritor nascido em Zanzibar, em 1948, a viver em Inglaterra desde a década de 1960, in “Junto ao mar”, Ed. Cavalo de Ferro, 2022 
Prémio Nobel da Literatura, 2021


"Na convivência, o tempo não importa. Se for um minuto, uma hora, uma vida. O que importa é o que ficou deste minuto, desta hora, desta vida.
Lembra que o que importa é tudo que semeares colherás. Por isso, marca a tua passagem, deixa algo de ti, do teu minuto, da tua hora, do teu dia, da tua vida."
MÁRIO QUINTANA, poeta brasileiro (1906-94)


“Cada dia que passa, e até mesmo cada hora de cada dia que passa, substitui e remete à irrelevância o tempo anterior, e os acontecimentos nas nossas vidas fazem sentido apenas em relação a uma cronologia de conteúdo noticioso em permanente atualização.”
SALLY ROONEY, escritora irlandesa (1991-), in "Mundo Belo, onde Estás" (Beautiful World, Where Are You, 2021), Ed. Relógio D'Água, 2021


(fotos net)

21 abril, 2023

Pétala nº 3762

Tempo e Memória...


“Os que negam o tempo dizem: quarenta é nada, aos cinquenta estamos na flor da idade, sessenta são os novos quarenta, e por aí fora. Uma coisa eu sei: que existe o tempo objectivo, mas também o tempo subjectivo, aquele que se traz no interior do pulso, junto ao lugar da pulsação. E este tempo pessoal, que é o tempo verdadeiro, é medido na nossa relação com a memória.” 

JULIAN BARNES, escritor inglês (1946-), in “O sentido do fim”, Ed. Quetzal, 2011




“É um lugar severo, o reino da memória, um armazém esventrado e sombrio de tábuas podres e escadas enferrujadas onde ocasionalmente passamos tempo a revolver artigos abandonados.”

ABDULRAZAK GURNAH, escritor nascido em Zanzibar, em 1948, a viver em Inglaterra desde a década de 1960, in “Junto ao mar”, Ed. Cavalo de Ferro, 2022
Prémio Nobel da Literatura, 2021


(fotos net)

30 janeiro, 2023

Pétala nº 3721

Será que o tempo já vivido se relativiza em relação ao tempo que ainda nos resta? (…) Ou será que os dias passam mais rapidamente quanto mais avançada for a idade porque já conhecemos todos os quotidianos, da mesma maneira que um caminho se faz cada vez mais depressa quanto mais frequentemente o percorremos?” 

BERNHARD SCHLINK, escritor alemão (1944-), in “O outro homem e outras histórias (A mulher da bomba de gasolina)", Ed. ASA, 2004


23 novembro, 2022

Pétala nº 3679

“Previsão do tempo para esta noite: escuro.” 

GEORGE CARLIN, comediante norte-americano (1937-2008)

(Foto: Guilherme Rossi)



01 novembro, 2022

Pétala nº 3657

O tempo corre. Graças a ele, em primeiro lugar somos seres vivos, o que quer dizer: acusados e julgados. Depois, morremos, e permanecemos ainda alguns anos com aqueles que nos conheceram, mas depressa se produz uma outra mudança: os mortos tornam-se velhos mortos, ninguém mais se lembra deles e desaparecem no nada.” 

MILAN KUNDERA, escritor checo (1929-), in “A festa da insignificância”, Ed. D. Quixote, 2014


18 outubro, 2022

Pétala nº 3643

“O tempo passa de forma diferente para aqueles que estão excluídos do mundo.” 

DAMON GALGUT, escritor sul-africano (1963-), in “A Promessa” (Booker Prize, 2021), Ed. Relógio d'Água, 2021


08 agosto, 2022

Pétala nº 3586

“Qualquer tolo pode desperdiçar dinheiro, mas, quando desperdiçamos tempo, desperdiçamos algo que não tem preço.” 

SOMERSET MAUGHAM, (William Somerset Maugham), romancista e dramaturgo inglês (1874-1965), in “O Agente Britânico” (1928), Edições ASA, 2021


07 junho, 2022

Pétala nº 3538

“Para se pensar é necessário engolir o tempo, interiorizar o passado, o presente, o futuro, bem como as suas mudanças constantes. O tempo trabalha no interior da mente humana. Não existe no exterior.” 

OLGA TOKARCZUK, psicóloga e escritora polaca (1962-), in “Outrora e outros tempos”, Ed. Cavalo de Ferro, 2020 
Prémio Nobel de Literatura, 2018


27 maio, 2022

Pétala nº 3527

“Do tempo sabemos uma pequena parte e ignoramos tudo o resto. Por isso, o confronto com o mistério do tempo nos deixa sem palavras.” 

JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA, cardeal, teólogo e poeta português (1965-), in crónica "O caminho do não sei", publicada na revista "E", do jornal Expresso de 30 Dezembro 2021



💚
(Bom dia amigas e amigos. Começo a sentir algumas melhoras. 
Já sem a aterradora dor no braço mas com um intermitente e irritante formigueiro na mão direita - provocado por inflamação cervical diagnosticada na passada segunda-feira numa consulta de fisiatria - iniciei ontem o tratamento de fisioterapia. Na próxima semana duas sessões se seguirão, e outras mais virão. «Vai ficar tudo bem», diz a Ana,  a terapeuta com mãos de fada. E eu sei que sim!
Voltarei em breve. Beijos e abraços.)


23 março, 2022

Pétala nº 3491

“O tempo dos amantes clandestinos é sempre desesperadamente curto, desesperadamente apressado.”
MIGUEL SOUSA TAVARES, jornalista, escritor português (1952-), in “Último olhar”, Porto Editora, 2021 
“O tempo passa tanto mais depressa quanto mais vazio está.”
CARLOS RUIZ ZAFÓN, escritor espanhol (1964-2020), in “A sombra do vento”, Ed. D. Quixote, 2004


04 março, 2022

Pétala nº 3472

“O ser humano atrela o tempo ao seu sofrimento. Sofre por causa do passado e estende o sofrimento ao futuro. Desta maneira, cria o desespero.” 
OLGA TOKARCZUK, psicóloga e escritora polaca (1962-), in “Outrora e outros tempos”, Ed. Cavalo de Ferro, 2020 
Prémio Nobel de Literatura, 2018

“Aquilo a que chamamos o nosso desespero é frequentemente a dolorosa avidez de uma esperança insatisfeita.” 
GEORGE ELIOT, pseudónimo de Mary Ann Evans, romancista, poeta, jornalista britânica (1819-1880)


17 fevereiro, 2022

Pétala nº 3457

“- Ah, se a gente pudesse adivinhar a vida para a frente, não sei se seria melhor ou pior. Mas, se pudéssemos adivinhá-la, não seria vida, pois não?” 
MIGUEL SOUSA TAVARES, jornalista, escritor português (1952-), in “Último olhar”, Porto Editora, 2021


“Coleccionas perguntas. É bom. Tenho uma pergunta para a tua colecção (…) Para onde vamos? Qual a finalidade do tempo?” 
OLGA TOKARCZUK, psicóloga e escritora polaca (1962-), in “Outrora e outros tempos”, Ed. Cavalo de Ferro, 2020 
Prémio Nobel de Literatura, 2018


08 fevereiro, 2022

Pétala nº 3448

"Matamos o tempo, o tempo nos enterra. "
 
"Umas coisas nascem de outras, enroscam-se, desatam-se, confundem-se, perdem-se, e o tempo vai andando sem se perder de si…" 

MACHADO DE ASSIS, escritor brasileiro (1839-1908)


08 dezembro, 2021

Pétala nº 3402

“Alguém já viu um passarinho envelhecer? Se voássemos, haveríamos sempre de ser crianças. 
No céu, o tempo não passa, é uma nuvem.”
MIA COUTO e JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, in “O terrorista elegante”, Ed. Quetzal, 2019

Começámos a envelhecer no instante em que nascemos.” 
ISABEL ALLENDE, escritora chilena (1942-), in “O amante japonês”, Porto Editora, 2015

O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.” 
VERGÍLIO FERREIRA, escritor português (1816-1996)

11 outubro, 2021

Pétala nº 3360

Seja lá quem for que fez o tempo, não o fez em quantidade suficiente.”

COLM TÓIBÍN, escritor irlandês (1955-) in, “Mães e Filhos” – conto “Um longo inverno”, Bertrand Editora, 2011