Showing posts with label Prince. Show all posts
Showing posts with label Prince. Show all posts

05 May 2021

A PARTIR DO SOLO
Pelo meio dos anos 90 do século passado, Valerie June Hockett era uma miúda negra adolescente, de Humboldt, no Tennessee, que fizera a aprendizagem musical na Church of Christ local, uma igreja “tão pura que, por tradição, proibia a utilização de instrumentos musicais. Por isso, tínhamos só vozes e toda a gente – velhos, jovens, afinados, desafinados – cantava. Não havia regras como ‘não sabes cantar, vais para a fila de trás’. Toda a gente cantava. Aos domingos, eram 500 pessoas a cantar em côro, a plenos pulmões”, conta ela à “Billboard”. Da santidade gospel, seguia para casa onde se deixava desviar para aquilo a que a mãe chamava “drug music”, com a cumplicidade do pai, Emerson Hockett, empresário da construção civil e, em "part-time", promotor de concertos de Prince, Bobby Womack e vários outros músicos e bandas soul e R&B. Foi por essa altura que uma inversão inesperada dos trajectos habituais aconteceu: Ouvi a versão dos Nirvana para ‘Where Did You Sleep Last Night’, do Leadbelly. O rapaz branco conduziu-me até aos blues. Ali estava eu à procura das minhas raízes”. (daqui: segue para aqui)
 
"Call Me A Fool" (feat. Carla Thomas) - ver também aqui

30 September 2019

ESCOLA DE PENSAMENTO


Pelo menos desde o início deste milénio, o mundo teve já várias oportunidades de travar conhecimento com os "bons mots" oriundos da escola de pensamento presidencial norte-americana. Primeiro, via George W. Bush, coligido por Jacob Weisberg nos 5 preciosos volumes de George W. Bushisms: The Slate Book of Accidental Wit and Wisdom of Our 43rd President. Depois, Pieces of Intelligence: The Existential Poetry of Donald H. Rumsfeld (2009), no qual Hart Seely revela a poesia oculta nas declarações do Secretário de Estado da Defesa do acima referido W (“As we know, there are known knowns. There are things we know we know. We also know there are known unknowns. That is to say we know there are some things we do not know”), aliás, musicada pelo compositor Bryant Kong. Por fim, I Hope Like Heck: The Selected Poems of Sarah Palin (2011), antologia de 50 "found poems" extraídos por Michael Solomon dos emails da ex-candidata à vice-presidência, de quem, Jacob Weisberg também já publicara Palinisms: The Accidental Wit and Wisdom of Sarah Palin (2010). 



Nunca estaríamos, porém, preparados para que aquela profecia visual de Banksy em que um chimpanzé exibe um cartaz onde se lê “Laugh now but one day we’ll be in charge” se realizasse tão cedo, a 8 de Novembro de 2016. Três anos depois, não é de espantar que já existam 3 volumes de Trumpisms Day-to-Day Calendar: The Boasts, Barbs, and Bizarre Musings of the 45th President compilados por Andrews McMeel, os 11 minutos de "grindcore" de The First 100 Songs, dos Anal Trump (100 canções com a duração média de 6,6 segundos, “from the point of view of the asshole”, isto é, o único texto são trumpismos avulsos) e, agora, 45, da School of Language, actividade extra-curricular de David Brewis, metade dos óptimos Field Music. Inspirado por Fear (a aterradora visão dos bastidores da Casa Branca), de Bob Woodward, artigos da imprensa americana, e por James Brown, Prince, Sly & the Family Stone, The Meters, Otis Redding e Free, este “Donald Trump funk musical” é um exercício entre o cómico e o deprimente sobre a fanfarronice bronca do 45º presidente dos EUA, segundo o próprio e vários elementos do gang de meliantes que o rodeia. "Nobody Knows" (“Nobody respects women like I do”) poderia ser uma esclarecedora síntese mas o refrão de "Rex" – pela voz do despedido Secretário de Estado, Rex Tillerson – põe todos os pontos claramente nos “i”: “I didn’t say he was a moron, I said he was a fucking moron!”

28 December 2016

O FUNDO DO COPO


O luxuoso Dorchester, com vista sobre Hyde Park, foi o hotel escolhido por David Bowie para, no domingo 16 de Julho de 1972, acolher dezenas de jornalistas americanos a quem iria apresentar Ziggy Stardust And The Spiders From Mars. Lou Reed (de unhas "bordeaux" e óculos escuros) e Iggy Pop (cabelo prateado, olhos pintados e t-shirt dos T. Rex) estavam presentes. E, conta Simon Reynolds em Shock And Awe: Glam Rock And Its Legacy (arrume-se já o assunto: ensaio pop do ano), Bowie, dirigindo-se aos convidados, declarou: “Pessoas como o Lou Reed e eu anunciam, provavelmente, o fim de uma era... e digo isto, catastroficamente. Qualquer sociedade que deixa à solta gente como nós está seriamente perdida. Somos ambos muito confusos, paranóicos, absolutos desastres ambulantes. Se somos a vanguarda de alguma coisa, não somos necessariamente a vanguarda de algo bom”. A 8 de Janeiro de 2016 – data do seu 69º aniversário e antepenúltimo dia de vida – David Bowie oferecia ao mundo uma derradeira Estrela Negra. Mas não suficientemente negra. You Want It Darker, murmurou Leonard Cohen, duas semanas antes de recusar ser testemunha do que, há muito previra (“I've seen the future, brother: it is murder”): no dia seguinte a ter “saído de jogo”, o planeta – seriamente perdido, sim – dava-se conta de que um candidato apoiado pelo Ku Klux Klan e pronto a partilhar o saque com um tirânico ex-director do KGB chegara à presidência dos EUA.


Em “30 Days 30 Songs” (que cresceria até “30 Days 50 Songs”), um site independente que, na qualidade de “artists for a Trump-free America”, entre 10 de Outubro e 8 de Novembro, juntou R.E.M., Franz Ferdinand, Aimee Mann, Andrew Bird, Moby, Lila Downs, Matt Berninger, Mirah, Ani Di Franco, Bob Mould e diversos outros, dispararam-se rajadas de agit-prop musical contra o Orange Clown e Michael Stipe espumou de fúria a propósito da utilização de "It’s the End of the World as We Know It (And I Feel Fine)" num comício de Trump (“Go fuck yourselves, you sad, attention-grabbing, power-hungry little men. Do not use our music or my voice for your moronic charade of a campaign”), tal como fariam os Rolling Stones, Neil Young e Aerosmith. No centenário do Manifesto Dada, filho natural da Primeira Grande Guerra, e nos 40 anos do punk (a cujas relíquias, avaliadas em 5 milhóes de libras, o filho de Malcolm McLaren lançou fogo, em protesto contra a sua mumificação institucionalizada no UK do Brexit), nada impediria a História de, uma vez mais, recuar vertiginosamente.


Talvez não seja motivo para, nos EUA, voltar a cantar-se já, já, "Strange Fruit". Mas a crua reportagem de PJ Harvey por alguns dos lugares da peste contemporânea (Afeganistão, Kosovo, os bairros esquálidos da periferia de Washington D.C.) em paralelo com a metralha de videos de pesadelo de Nadya Tolokonnikova/Pussy Riot ("Chaika"/"Straight Outta Vagina"/"Organs"/"Make America Great Again") deixam adivinhar o renascimento de uma contracultura de protesto. E, é verdade, o artista anteriormente conhecido como um impronunciável "Love Symbol" regressou à condição do confirmadamente mortal Prince Rogers Nelson. E, valha-nos isso, Dylan ganhou o Nobel. E, tudo bem medido e avaliado, parece que, afinal, 2016 não terá sido o pior ano de sempre. Que nunca venhamos a ter saudades dele. Porque não se trata de saber se estava meio cheio ou meio vazio mas, sim, se o fundo do copo está furado ou não.

21 April 2016

26 February 2014

TRIVIALIDADES


A vicentina Annie Erin Clark só nos fala de coisas comuns. A banalidade do dia-a-dia (“Oh what an ordinary day, take out the garbage, masturbate”); o susto de, ao passear nua pelo deserto do Texas, tropeçar numa cascavel que escava buracos na areia “as if Seurat painted the Rio Grande” (quem nunca tiver pensado em pintores impressionistas quando, no estado de natureza, caminha por entre dunas e répteis, que atire a primeira pedra); a conversa nocturna com o fantasma do Black Panther, Huey Newton, provocada por uma dose legal de tartarato de zolpidem tomada em brava luta contra o jet-lag (acusem-na aqueles que jamais foram vítimas das imidazopiridinas); as mais que sensatas opções teológicas decididas sob o estado de paixão (“I prefer your love to Jesus”), por muito que Theodore Twombly, do Her, de Spike Jonze, insista que “falling in love is a crazy thing to do, It’s kind of like a form of socially acceptable insanity”; a universal culturinha digital voyeurista-exibicionista (“Digital witnesses, what's the point of even sleeping? If I can't show it, you can't see me”); a pura trivialidade, até, de atribuir o título St. Vincent ao álbum de alguém que assina com o "nom de plume" St. Vincent. 



O que torna tudo um pouco mais esquinado, contudo, é descobrir como isso é suposto acomodar-se no interior de uma gravação que se propõe como “a party record that could be played at a funeral” e onde o método de resolução de problemas se aplica na criação de objectos singulares e coerentes a partir de uma matéria-prima que pode começar em Bowie ou Stravinsky e prolongar-se por Prince, os Pantera, a tradição turca de Selda Bağcan e os Meters. O ponto de chegada – contornando, pelo caminho, os alçapões perigosamente próximos do prog-rock – haverá de ser aquela bissectriz equidistante da “acessible pop music and the lunatic fringe” que muito melhor do que quaisquer elucubrações, o videoclip de "Digital Witness" traduz visualmente: em cenário distópico construído de peças soltas da Metropolis, de Fritz Lang, e da Tativille, de Playtime, uma inquietante personagem (St Vincent), sonâmbula e robótica, inspirada em El Topo, de Jodorowsky, comanda, à distância, os movimentos sincronizados de um pequeno exército de "Untermenschen". “This is no time for confessing, I want all of your mind”, invectiva-os. Mas os riffs de sopros, irremediavelmente funky, proíbem a imobilidade da cintura para baixo.

26 April 2012

“NÃO SEI DAR ORDENS ÀS CANÇÕES”



Do outro lado da porta fechada, está um fulano que foi metade de uma das bandas norte-americanas – os White Stripes – que, alegadamente, injectaram adrenalina no rock’n’roll do novo milénio. O mesmo tipo que, na condição de impulsionador da editora "indie", Third Man Records, no espaço de três anos, publicou 140 discos (singles e LP) em vinil, dos quais vendeu 600 000 cópias, e que, a “Rolling Stone”, em 2011, incluiu no top 20 dos melhores guitarristas de sempre (“the hottest new thing on six strings”). Aliás, o novo-Rick Rubin, especializado na ressurreição de vetustas lendas femininas da country e do rock como Loretta Lynn e Wanda Jackson, mas também (ainda via Third Man Records) candidato a sucessor de Harry Smith, enquanto compilador de marginalia da cultura popular (do leiloeiro Jerry King a Dwayne “The Teenage Weirdo” ou a... Conan O’ Brien). Ele dos Raconteurs e Dead Weather e, neste exacto momento, empenhado em dar a conhecer ao universo o seu primeiro ábum a solo. E, justamente ali, minutos antes de começarmos a conversar, que quatro palavras se alinham na memória? “The Queen Is Dead”. Dos Smiths. Sim, porque, o ocupante da “Suite de La Reine”, naquele hotel da Place des Vosges, em Paris, após um quádruplo "knock-knock" na porta, não dá sinais de vida. Alarme, por fim, não confirmado e tiro de partida para a sessão de esclarecimentos sobre Blunderbuss e tópicos afins. 

Nas suas próprias palavras, este é um disco que tem apenas a ver consigo, com a sua capacidade de expressão através das suas cores, na sua tela privada. Como se apercebeu que ele nunca poderia ser assinado pelos Raconteurs ou Dead Weather e, muito mais improvavelmente, pretexto para a reanimação dos White Stripes? 
Sabe, é-me muito difícil dar ordens a uma canção. Convencemo-nos de que somos capazes desse tipo de coisas – vai ser assim, ter este título... – mas, especialmente, como acontece comigo que trabalho com diversas bandas, quando as canções me aparecem, não faço ideia do como elas deverão ser. Estas canções nunca me disseram que deveriam figurar num álbum dos Dead Weather ou dos Raconteurs. Por isso, fui obrigado a perceber que teria de ser alguma coisa diferente. 



O que significa “Blunderbuss”? 
É uma palavra holandesa para uma arma-gigante, uma espingarda-elefante de grande calibre, capaz de disparar uma nuvem de pregos ou de pedras com um enorme potencial de destruição. É o que eu pretendo que aconteça com as canções, que elas sejam poderosas, que provoquem e trespassem quem as escutar. Chamar Blunderbuss ao álbum foi, então, para mim, como uma bênção.

Provavelmente, vai odiar-me por dizer isto. Mas, por diversas vezes, ao escutá-lo, os Rolling Stones (em especial, na fase mais psicadélica) me vieram à cabeça... 
(risos) É muito melhor do que se tivesse dito Led Zeppelin!... Nós – particularmente na América – deixamo-nos prender muito por caracterizações excessivamente simplistas. Qualquer coisa que soe um pouco mais pesada ou que parta de um riff poderoso, é imediatamente associada aos Led Zeppelin. Mas agrada-me muito quando as pessoas ouvem coisas diferentes na mesma música. Já houve quem me falasse de influências do jazz, quem tenha dito que é um álbum muito assente no piano... óptimo! Mau seria se soasse da mesma forma a toda a gente.

Terão sido essas canções mais conduzidas pelo piano que o transformam num álbum de Jack White?
Não sei, não é fácil responder a isso... Uma das coisas que penso ter aprendido com este álbum é que, se, numa canção tivermos uma guitarra ou um piano, são eles que, aos nossos ouvidos, se transformam no instrumento principal. Apossam-se da canção. Mesmo que eu tivesse escrito uma canção ao violino e a tocasse também no violino, se existir um piano, ele toma conta da canção. Toda a gente irá dizer que é uma canção-com-piano e não com violino. Estava convencidíssimo que, numa das canções, o centro de gravidade era o baixo mas, porque havia também piano, ninguém conseguiu aperceber-se disso. A guitarra e o piano são muito dominadores.



O Tom Waits dizia que, desde que deixou de compor ao piano, a música dele mudou... 
Exacto. Sempre compus ao piano ou à guitarra como ponto de partida. Mas, neste álbum, mesmo que tenha sido eu a conceber as partes de guitarra, preferi entregá-las a outros músicos para que as reinterpretassem para mim.

Como se sente no papel de ultimo elo numa longa dinastia de "guitar heroes"?
De facto, não me vejo assim. Sou, desde sempre, fundamentalmente, baterista. A guitarra é apenas um instrumento... a que as pessoas reagem bem. Nunca, realmente, me apaixonei por ela. Temos apenas uma boa relação.

Mas assumiu a condição de "guitar hero" no filme It Might Get Loud, em que com o Jimmy Page e The Edge, conversam sobre a história da guitarra eléctrica... 
É verdade. E é simpático saber que qualquer instrumento que eu toque as pessoas aceitam bem. Mas, num concerto do Bob Dylan, também há, de certeza, muita gente que está à espera de o ouvir tocar harmónica. Ele tem de tocar harmónica, exigem isso dele, mesmo que lhe apeteça mais pegar na guitarra ou nos teclados.

Mas, de qualquer modo, tem o seu panteão pessoal de guitarristas?
Sim, mas sob ângulos muito diferentes... por exemplo, acho o Willie Nelson um guitarrista fantástico, ele é tão desmazelado, tão destrutivo e descuidado na sua maneira de tocar... é lindo. O Prince é um guitarrista brilhantíssimo totalmente subestimado. Ou o Tom Morello, dos Rage Against The Machine, que é extremamente original pelo estilo e pela sonoridade, em especial, naqueles pormenores em que a maioria das pessoas não repara.



A sua multiplicação de actividades é coisa instintiva ou apenas uma forma de não se deixar consumir pela rotina?
 A verdade é que nunca tive de andar à procura de coisas para fazer. É mais ao contrário: falta-me tempo para fazer tudo aquilo que já deveria ter feito há semanas. Nunca consigo chegar lá e nem sei como irei alguma vez conseguir. No ano passado, reconstruí a minha oficina de estofos, em Nashville, mas, durante todo este tempo, ainda não consegui pôr as mãos em nada. Queria voltar a dedicar-me ao ofício mas é mais outra coisa que tem ficado para trás...

Tanto na sua própria música como naquilo que aceita produzir ou publicar na Third Man Records, há uma forte presença da história da cultura popular. Por acaso, leu Retromania, do Simon Reynolds, em que ele aponta o dedo à viciação da pop no seu passado?
Não li mas “retro” é uma péssima palavra. Aliás, todas as palavras que começam por “re” – recriar, reinventar – significam que estamos a fazer algo que já foi feito antes e que procuramos replicar. Por vezes, perguntam-me como vou gravar um determinado disco e respondo que o farei em fita magnética. Dizem-me logo: “Ah, é um adepto do retro e prefere que a música soe a anos 60...”. Não! Pretendo que soe a 2012 mas, se, enquanto produtor, me pergunta o que soa melhor, eu responda que em fita soa melhor do que no computador. Se prefiro o vinil, não é porque deseje recriar um momento qualquer de quando tinha oito anos mas porque o som é melhor. Acontece o mesmo no cinema. É como se disséssemos que já não precisamos de quadros a óleo porque temos o Photoshop. Se uma coisa produz beleza e deixa a sua marca na humanidade, temos de nos agarrar a ela. É o que se passa com o vinil. Que, aliás, é o único sector do mercado discográfico em crescimento.

Talvez porque os CD caíram a pique e o vinil, praticamente, recomeçou do zero...
Cada disco que publicamos tem uma edição limitada que apenas pode ser adquirido numa determinada altura, numa certa cidade ou nesta ou naquela cor ou design. Parece-me que as pessoas precisam de uma pausa para voltar a reflectir sobre isto. É difícil lutar contra gadgets como o iPod: é giro, cabe no bolso, guarda 20 000 canções... Mas... calma, parem. Lembram-se daquele aparelho onde podiam colocar um disco, e, depois, acender umas velas, beber um copo de vinho? Há todo um romantismo em torno disso... as capas, o cheiro. O mundo digital não tem romantismo nenhum. 

17 February 2010

DIGESTÃO ERUDITA



Field Music - (Measure)

É praticamente impossível acreditar que chegará um dia em que, de vez, a pop terá esgotado todos os seus recursos e não lhe restará senão repetir-se aborrecida e infinitamente. Porque, às periódicas temporadas de desalento – quando bandas e indústria parecem conspirar em conjunto para não oferecer senão "new waves" de "new waves" de outras "new waves" –, acabam sempre por suceder épocas de descoberta e surpresas.



As melhores são como este (Measure), dos Field Music, coisa tipo-out of nowhere (apesar dos anteriores Field Music, de 2005, e Tones Of Town, 2007): um genuíno tratado de erudição pop em formato duplo, situado no lugar onde, hoje, se poderia relocalizar aquele instante imediatamente anterior ao parto do prog-rock, para onde confluem (pausa para inspiração) os Led Zeppelin, Beatles, Zombies, XTC, Kinks, John Cage, Bela Bartók, Prince, ELO, Erik Satie, Brian Eno, CSN&Y, Blue Nile, Pierre Schaeffer, Roxy Music, Penguin Cafe Orchestra e, se quiséssemos ser verdadeiramente exaustivos, mais todo o resto que ocuparia a totalidade desta página. Integral e genialmente digerido e reconfigurado.

(2010)

13 August 2008

ELEGANTE PERVERSÃO 
(revisão a partir daqui)
 

 
 Beck - Sea Change 
 
Beck, com Mutations (se decidirmos não incluir o colateral One Foot In The Grave), já tinha gravado o seu John Wesley Harding. A que, procedendo em sentido inverso como nele não poderia deixar de ser, havia feito suceder o seu Blonde On Blonde, isto é, Midnite Vultures. Austeridade e excesso barroco. O paralelismo com Bob Dylan faz todo o sentido: se o que Beck escreve são canções da era pós-sampling, pós-hip hop, se quiserem também, pós-rock, ele e Dylan concentram em si uma tradição musical da América profunda: a música de rua, a matriz rural country e folk, a apetência urbana do rock. Dylan alimentava-se de Woody Guthrie, Cisco Houston, Leadbelly e Hank Williams. Beck não esqueceu nenhum desses mas acrescentou-lhes partículas da memória de Dr. John, James Brown, Tom Jobim, George Clinton, Stockhausen, Cameo, Beatles, Curtis Mayfield, T. Rex, Prince, Captain Beefheart, Barry White e... Bob Dylan. Daí que, de Mellow Gold a Odelay, Mutations ou Vultures, muitos se tenham visto em palpos de aranha para caracterizar o que ele faz. De mutant-folk-machine a surreal-junk-rock, folk-hop ou spastic-future-funk, as designações proliferaram sem nunca, no entanto, acertarem verdadeiramente no alvo.
 
  
 
E, agora, com Sea Change, vão, inevitavelmente voltar a disparar ao lado. Porque se, acerca do sucessor de Midnite Vultures — essa gloriosa celebração da mais infecciosa promiscuidade estética literalmente "fin de siècle" cujo lema era "mixing business with leather, Christmas with Heather, freaks flock together" a bordo do "goodship ménage à trois" —, a boataria falava de outro retorno à "pureza" das raízes folk/country com ecos de Neil Young e outras luminárias "acústicas", a verdade é que, sendo vagamente isso, não é, de facto, senão outra elegantíssima perversão das regras de um jogo só parecido com esse. Sim, predominam os timbres acústicos, os andamentos são repousados e as atmosferas reflexivas, mas em quase todos os doze temas, mais subtil ou mais obviamente, algo nos arranjos ou no design da encenação instrumental amplifica, desfigura ou contraria aquilo que noutros seria o desgraçadamente previsível álbum-acústico-de-baladas-folk-country: "Paper Tiger" é soturno funk de câmara com sumptuosa orquestra de cordas à maneira de um hiper-Isaac Hayes, "Lonesome Tears" só pode ser descrita como country-expressionista-sinfónico com crescendo final "à la" "A Day In The Life", "Lost Cause" aloja a mais pura candura melódica folk numa moldura de fantasmagorias, distorções e "reverse tapes", "Round The Bend" parece um felicíssimo casamento entre os sublimes ambientes orquestrais de American Gothic, de David Ackles (que Beck, seguramente, nunca ouviu), e a imaterialidade de David Sylvian (que ele, por certo, conhece), "Sunday Sun" ensaia uma quase raga psicadélica algures entre os Traffic e os Nirvana — que afloram de novo em "Little One" — e, de um modo geral, não permitam nunca que as episódicas slide-guitars e harmónicas vos enganem. Beck Hansen é imensamente maior que todos os estereótipos em que o pretendam encarcerar e, venham as marés de que lado vierem, Sea Change é apenas outra desmedida prova disso. (2002)

25 March 2008

SONGWRITER'S SONGWRITER



Prefab Sprout - The Gunman And Other Stories

Em 1985, Paddy McAloon proferiu uma daquelas declarações que, irremediavelmente, se colam ao seu autor para a vida toda. Afirmou ele, então, à revista "Jamming": "Sei que sou, provavelmente, o melhor 'songwriter' do planeta. Estou a falar a sério! Ninguém conhece sequer metade daquilo que escrevi. Mas sei quão bom sou porque me comparei com todos os grandes 'songwriters' — Prince, Lennon & McCartney, Bacharach, Richard Rodgers, Gershwin, até mesmo tipos como os Chic que não escrevem textos capazes de interessar estudantes de sociologia mas em que a música é tudo. É terrível dizer isto e nunca o disse a ninguém mas, no fim de contas, hoje, quem são os meus rivais?". Para quem sempre tenha pensado que "humildade" é um palavrão obsceno, este é exactamente o tipo de desabafo que sabe bem ouvir. E, embora possa, evidententemente, não ser muito rigoroso — mas quando se dizem coisas deste género não se está, naturalmente, a resolver um exercício de matemática —, a verdade é que McAloon, por mais arrogante que possa ter sido, não falhava muito o alvo. Poderia estar a esquecer-se de Elvis Costello e de mais um ou outro mas, de facto, como a história seguinte da pop anglófona haveria de demonstrar, a discografia dos Prefab Sprout constituiria um daqueles territórios demarcados onde a herança da melhor canção popular (circunscrita, justamente, ao perímetro aproximado daqueles nomes que Paddy McAloon referia) se desenvolveu e ampliou.



A arca da obra inédita dos Sprout, por outro lado, não deverá andar, em volume, muito longe da de Pessoa: se, em 83, Mc Aloon revelava que, por essa altura, já tinha um catálogo de canções suficiente para os proximos quatro álbuns, em 97, aquando da publicação de Andromeda Heights, anunciava que dispunha de material capaz de preencher... mais oito discos, entre "Earth - The Story So Far, uma história do mundo, e The Atomic Hymn Book, uma espécie de gospel agnóstico". E, afinal, por preguiça, excesso de perfeccionismo ou outro motivo qualquer, de 84 até hoje, a obra publicada do grupo resume-se apenas a seis álbuns (Swoon/84, Steve McQueen/85, From Langley Park To Memphis/88, Protest Songs/89, Jordan:The Comeback/90 e Andromeda Heights/97) aos quais, quatro anos após o último, se deve agora acrescentar The Gunman And Other Stories. Como Jordan, este é, outra vez, um álbum (vagamente) conceptual, organizado em torno da figura e da mitologia do cowboy. E que volta a reafirmar McAloon senão como "o songwriter" que se julga, pelo menos enquanto definitivo "songwriters' songwriter".


(o resto aqui e aqui)

De certa maneira, é ainda mais um argumento que tende a explicar a razão por que os Prefab Sprout nunca estiveram realmente "na moda" e que esclarece um pouco melhor uma outra afirmação de Paddy McAloon: "Detestaria que me vissem como um tipo antiquado. Na verdade, acho-me extremamente moderno. Simplesmente, não tenho o menor apreço pelo rumo que o mundo moderno seguiu". É que, se estas canções, em rigor, pouco ou nada têm a ver com o tal rumo que o mundo moderno seguiu, nem por isso deixam de ostentar o mesmo recorte de "modern classics" das de Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin ou (estará McAloon de acordo?) Stephin Merritt. Pode-se-lhes reprovar, aqui ou ali, algum excesso de "slickness" na produção, um ou outro momento serão demasiado rebuscados (mas isso faz parte da concepção-McAloon), contudo, nesta outra colecção de dez composições em que "love is the gunman and he's coming to town" tudo circula entre as tradicionais referências do gospel, da herança country (da "square dance" de "Farmyard Cat" à revisão do clássico "Streets Of Laredo") ou da "showtune" sofisticada, entregando-nos de mão beijada mais meia dúzia de preciosidades da música popular de sempre como "I'm a Troubled Man", "Blue Roses" ou aquela outra melodia de veludo a encadernar palavras tão ásperas como "when you get to know me better you'll learn to love me less". (2001)

23 January 2008

DOS MILAGRES



Susanna And The Magical Orchestra - Melody Mountain

Não se deixem iludir pela aparência de Nouvelle Vague-em-formato-escandinavo: Susanna Karolina Wallumrød e o ex-Jaga Jazzist, Morten Qvenild, podem ter gravado um álbum de versões de "clássicos" (e outros nem tanto) mas, daqui, não esperem frivolidades estivais a condizer com a margarita gelada. Melody Mountain é uma pequena preciosidade onde as canções são despidas de absolutamente tudo que não o essencial e, faixa a faixa, os milagres se sucedem:



"It's a Long Way To The Top" (dos AC/DC), apenas cravo, orgão e voz, e "Crazy, Crazy Nights" (Kiss), voz e electrocardiografia electrónica, passariam bem por Linda e Richard Thompson, "Condition Of The Heart" (Prince) é um "lied" em renda de Flandres, "Don't Think Twice" (Dylan) desfila por uma passerelle entre sepulcros, "Fotheringay" (Sandy Denny) é Nico "lost in space", "Love Will Tear Us Apart" (Joy Division) faria o próprio Ian Curtis desfazer-se em pranto e "Hallelujah" (Leonard Cohen) acede, finalmente, à condição de salmo a que sempre aspirou. Scott Walker ("It's Raining Today"), Matt Burt ("These Days") e Depeche Mode ("Enjoy The Silence") fecham um círculo de incondicional rendição. (2006)