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02 November 2025

 
(sequência daqui) Bastante menos positivo é que, na posse de imenso e riquíssimo material de arquivo, o realizador Chris Smith pareça ter-se debatido com tal abundância que, pelo meio da estrutura inerentemente desordenada de algo que tenha a ver com os Devo, não tenha sido capaz de lhe achar um rumo melhor definido. Visualmente, o filme é um banquete: antigas atuações em concerto, participações televisivas, estranhos filmes curtos e gráficos animados que combinam com a estética caótica dos Devo. Parece um documentário editado por alguém preso numa máquina de jogos, o que. no caso, é até precisamente o ambiente adequado. Com menos de duas horas, poderá, ainda assim, ser necessário algum repouso após a sobrecarga sensorial. Mas não fica espaço para dúvidas acerca da influência que exerceram sobre gerações de músicos e artistas visuais, bem como a persistência da sua crítica ao consumismo e à conformidade. Mais do que um documentário musical, Devo capta a essência daquela arte que se encara como forma de resistência, oferecendo uma celebração da criatividade da banda e um alerta acerca dos tempos turbulentos que os moldaram.

29 October 2025

 
 
(sequência daqui) E propunham uma - chamemos-lhe assim - visão do mundo que poderia resumir-se a "Os seres humanos estão a involuir". Inspirados por teóricos lamarckianos do século XIX e sua errática descendência tardia - H.G.Wells, personagens dos DC comics, Kurt Vonnegut ou H. P. Lovecraft -, o quinteto de Akron, Ohio, composto por por dois pares de irmãos, (Mark e Bob Mothersbaugh, Gerald e Bob Casale) e Alan Myers, retirariam o seu nome e a sua filosofia global desse conceito de "de-evolução/involução. Segundo o crítico de música Steve Huey, a banda "adaptou a teoria à sua visão da sociedade americana como um instrumento de repressão rígido e dicotómico que assegura que os seus membros se comportam como clones, marchando vida fora com a precisão mecânica de uma linha de montagem, sem tolerância para a ambiguidade" O documentário acompanha a ascensão da banda do estatuto de putos excêntricos de Akron a heróis de culto da cena punk dos anos 70 e, posteriormente, a estrelas da MTV. Ao longo do filme, recordamo-nos como o seu repertório não se resume a "Whip It" que, em 1980, se instituiria como o único verdeiro sucesso de vendas dos Devo (14º no Hot 100 da "Billboard"). Canções como "Jocko Homo" e "Beautiful World" surgem não como curiosidades bizarras, mas como críticas mordazes disfarçadas de música pop. Ao vermos hoje os vídeos da banda, com os seus desastrados cenários de cartão e coreografias espasmódicas, parece-nos menos um exercício de nostalgia e mais um momento de arte profética — como se, décadas antes, tivessem antecipado a cultura do TikTok. A teoria social da "de-evolução", seria uma ideia central no trabalho inicial da banda, que se caracterizava por um estilo agrestemente dissonante de art-punk que combinava rock com música eletrónica. (segue para aqui)

26 October 2025

INVOLUÇÃO
Uma montagem aluada de velhos filmes de arte granulados, máscaras de borracha e espectáculos (dizer "concertos" seria impossivelmente generoso) em que uma hipotética banda parece metade genial e metade demente. É esta a porta que, subitamente, se escancara para nos permitir ser testemunhas da alucinação que parecia ser o modo de vida habitual dos Devo, criaturas que, desde o início, não se dedicavam exclusivamente à música: encenavam também performances absurdas que se diria concebidas durante um ensaio científico que não correu da melhor maneira. Porém, por trás do aparente disparate galopante, existia uma origem surpreendentemente séria. Os fundadores dos Devo, Gerald Casale e Mark Mothersbaugh, eram estudantes em Kent State, no Ohio, aquando dos tiroteios de 4 de Maio de 1970, e assistram à morte de amigos às mãos da Guarda Nacional. Neil Young escreveria a canção 'Ohio' e com os mui próximos Crosby, Stills & Nash, rapidamente a gravou e publicou fazendo vibrar as palavras "Four Dead In Ohio" como hino da oposição à guerra do Vietname. Os Devo, pelo seu lado, em vez de se converter em filósofos soturnos, transformariam o trauma em sátira, constituindo uma banda que desmontava o conformismo, a política vigente e o consumismo, assumindo o aspecto de equipa de mecânicos de um mundo distópico que, por acaso, entrassem num estúdio de televisão (daqui; segue para aqui)

02 September 2025

ANTES DA LINGUAGEM

Beatie Wolfe é uma artista conceptual e compositora anglo-americana em busca de novos pontos de vista para a articulação entre diversas formas de expressão artística, em particular, naquilo que se relacione com a música na era digital- Por outras palavras, uma parceira ideal para Brian Eno, detentor de um par de hemisférios cerebrais incapazes do estado de repouso. Após Mark Mothersbaugh (Devo) e Michael Stipe (R.E.M.), seria ele a captura seguinte na teia de Beatie, após um primeiro e não planeado encontro durante uma conferência do SXSW (South by Southwest) 2022, sob a designação "Art and Climate". Daí resultaria um par de novos álbuns - Luminal e Lateral - que, associando-os ao projecto ("Feeling of the Day") que ambos também animam na rádio KCRW. de Los Angeles, descrevem assim: "A música propõe-se fazer-nos sentir emoções. Algumas dessas emoções são familiares, enquanto outras podem não ser, ou ser uma mistura complexa de várias emoções diferentes. Existem muitas palavras bonitas para descrever esses sentimentos noutras línguas e culturas — palavras que não existem em inglês". (daqui; segue para aqui)

29 November 2021

DO JUKEBOX
 
 
No universo paralelo do cinema de Wes Anderson, há (entre várias outras) duas particularidades que o definem: a obsessão pela simetria visual e uma concepção da banda sonora já designada como “crate-digger soundtrack”. Isto é, composta a partir do tipo de música e canções que tendem a ser apenas descobertas nos caixotes de feira-da-ladra e lojas de segunda mão, ponto de vista próximo mas não exactamente idêntico ao que costuma orientar Quentin Tarantino na mesma missão: se este tende a propor a redenção do mais obscuro e (muitas vezes, injustamente) desclassificado “kitsch”, Anderson, com a indispensável colaboração do farejador Randall Poster, valoriza o “vintage” de fina casta. Em Hotel Chevalier, prequela de The Darjeeling Limited (2007), "Where Do You Go To (My Lovely)?", do meteórico Peter Sarstedt, ocupava todo o espaço sonoro e, no próprio Darjeeling, reapareceria por diversas vezes, na companhia de canções dos Kinks, Rolling Stones e Joe Dassin. Mas, em toda a restante filmografia, lado a lado com peças do reportório clássico e música original de Alexandre Desplat e Mark Mothersbaugh (Devo), é um desfile contínuo de memórias dos Proclaimers, Ramones, Velvet Underground, Elliot Smith, Zombies, Sigur Rós, The Creation, Chad & Jeremy, Cat Stevens, The Who, Yves Montand, John Lennon, Faces, West Coast Pop Art Experimental Band, Nico, Dylan, Clash, Devo, Stooges, Scott Walker, Beach Boys, Charles Aznavour, e até de versões de David Bowie por Seu Jorge.(daqui; segue para aqui)
 
Jarvis Cocker - "Aline" (real. Wes Anderson)

20 April 2016

E-Z 


No frenético vai-e-vem das recuperações, reavaliações e repescagens com que a indústria discográfica se entretém – e, através das quais, actualmente, tenta, pura e simplesmente, sobreviver – nenhuma terá sido tão inesperada e tão surpreendentemente interessante como a do “easy listening”/”muzak”/”elevator music”, na segunda metade dos anos 90 do século passado. Nem necessitava de se reivindicar de linhagem ilustre (de Bach a Telemann, Mozart, Satie, Cage ou Brian Eno), porque aquilo que o velho baú, há muito fechado, foi revelando valia por si mesmo: Les Baxter, Martin Denny, Ray Coniff, Burt Bacharach, Yma Sumac, Arthur Lyman, Juan Garcia Esquível (particularmente preciosos foram os cerca de 40 volumes da colecção Ultra Lounge, da Capitol) e inúmeros outros praticantes daquela música “sem qualquer assunto nem objectivo, semelhante a uma cadeira de repouso” sobre que Erik Satie e Henri Matisse terão divagado, não apenas demonstravam que existira vida musicalmente sofisticada antes do rock mas obrigavam também a redescobrir um universo sonoro francamente mais aventureiro do que muita música contemporânea.



A verdade, porém, é que esse movimento revivalista tivera, pelo menos, um antecedente notório: as duas E-Z Listening Muzak Cassettes publicadas, em 1981, pelos Devo, em exclusivo para o seu clube de fãs, e só seis anos depois, reeditadas em CD pela Rykodisc. Continham “Muzak versions of your favourite Devo tunes performed by Devo at a rare casual moment” e, nessa obliqua homenagem à empresa e conceito musical criados pelo brigadeiro George Owen Squier, despiam 20 peças do seu reportório (e "Satisfaction", dos Rolling Stones) até ao osso, como que numa ilustração sonora da sua “de-evolution theory”, defensora da ideia de que, em vez de continuar a evoluir, a espécie humana teria iniciado um processo de regressão evidenciado pelas disfunções e mentalidade de rebanho da sociedade americana. Agora empacotadas sob a forma de "box set" de dois CD ou dois vinis, curiosamente, o resultado a que os manos Mothersbaugh e Casale chegam não se situa demasiado longe daquele a que, exactamente pela mesma altura, em Cardiff, os Young Marble Giants (dos outros irmãos Moxham), em Colossal Youth e Testcard EP, tinham ido dar.

19 November 2014

OLHAR AS TREVAS 


Numa entrevista de há um ano ao blog Ace Hotel, Bonnie ‘Prince’ Billy (aliás, Will Oldham), debatendo-se com a eterna questão de saber se a obra é, inevitavelmente, um reflexo mais ou menos autobiográfico do criador, lateralizando a resposta, afirmava: “Ser alguém que apresenta aquilo que cria como uma completa extensão de si mesmo foi sempre o meu sonho. (...) Compreendemos isto muito bem se escutarmos um músico como Richard Thompson a fazer um solo. Está sentado em palco e a canção que ele interpreta ganha verdadeiramente vida no instante em que se atira a um solo. Durante esse momento de generosidade, nós somos Richard Thompson. É uma dádiva esse tipo de relação com o seu talento, como se ele se apossasse do nosso cérebro”. Já deveríamos ter-nos apercebido de que, entre Oldham e Thompson, há algo mais do que a mera admiração de um discípulo pelo mestre. A inclusão de “The Calvary Cross”, segunda faixa de I Want To See The Bright Lights Tonight (estreia de Richard & Linda Thompson, 1974) em The Brave And The Bold, o álbum de versões – de Milton Nascimento aos Devo e Springsteen – gravado com os Tortoise e publicado em 2006, poderia ter sido um alerta.



Mas, lá mais para trás, em 1999, estávamos, de certeza indesculpavelmente distraídos quando, em I See A Darkness, não identificámos os ecos de Watching The Dark, título da compilação de Thompson de 1993, retirado de "Shoot Out The Lights" (1982): “Keep the blind down on the window, keep the pain on the inside, just watching the dark”. E aquele instante com Dawn McCarthy, em "Breakdown", de What The Brothers Sang (2013)...  Singer’s Grave – A Sea Of Tongues varre, definitivamente, todas as dúvidas que pudessem ainda restar: incluindo onze canções de que a maioria são inesperadas revisitações do bem recente Wolfroy Goes To Town (2011), é impossível não detectar nas guitarras (acústicas e eléctricas), nas inflexões vocais, nos coros das McCrary Sisters, no assentamento dos acordes sobre a curva das melodias, claríssimamente audível, quase um roteiro da trajectória de Thompson, dos Fairport Convention até hoje. Que não se trata de rasteiro trabalho de copista garante-o o facto de ter sido necessário tanto tempo para decifrar o enigma. Mas respondam sem pensar: quem escreveu “Nothing is better, nothing is best, we are unhappy, we are unblessed”

03 January 2013

OITO (+ QUATRO) ACHAS PARA A FOGUEIRA (V)



Young Marble Giants - Colossal Youth

O minimalismo arquitectural de Le Corbusier e Frank Lloyd Wright a acondicionar num minúsculo envelope a música dos Beatles, Brian Eno, Kraftwerk, Devo, Bowie (do período de Berlim) e Can. Não se adivinharia imediatamente mas é por aí que Stuart Moxham desenha a genealogia do único e (por isso, duplamente) precioso álbum dos Young Marble Giants. Com uma "drum-machine" artesanal, guitarra, baixo, orgão Galanti, e a voz de Alison Statton, em Cardiff, havia quem, a partir das células avulsas que o punk cuspira após ter esquartejado o obeso rock que o antecedera, se ocupasse a reactivar a matéria primordial de onde a música resultara e, ao repor em movimento a máquina sonora, torná-la, simultaneamente invisível, luminosa e quase homeopaticamente indetectável. Relojoaria tão frágil e perfeita que, uma nota ou um "beat" a menos, e tudo desabaria.

04 November 2012

DIGESTÃO DIFÍCIL



Ariel Pink’s Haunted Graffiti - Mature Themes 

Não é preciso apertar muito com ele. Ariel Marcus Rosenberg (aliás, Ariel Pink) confessa logo tudo de bom grado: “Quando se gosta da música dos anos 60, vivemos dentro dela para sempre. Vivemos num momento em que aqueles que estamos a escutar deixavam crescer o cabelo pela primeira vez. Olhamos para as imagens e sentimos que podíamos, de facto, viver ali. A minha geração [Ariel tem 34 anos] nem sequer existia ainda. Mas ‘vivemos lá’. Não temos nenhum conceito do tempo”. A sua obsessão é “preservar algo que se está extinguir” e assegura que aprendeu tudo o que sabe desde os 5 anos, grudado à MTV, a sua verdadeira "baby-sitter". E, mesmo hoje, pelo meio das ocasionais birras em palco, jura que se recusa a ouvir música nova, só sai do apartamento por obrigação e não quer saber do que, por aí, se escreve. Estaríamos, então, perante um exemplo típico de eremita antissocial irremediavelmente engatado em marcha-atrás, daqueles que encheram as páginas de Retromania, de Simon Reynolds, se não se desse o caso de Reynolds, embora, naturalmente, embaraçado, se ter deixado embalar pelo seu suposto tempero “retrolicious” (“retro” + “delicious”): qualquer coisa como o ingénuo fascínio infantil, sem preconceitos, perante um brinquedo colorido com o qual os pais e os avós já se divertiram mil vezes mas que aparenta ser sempre novo ou, noutro registo, uma tentativa de diálogo, à beira do psicótico, com o passado. 


 
Na realidade, a ementa de Ariel Pink não é assim tão restritiva: tanto se serve do psicadelismo sessentista como do prog e do glam dos 70s, não diz que não ao synthpop xunga de 80 e, vendo bem, qualquer pedaço de lixo que lhe passe por perto é bem-vindo. Mature Themes – segundo volume da discografia para a 4AD após Before Today (2010) que o transformou em "next big whatever", e um par de publicações domésticas na Paw Tracks, dos Animal Collective – documenta-o bem: dos Byrds ("Only In My Dreams") a Rod Stewart ("Pink Slime"), de Bowie enrolado com o Julian Cope da fase mais neurologicamente problemática ("Kinski Assassin"), aos Devo ("Is This The Best Spot?"), aos Neu! ("Nostradamus & Me") ou aos Visage ("Symphony Of The Nymph") – tudo em variante de karaoke baratucho onde o imitador de outro imitador procura recordar-se de como seria o original –, nenhum se escapa a picar o ponto no reportório. A digestão, já de si difícil, do objecto (há uma diferença entre a irreprimível atracção de alguém pelo lixo e prostrarmo-nos em êxtase perante a flatulência provocada pela sua deglutição) complica-se por via do, chamemos-lhe assim, imaginário poético do artista, matéria de fixação "teen" em “testicle bombs”, “blowjobs of death”, pontos G (“G spot! H bomb! Let’s go!”) e arrebatamentos líricos do género de “The bad breath of a cross-eyed goat eating children for a Monday morning”. O golpe de misericórdia, porém, é desferido pelo próprio, numa entrevista ao “Guardian”: quando interrogado porque usava o cabelo pintado de cor-de-rosa, candidamente, respondeu “Dirijo-me a adolescentes, tenho de me resignar a isso. Não posso parecer um avozinho resmungão”. E lá se vai o tolinho da aldeia "naïf" deslumbrado com a memória pop... 

06 October 2010

LATE NEXT BIG THING



Wavves - King Of The Beach

O "lo-fi" (ou, na sua forma mais extremista, o "no-fi") decorre apenas de duas opções: uma questão estética e/ou ética de recusa do polimento de estúdio a favor da espontaneidade tosca e rude do artista, em versão romântica, exibindo-se nu e cru, “tal como é”; na justificação mais prosaica, uma mera questão de ausência de saldo na conta bancária. Os Wavves – isto é, Nathan Williams – partiram da última e, ao terceiro álbum, decidiram que já era tempo de não se contentarem com as possibilidades do laptop e recorrer a um estúdio como deve ser e a um produtor (Dennis Herring) com currículo forjado à ilharga dos Modest Mouse. Provavelmente, a acidentada biografia recente de Nathan exigi-lo-ia: do estatuto de "next big thing" de há dois anos, a candidato à dupla vaga de Kurt Cobain/Courtney Love (sessões de pancadaria em bares, tristíssimas figuras pedradas no palco do festival Primavera Sound, de Barcelona, em Maio passado), havia que inventar algo capaz de reanimar, a tempo, uma daquelas carreiras que, pelo prazo de validade na era da Internet, se arriscava a terminar antes de ter começado. Naturalmente, dá sempre um pouco de jeito haver canções. E isso, por mais que se procure, é coisa que em King Of The Beach não é fácil descobrir: se, antes, o desmazelo sonoro podia alegar o alibi "no-fi", agora, este composto de Beach Boys de Toys 'R' Us, Animal Collective reduzido à expressão mais iletrada e Ramones surfistas, não é, propriamente, programa que se recomende. Atenuante há só uma: repetindo os Devo de Something For Everybody que confessavam “What we do is what we do, it’s all the same, there’s nothing new”, Nathan Williams, com idêntica candura, desabafa “I hate my writing, it’s all the same”.

(2010)

13 September 2010

IT'S ALL THE SAME, THERE'S NOTHING NEW



Devo - Something For Everybody

Durante vinte anos, os Devo não gravaram uma nota. Fizeram bem. Porque, da última vez que o haviam tentado, com Smooth Noodle Maps (1990), o mundo da música – então bastante mais entretido com o "grunge" e sua pequena multidão de moços sérios e barbudos – olhou para eles como para alienígenas oriundos de um planeta perdido num "time warp" longínquo. Até nem tinham muita razão: embora Noodle Maps fosse coisa bastante menor, o grupo de Jerry Casale e Mark Mothersbaugh, nos finais de 70 e início de 80, tinha sido imensamente mais relevante para a história da pop futura do que toda a trupe da camisinha de quadrados, engatada em marcha atrás (apesar de Kurt Cobain se reivindicar fã dos Devo), alguma vez seria. A descendência – “apenas” todo o experimentalismo electro rapidamente adelgaçado em formato canção-anzol pelos Human League, Heaven 17 e comparsas – revelar-se-ia numerosa e o apadrinhamento precoce de Brian Eno e David Bowie legitimá-los-ia enquanto pioneiros. É difícil entender por que motivo Casale e Mothersbaugh não se mantiveram, então, ocupados com as suas bandas sonoras para cinema e televisão (a de Mothersbaugh, para a série Big Love, era bem recomendável) e decidiram, agora, regressar. Something For Everybody, parece, de novo, confirmar a sua “devolution theory”, mostrando-os na condição de pálidas cópias dos menos honrosos lados-B dos seus mais indistintos discípulos, versão patética, apalhaçada e fora de horas de algo que, um dia, fez sentido. Porque, hoje, quando os ouvimos anunciar “What we do is what we do, it’s all the same, there’s nothing new” a reacção instintiva não é pensar “Oh, os bons velhos Devo e a sua crítica irónica da sociedade contemporânea!” mas sim “É verdade, rapazes, também já tínhamos reparado...”

(2010)

29 September 2008

MÚSICA DOMÉSTICA



David Byrne - Big Love: Hymnal

Big Love é uma excelente série televisiva da HBO criada por Mark V. Olsen e Will Scheffer cujo argumento se centra em torno de uma família de mórmones polígamos “old school” de um subúrbio de Salt Lake City, cuja poligamia – em virtude de o mormonismo “oficial”, depois de a ter erigido em dogma durante quase um século, em 1890, quando o Utah foi cercado por tropas federais, a ter ilegalizado, sob pressão e por via de uma bem vinda “revelação” do “profeta” Wilford Woodruff – a obriga a viver em permanentes manobras de dissimulação face a um meio social, hoje (oh ironia!), ferozmente anti-poligâmico. Se a banda sonora da primeira temporada foi entregue a Mark Mothersbaugh (ex-Devo), para a segunda, o escolhido foi David Byrne.



É ele que, no seu blog, conta como, dos esboços iniciais de hinos mormon "fake" alimentados a devaneios com Bernard Herrmann e Nino Rota, se viu forçado a domesticar os ímpetos de grandiloquência (iluminado também pela sabedoria do “sound designer”, Walter Murch) a favor de uma música “que não jogasse contra as cenas” mas que funcionasse antes como “underscoring” discreto e subliminar. Agora reunida em CD, é isso mesmo com que deparamos: uma espécie de Music For The Knee Plays exclusivamente instrumental, provincial e doméstica, presumivelmente eficaz e sem texto.

(2008)

14 March 2008

CIRCUS PUNK



Ego Plum & The Ebola Music Orchestra - The Rat King

É muito irritante quando se descobre que alguém já descreveu algo precisamente nos mesmos termos em que o iríamos fazer. Fiquei, pois, com considerável antipatia por um tal Brian Baker que, no site da Ebola Music Records, fala de The Rat King, imaginando “uma Terra paralela, o exacto duplo molecular desta, mas completamente única e independente do nosso planeta”. Nela, David Lynch e Tim Burton colaboraram numa animação de terror, entregaram a banda sonora aos Residents, Devo e Oingo Boingo, os quais invocaram os espíritos de Zappa, Raymond Scott e Kurt Weill, alistaram Beck, Tom Waits e Captain Beefheart para o “voiceover” e Brian Wilson para a produção executiva.



Resta-me, então, acrescentar que Ego Plum (aliás, Ernesto Guerrero) é um compositor, performer e artista visual de Los Angeles e que a Ebola Music Orchestra – um ensemble de dez executants de sopros, marimbas, acordeão, cordas, bateria e guitarra – pratica o mais glorioso “circus-punk” desse ou de outro planeta qualquer. Ah!… (detesto quando me roubam as palavras!) mas vejam bem que o sacana do Baker nem sequer reparou que Carl Stalling também veio pela mão de Zappa, Scott e Weill...



(2008)