Não fosse Tom Waits quem é e dir-se-ia que apenas aparece nesta lista para tentar disfarçar uma selecção discográfica dos melhores do ano militantemente organizada de acordo com uma agenda implacavelmente feminista. A verdade, no entanto, é que, olhando friamente para os álbuns que, ao longo de doze meses, este par de ouvidos foi escutando, o problema foi o da regra imposta dos dez ter obrigado a deixar ainda de fora Alela Diane & Wild Divine, Thao & Mirah, Ragged Kingdom (o outro álbum de June Tabor com a Oysterband), Last Summer, de Eleanor Friedberger, e – vá lá, não oprimamos demasiado o sexo fraco – So Beautiful Or So What, de Paul Simon, Beer In The Breakers, dos Wave Pictures, Tomboy, de Panda Bear, ou Here Before, o belíssimo regresso dos Feelies. A ordenação vertical na escala de excelência é assaz aleatória, embora a singularidade sonora de whokill e a dupla-maravilha de June Tabor mereçam ser destacadas.
Bem mais de meio século depois de Amália Rodrigues e algumas décadas a seguir a Camané, Cristina Branco e uma boa mão-cheia de outros que se encarregaram de fazer o fado viajar pelo mundo (mesmo naqueles casos em que aquilo que o mundo imaginava apreciar como fado não o fosse realmente), o Portugal que, oh quão fadistamente!..., ainda que sem se dar conta disso, todos os dias parafraseia Fernando Pessoa – “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, define com perfil e ser este fulgor baço da terra que é Portugal a entristecer, brilho sem luz e sem arder, como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quer. (...) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro” –, foi literalmente intimado a “orgulhar-se” porque Albânia, Azerbaijão, Burquina-Faso, Chipre, Coreia do Sul, Croácia, Cuba, Granada, Indonésia, Irão, Jordânia, Madasgáscar, Marrocos, Nigéria, Niger, Omã, Paraguai, Quénia, Venezuela e mais quatro ou cinco países nos autorizaram a fazê-lo, consagrando-o como “património intangível (logo o fado em que se deve tanger a guitarra...) da humanidade”. Derrotando bravamente o kung fu de Shaolin, ficou-lhe, assim, eternamente garantida uma notoriedade planetária tão invejável como as da "nijemo kolo", da Dalmácia ou do ritual de transplantação do arroz, de Mibu e Kawahigashi, no Japão (dois dos outros felizes contemplados pela UNESCO).
Enquanto isso, em Retromania: Pop Culture’s Addiction To Its Own Past – e a “viciação no passado” não seria uma magnífica definição do fado? –, Simon Reynolds colocava sob o microscópio o património cultural pop que ainda não teve acesso ao passaporte para o Olimpo dos imateriais (é só esperar mais umas décadas: em 2001, os ABBA já foram tema de exposição no Museu de Artes e Tradições Populares de Estocolmo) e, assombrado por uma inquietante interrogação (“Será que o maior perigo para o futuro da nossa cultura musical é... o seu passado?”), recordava os momentos do psicadelismo, do pós-punk, do hip-hop ou das raves “quando o metabolismo pop fervilhava de energia”, invectivava as jovens bandas em que “sob as faces macias e rosadas, se adivinha a pele macilenta das velhas ideias” e, quase paralisado pela dúvida “é a nostalgia que bloqueia a capacidade da nossa cultura para seguir em frente ou tornámo-nos nostálgicos porque ela desistiu de avançar?”, terminava com uma declaração de confiança no futuro, “essa vertigem assustadora e eufórica da inexistência de limites que a melhor ficção-científica oferece”. Retromania, o livro foi, sem dúvida, o melhor álbum pop deste ano. Mas se, de novo, confirmando Reynolds, nenhum sismo estético ocorreu, muito boa música continuou a acariciar-nos os tímpanos e nem toda cheirando a naftalina.
... ou alguém acredita que - só para dar dois exemplos -, em matéria de economia ou de "ciências" da educação (para não falar das "ciências" políticas), não haveria candidaturas com muito maior legitimidade?
(2011)
13 December 2011
2011 - PRÉMIO "SIM, SOU BIMBO, MISERÁVEL
E IGNORANTE E TENHO MUITO ORGULHO NISSO"
"Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar". (a Cavacal figura - aqui; publicado originalmente aqui)
2011 - PRÉMIO CONJUNTO "ROMANCE HISTÓRICO DO ANO" / "AUTORA DO ANO" / "ENTREVISTA LITERÁRIA DO ANO" / "SEXO ORAL DO ANO" / "SODOMIA DO ANO" / "INSÓNIA DO ANO" / "GAGUEZ DO ANO" / "EPILEPSIA DO ANO" / "BESTIALIDADE DO ANO"
Pedro, Inês e o Piloto nos preliminares de um "ménage à trois"
CM - O livro [Minha Querida Inês] surpreende, também, porque coloca personagens históricas sob uma luz desconcertante. As cenas de sexo oral entre Pedro e Inês, apesar da elegância com que são descritas, vão deixar muita gente perplexa. Tinha consciência disso? Foi deliberado?
Margarida Rebelo Pinto - Nunca escrevo nada sem ser deliberado. Já nem o poderia fazer, tenho uma grande responsabilidade perante os meus leitores. Na Idade Média, ao contrário do que as pessoas pensam, havia muita libertinagem, o sexo era uma das poucas distracções que as pessoas tinham. Inês e Pedro estiveram juntos muitos anos, é natural que entre eles existisse uma enorme cumplicidade sexual. O sexo faz parte da vida, escrever sobre sexo não é difícil. Escrever cenas de sexo é que é. Por isso, o pudor e a elegância têm de estar sempre presentes e vigilantes. Nunca se pode levantar completamente o véu.
CM - O carácter de Pedro sai um tanto prejudicado: para além de trair Inês com outras mulheres, fá-lo também com homens e com animais. É um facto registado pela História ou faz parte da liberdade criativa que assiste a qualquer romancista?
MRP - Já Fernão Lopes dizia nas crónicas que Pedro amava mais Afonso Madeira do que é de bom-tom dizer. É um facto histórico. E D. João I, Mestre de Avis, Rei de Portugal, é filho de Teresa, uma mulher galega, aia de D. Inês. Depois de Inês ter morrido D. Pedro foi um bom rei, mas era vingativo e sanguinário, epiléptico, gago e insone, tal como o descrevo no livro. (aqui)