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14 July 2025

Smiley Smile (na íntegra)

(sequência daqui) Procuravam reconquistar relevância na contracultura, e por um breve momento, conseguiram. Mike Love retomou o comando criativo. Brian retornou, mas apagado. Os anos 80 transformaram-nos numa caricatura: hinos de praia, patriotismo vago, casacos de marinheiro. Era a era Reagan. E eles pareciam a banda da alvorada neoliberal. E, no entanto, o culto nunca desaparecera. Em 2012, com membros em estados diversos de conservação — do perturbado ao falecido —, os Beach Boys celebraram 50 anos de carreira. O feito bastou para os colocar ao lado dos Rolling Stones no panteão jurássico do rock. E justificou, ao menos simbolicamente, as mais de 30 compilações lançadas acerca deles. Algumas são apenas reflexos automáticos da indústria. Mas outras são joias reveladoras. The Pet Sounds Sessions (1997) abriu as cortinas do seu maior disco. The Smile Sessions (2011) deu forma à alucinação interrompida. E Made in California (2013), com 6 discos, 174 faixas (60 inéditas), foi mais uma tentativa de capturar o infinito. Os produtores disseram que poderiam ter incluído 300 faixas. Mas Made in California deixaria claro: o caminho traçado por Brian Wilson — de sofisticação pop que recusa a grandiloquência sinfónica — ainda é singular. Smile e Surf’s Up são os dois polos dessa odisseia: um sonha a América através da fantasia; o outro, encara-a pelo lado do desencanto. E, entre ambos, esconde-se o verdadeiro legado dos Beach Boys — não a banda sonora para dias banhados de sol, mas o espelho partido da América.

22 December 2022

Willie Nelson & Merle Haggard - "Pancho and Lefty"

(sequência daqui) Esta última regra surge a propósito de "Pancho And Lefty", de Willie Nelson e Merle Haggard, na qual Dylan encontra um ponto de apoio para se lançar numa análise de classes da Revolução Mexicana. Não é caso único: a propósito de "There Stands The Glass", de Webb Pierce, desenterra a história de Nuta Kotlyarenko – nome artístico, Nudie Cohn, judeu ucraniano fugido aos pogroms da Rússia czarista – convertido em costureiro de vedetas country, 4 presidentes americanos e dois papas (e Dylan pega no pretexto para falar de si enquanto recorda Kotlyarenko: “Como acontece com muitos que se reinventam, os detalhes biográficos, por vezes, são nebulosos...”), e "Blue Suede Shoes", por Carl Perkins, parece-lhe inteiramente apropriada para se debruçar sobre Felix Edmundovich Dzerzhinsky, aka Felix de Aço, fiel comparsa de Lenine e Estaline e dirigente da Cheka, primeira organização da polícia política sovética: “Durante o Terror Vermelho, no início da Guerra Civil Russa de 1918, Lenine perguntou-lhe por quantas execuções era a Cheka responsável. Dzerzhinsky sugeriu que se contasse o número de sapatos e se dividisse por dois”

Carl Perkins - "Blue Suede Shoes"
 
Quanto a própria matéria das canções, Dylan tem opiniões muito suas acerca dos diversos casos sobre que escreve: “Os Grateful Dead são essencialmente uma ‘dance band’. Têm mais em comum com Artie Shaw e o bebop do que com os Byrds ou os Stones”; “O "bluegrass" é o outro lado do heavy metal. Ambos são formas musicais enraizadas na tradição que, tanto visual como auditivamente, não mudaram durante décadas”; “A country music vai à igreja ao domingo porque passou a noite de sábado à facada, num beco, e a tentar convencer a miúda do bar a levantar a saia até à cintura”; “Os discos de soul, hillbilly, blues, calypso, cajun, polka, salsa e outras formas indígenas de música contém uma sabedoria que as classes altas apenas adquirem na academia”; “Um 'serial killer' poderia cantar esta canção (‘You Don’t Know Me’, de Eddy Arnold). Os 'serial killers' têm um sentido estranhamente formal da linguagem que os leva a falar do sexo como a arte de fazer amor”. (segue para aqui)

06 December 2022

 
(sequência daqui) Quando, porém, o assunto se desvia para a esfera musical propriamente dita, há que encarar as coisas com mil outros cuidados. Voltando a Renegades, Bruce confessa: “Comecei a tocar guitarra em 1964 e passei o secundário a tocar, Tínhamos os Rolling Stones e os Beatles mas, logo a seguir, também apareceram o Sam & Dave e a Motown, e aprendemos a escrever com os grandes compositores da Motown”. Obama, a propósito, observa: “Os negros são rebaixados, discriminados, porém, a cultura está contantemente a apropriar-se, a regurgitar e a processar o estilo que advém de se ser um forasteiro e de saber o que é ser infeliz, ter visto serem-lhe inflingidas aquelas cicatrizes, ter de viver do ar e fazer das tripas coração. E o rock’n’roll faz parte desse processo”. Muito correctamente, Springsteen acrescenta: “Para falar sobre raça, é preciso, em certa medida, desconstruir o mito da mistura de culturas que, na sua essência, nunca foi uma realidade. Admitir que uma grande parte da nossa história se baseou na pilhagem, na violência, e tendo por alvo as pessoas de cor. Envergonharmo-nos da nossa culpa colectiva. Teríamos de reconhecer a nossa cumplicidade diária e reconhecer que estamos ligados à história do racismo”. (segue para aqui)

Frank Wilson

12 November 2022

 
(sequência daqui) Na altura, Lou Reed preparava-se para, após as proverbiais bandas de liceu e de faculdade (na Syracuse University), abandonar a Pickwick Records – uma editora manhosa de "covers" de êxitos do momento na qual trabalhava desde Setembro de 1964 – e desejava assegurar-se de que aquilo que gravara na bobina, enviada para a casa dos pais onde ainda vivia, era propriedade intelectual sua. Na autobiografia (escrita a meias com Victor Bockris), What’s Welsh For Zen,  John Cale – “that starving viola player from Wales”, como Reed lhe chamava – conta que Lou lhe mostrou algumas das que viriam a ser futuras canções dos Velvet Underground “como se fossem canções folk”. Voltavam a ser, finalmente, escutadas em 2017, sempre identificadas pela voz de Lou que anuncia “Words and music by Lou Reed”. Na verdade, o espectro que paira sobre várias destas faixas é o de Bob Dylan. Se, desde o início, Reed sempre vomitara ácido sobre a maioria dos seus contemporâneos – Frank Zappa era “provavelmente, a pessoa menos talentosa que alguma vez conhecera, um académico pretensioso incapaz de tocar seja o que for”; os Doors eram “dolorosamente estúpidos e pretensiosos e, quando desejavam ‘fazer arte’, eram ainda piores que o rock’n’roll mais estúpido”; os Who, “absolutamente desprovidos de talento e filosoficamente aborrecidos”; e aos Beatles - embora viesse a mudar de opinião – dirigiria o mimo “Nunca gostei dos Beatles, nunca passaram de lixo. Não estou a ser sarcástico, estou só a ser honesto. Acho que os britânicos nunca deveriam dedicar-se ao rock’n’roll. Não tenho respeito nenhum por eles. Safam-se os Stones e uma ou outra coisa de Ray Davies mas a verdade é que nunca levei o rock’n’roll britânico a sério. E continuo a não levar” –, em relação a Dylan, tratava-se de um despique entre iguais.
 
 
Como ele dizia, em 1989, à “Rolling Stone, “Para além de Dylan, não existe muito mais. Compro sempre os álbuns dele. Ele sabe como trabalhar uma frase. Todo o resto não passa de pop sobre a qual não tenho nenhum interesse. Mas o Dylan surpreende-me sempre”. Á “Uncut”, Laurie Anderson confirma tudo: “Dylan é a resposta para a maioria das coisas em Words & Music, May 1965. A harmónica, o gemido vocal, a tonalidade. A empatia com o ‘underdog’, não a voz do heroico poeta autor de canções. De vez em quando, falávamos sobre Dylan e o Lou tinha um grande respeito por ele. Uma vez, brigaram acerca de saber qual dos dois era verdadeiramente Rimbaud. Mais do que serem cantores, eram essencialmente, escritores, autores de canções letrados, não apenas fulanos que alinhavam umas rimas. A coisa mais importante em que reparei no arquivo dele é que andava permanentemente à procura de formas de escrita diferentes. Depois do fim dos Velvet Underground, pensou dedicar-se apenas à poesia. Escreveu um livro sobre Tai Chi na mesma linguagem que utilizava nas canções”. (segue para aqui)

26 October 2022


(sequência daqui) É, praticamente, essa mesma extensão de vida que Songs of Innocence and Experience 1965 – 1995 cobre: os 30 anos dos dois primeiros actos da carreira de Marianne Evelyn Faithful, baronesa Erisso Von Sacher-Masoch. No primeiro, gravou 6 álbuns de refinado ecletismo pop/folk/ country – Bacharach, Beatles, Rolling Stones, Phil Ochs, Dylan, Tom Paxton, Bert Jansch, Ewan MacColl, Serge Gainsbourg, Donovan, Tim Hardin, Waylon Jennings – que, no entanto, nunca a satisfizeram: “A minha ‘primeira voz’ não era a verdadeira, tinha uma voz muito melhor do que isso. Era mezzo-soprano, tinha tido uma educação musical clássica e, quando comecei a gravar, não me deixaram usá-la. O que se ouvia era falso”. Seria apenas após a descida "junkie" aos infernos que, com o avassalador Broken English (1979) – “Foi muito difícil mas fi-lo. Era o resultado de tanta frustração, ressentimento e fúria que tinha de ser mesmo assim. Na altura, estava convencida de que iria ser a última coisa que faria” –, as comportas se abririam e Marianne, a partir de Strange Weather (1987) e A Secret Life (1995) caminharia, de mãos dadas, com a nata pop/rock. Com preciosos 22 inéditos em edição vinil e 9 no duplo CD, Songs of Innocence and Experience detem-se naquele propósito que, há 10 anos, Marianne descrevia ao “Guardian”: “Nestes últimos anos, o meu objectivo tem sido o de encontrar alguma harmonia entre mim e Marianne Faithfull. Era ela que utilizava drogas e bebia, era ela dentro da minha cabeça. Ela, a Fabulosa Besta, como eu lhe chamo. Não posso dar-lhe ouvidos, tenho de ter sempre muito cuidado”.

29 November 2021

DO JUKEBOX
 
 
No universo paralelo do cinema de Wes Anderson, há (entre várias outras) duas particularidades que o definem: a obsessão pela simetria visual e uma concepção da banda sonora já designada como “crate-digger soundtrack”. Isto é, composta a partir do tipo de música e canções que tendem a ser apenas descobertas nos caixotes de feira-da-ladra e lojas de segunda mão, ponto de vista próximo mas não exactamente idêntico ao que costuma orientar Quentin Tarantino na mesma missão: se este tende a propor a redenção do mais obscuro e (muitas vezes, injustamente) desclassificado “kitsch”, Anderson, com a indispensável colaboração do farejador Randall Poster, valoriza o “vintage” de fina casta. Em Hotel Chevalier, prequela de The Darjeeling Limited (2007), "Where Do You Go To (My Lovely)?", do meteórico Peter Sarstedt, ocupava todo o espaço sonoro e, no próprio Darjeeling, reapareceria por diversas vezes, na companhia de canções dos Kinks, Rolling Stones e Joe Dassin. Mas, em toda a restante filmografia, lado a lado com peças do reportório clássico e música original de Alexandre Desplat e Mark Mothersbaugh (Devo), é um desfile contínuo de memórias dos Proclaimers, Ramones, Velvet Underground, Elliot Smith, Zombies, Sigur Rós, The Creation, Chad & Jeremy, Cat Stevens, The Who, Yves Montand, John Lennon, Faces, West Coast Pop Art Experimental Band, Nico, Dylan, Clash, Devo, Stooges, Scott Walker, Beach Boys, Charles Aznavour, e até de versões de David Bowie por Seu Jorge.(daqui; segue para aqui)
 
Jarvis Cocker - "Aline" (real. Wes Anderson)

14 April 2021


(sequência daqui) O hip hop, como os blues, pode já não ser exclusivamente negro e Django Reinhardt, guitarrista cigano franco-belga, pode ter tocado com Coleman Hawkins e Duke Ellington, mas o ponto de vista não se deixa abalar: “É verdade. Mas eu desejaria que os Rolling Stones, os Led Zeppelin e o Paul Simon (o David Byrne é um caso um pouco diferente), em vez de se colocarem tão à defesa quando se lhes aponta o facto de se terem obviamente alimentado das músicas negras, aproveitassem a oportunidade de terem tantos relacionamentos multi-raciais – e, sem dúvida, existe esse desejo espontâneo de se misturarem e tocarem uns com os outros – para abordar o problema. Imagine se o Keith Richards tivesse dito ‘Tudo o que faço baseia-se na experiência de pessoas negras que eu nunca serei capaz de compreender’... Porque era bastante natural que os blues e o rhythm’n’blues tivessem uma ressonância na vida de miúdos ingleses pobres da altura. Mas teria sido muito diferente se ele acrescentasse ‘Vou dedicar a minha voz, o meu dinheiro, a minha energia e a minha projecção pública à justiça racial’. Vivemos num mundo que favorece as pessoas brancas. Tem sido assim há centenas de anos. Isto não significa que o racismo seja culpa minha. Mas disponho de uma excelente oportunidade para falar sobre o meu papel relativamente a ele. Recordo-me de que, quando o Bruce Lee veio até à Califórnia para dar aulas de kung fu a toda a gente, negros incluídos, houve uma grande resistência da comunidade local acerca de quem poderia ser autorizado a participar. Importante é termos consciência de que as pessoas de côr neste país não estão dispostas a continuar a viver desta forma”. (segue para aqui)

04 December 2019

O MÉTODO


Pense-se o que se pensar acerca da actividade dos "bootleggers" – desde os que, no início do século passado, contribuiram de modo decisivo para a documentação da história do jazz até todos os outros que, durante as décadas de 60, 70, 80 e 90, foram desocultando uma fabulosa discografia paralela de milhares de músicos e bandas –, há que reparar como, ao longo dos anos, muitos "bootlegs" vieram a ser “oficializados” (exemplo inevitável: as Basement Tapes, de Bob Dylan, e a subsequente “Bootleg Series”) e até encorajados por notórias “vítimas” da pirataria, caso de Springsteen ou dos Grateful Dead. A história está eloquentemente relatada em Bootleg!: The Rise and Fall of the Secret Recording Industry, de Clinton Heylin (2004), mas ninguém estaria à espera que, em 2019, fosse indispensável acrescentar-lhe um novo capítulo. A verdade é que também poucos seriam capazes de prever que esta seria a data em que, pela primeira vez desde há 33 anos, as vendas de registos sonoros em vinil ultrapassariam os CD e – mais dificilmente imaginável – as vetustas cassetes, se preparam para igualar números de há 15 anos. 80% da receita da indústria discográfica deve-se ainda, evidentemente, ao "streaming", mas os sinais de recuperação dos outros suportes são inegáveis.


Altura ideal, pois, para acrescentar ao catálogo de The National um novo título, ao vivo, em cassete tripla, e, simultaneamente, homenagear o lendário "bootlegger" Mike "The Mike" Millard: se tudo tiver corrido de acordo com o plano, na passada sexta-feira, por ocasião da Record Store Black Friday, terá sido publicado The National: Juicy Sonic Magic, Live in Berkeley, September 24-25, 2018, antecedido de uma semana por Juicy Sonic Magic: The Mike Millard Method, um documentário realizado por David DuBois), no qual se explica o ardiloso “método” – entrar nos recintos dos concertos convenientemente sentado numa cadeira de rodas (de que não tinha necessidade), onde dissimulava um pesado gravador de cassetes Nakamichi 550 e os microfones AKG 451E por meio dos quais registou com enorme qualidade sonora praticamente todos os concertos, em particular dos Rolling Stones, Led Zeppelin e Pink Floyd, que entre 1974 e 1980, tiveram lugar no Los Angeles Forum e noutras salas do Sul da Califórnia. Sem cadeira de rodas mas com o mesmo material, coube ao produtor Erik Flannigan, replicar, agora, o “método” nos dois concertos da banda de Matt Berninger, no Greek Theatre. Com a tal “juicy sonic magic”, espera-se.

14 September 2019

É o fim de uma era!!!... As crónicas do 4º visconde de Macieira, sacerdote secular da prelatura do Opus Dei, vice-presidente da Confederação Nacional das Associações de Família, Cerimoniário Eclesiástico da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém e Capelão Magistral da Assembleia Portuguesa da Ordem Soberana Militar de Malta que tanta sapiência e divina luz derramaram, passaram a ser "de acesso exclusivo a assinantes". Ora, como contribuir com um cêntimo que seja para o pasquim direitolas online está fora de questão, receio bem que as forças do Demo tenham saído vitoriosas de mais um combate...

26 February 2019

BARROCO


A fórmula cunhada por Jerry Goldsmith – “what is ethnic is what Hollywood has made ethnic” – que, durante décadas, autorizou os compositores de bandas sonoras a puxarem da malinha de estereótipos prontos-a-usar sempre que se tratava de caracterizar musicalmente o “índio”, o “selvagem”, o “oriental”, o “africano”, foi também, naturalmente, aplicada às músicas “de época”: “medieval”, “renascentista” ou “barroco” seriam como cada autor de "film music" entendesse que deveriam ser, por mais ténue (ou nenhuma) que fosse a relação com as autênticas músicas da Idade Média, do Renascimento ou dos séculos XVII/XVIII. Um alaúde ou um cravo bastavam para criar a adequada atmosfera “antiga” e ninguém se deixaria estorvar por escrúpulos de rigor musicológico. Algo não muito diferente do que aconteceu por meados dos anos 60 do século passado, quando a pop, naquela era imediatamente antes, durante e logo após o psicadelismo, vivia ávida de temperos exóticos e pigmentos invulgares. 


O solo de cravo (na realidade, um piano com a velocidade de gravação modificada) de George Martin, em "In My Life", o quarteto de cordas de "Yesterday" (ambas de 1965), o clavicórdio e solo de trompa de "For No One" e o octeto de cordas de "Eleanor Rigby" (as duas de Revolver, 1966), dos Beatles, terão estado na origem do que viria a ser – desajeitadamente – designado por “Baroque Pop”. Não esquecer, no entanto, os Rolling Stones – "As Tears Go By" (1965, com orquestração de Mike Leander), "Play with Fire" e "Lady Jane" (1965 e 1966, com o cravo de Jack Nitzsche nas duas e o dulcimer de Brian Jones na segunda) –, o arranjo tudo menos barroco mas orquestral de "Walk Away Renee" (1966), dos Left Banke, e um robusto destacamento de obscuros outros que, agora, a Cherry Red, na "boxset" de 3 CD Come Join My Orchestra: The British Baroque Pop Sound 1967-73, ressuscita. Estava-se, então, razoavelmente aquém dos pesados maneirismos que iriam cristalizar no "prog-rock-clássico-sinfónico" (essa patética ambição tudo menos rock’n’roll de legitimação pela cultura "highbrow") mas, embora o conforto de salão tendesse a ser o cenário desejado, nestas cerca de 80 canções em que uma flauta pastoril ou um violoncelo melancólico eram suficientes para lhe atribuir a certificação “barroca” residia ainda um saudável desejo de experimentação "naïve". Ou, então, era apenas como Bob Stanley dizia: “Just add a harpsichord, a pot of tea, a ginger cat on the windowsill, and you've got the picture”.

18 December 2018

DIZER O CONTRÁRIO 


Dando como exemplo a "Modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República" – na qual, em 1729, Jonathan Swift, "nunca quebrando a absoluta gravidade da exposição”, propunha que os irlandeses comessem os próprios filhos –, Fernando Pessoa, dois séculos mais tarde, explicava que “Por ironia entende-se, não o dizer piadas (...), mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz”. Não será levar longe de mais essa ideia se a aplicarmos aquilo que, desde 1980, os eslovenos Laibach praticam: encarnando hiperbolicamente todos os modelos e estereótipos estéticos dos vários totalitarismos (do “romantismo de aço” de Goebbels, ao realismo-socialista de Zhdanov ou à variante "über-kitsch" maoísta) e, por meio deles, reconfigurando o vocabulário pop – em reportório original e álbuns de versões dos Beatles (Let It Be, 1988), Rolling Stones (Sympathy For The Devil, 1990), Bach (Laibachkunstderfuge, 2008, sobre a Arte da Fuga), hinos nacionais (Volk, 2006), e diversos, de Holst aos Europe, Status Quo ou Pink Floyd (NATO, 1994) –, o que daí resulta não são caricaturas a traço grosso mas um feroz exacerbamento identitário que, como diria Pessoa, apenas por ser tão excessivo não pode ser levado inteiramente a sério. 



Isso não os impediria, no entanto, de, a 15 de Agosto de 2015, se fazerem convidados das cerimónias de comemoração do 70º aniversário da vitória da Coreia do Norte sobre o Japão. Uma sobreposição tão perfeita quanto problemática: encenar a representação do poder desmedido em pleno universo ultra-orwelliano de delirante ficção política, ampliada ainda pelo facto de o programa ser essencialmente constituido por temas de The Sound of Music. Momento histórico, pois, no qual o bombástico perfil marcial-industrial-neo-clássico dos eslovenos desvenda um arrepiante avesso de "Sixteen Going on Seventeen" e "My Favourite Things" e a sinistra voz gutural de Milan Fras, dialogando com a candura de coros infantis, reveste tudo de uma muito apropriada sordidez obscenamente gótica. Embora presente no álbum, no concerto de Pyongyang, não ousaram incluir a paráfrase "How Do We Solve a Problem Like Korea?" mas, de regresso da missão diplomática Leste-Oeste, confessaram que a cerveja e a canábis da RPDC são óptimas.

05 June 2018

DEFESA DE TESE


Quando, muito relutantemente, no Outono de 1991, Liz Phair deixou, por fim, convencer-se a entrar num estúdio, a primeira canção que gravou foi "Chopsticks" na qual, sobre o acompanhamento dos célebres "Martelinhos", cantava: “I met him at a party and he told me how to drive him home, he said he liked to do it backwards, I said, that's just fine with me, that way we can fuck and watch TV”. Acabaria por surgir apenas como faixa de abertura no segundo album de Phair, Whip-Smart (1994), sendo esse lugar ocupado no disco de estreia do ano anterior, Exile In Guyville, por "6'1"" (“And I kept standing six-feet-one, instead of five-feet-two, and I loved my life and I hated you”) – irmã de armas feminista de "50ft Queenie" (“50ft queenie, force ten hurricane, biggest woman, I could have ten sons”), de PJ Harvey, incluída em Rid Of Me, dado à luz mês e meio antes e, como Guyville, exibindo na capa, uma fotografia a preto e branco e em tronco (quase) nu da sua autora. Faltavam ainda mais de duas décadas para a detonação do #MeToo mas, na privadíssima colecção de canções (Girly Sound) que Liz Phair nunca sonhara libertar das cassetes que registara domesticamente num gravador de 4 pistas, fermentava algo cuja ressonância seria de bem maior alcance que a sublevação "riot grrrl". 



O conceito de Guyville era tão simples quanto certeiro: “Como se estivesse a defender uma tese, peguei em Exile On Main St., dos Rolling Stones, e, praticamente canção a canção, reescrevi-o sob um ponto de vista feminino”. Em 18 faixas – tantas quantas as do álbum duplo dos Stones – vertidas num modo "faux-naïf", algures entre os Feelies e Lou Reed, Liz, sem cerimónias, demolia todos os estereótipos da feminilidade bem comportada (“I jump when you circle the cherry, I sing like a good canary, I come when called, I come, that's all “), invertia-os (“Every time I see your face, I get all wet between my legs, (…) I want to fuck you like a dog, I'll take you home and make you like it”), e assumia o comando (“It makes me want to rough you up so badly, makes me want to roll you up in plastic, toss you up and pump you full of lead”). 25 anos mais tarde, acrescentado de dois CD extra com as “Girly Sound Tapes” (“Têm coisas humilhantemente más...”, arrepia-se Phair), Girly Sound To Guyville mantém intacto o potencial explosivo. (ver aqui)

26 April 2018

DISCO, PUNK E OS SONS DO MUNDO 




“Cada pessoa que ali entrava era uma estrela”. Na verdade, isto não significava que, qualquer um que transpusesse a porta do Studio 54 se transformava, intantaneamente, num astro cintilante mas sim que a ultra-restritiva política de acesso ao clube da West 54th Street, entre a 8ª Avenida e a Broadway, apenas autorizava a admissão à "beautiful people" e a um número controlado de acompanhantes e espécimes decorativos vários que não lhe beliscassem a imagem de Jardim do Éden ou, segundo outros, de Sodoma e Gomorra contemporâneas. Como alguém, às tantas, no documentário de Matt Tyrnauer, Studio 54, explica, “Mick Jagger e Keith Richards podiam entrar à vontade. Mas os outros Rolling Stones teriam de pagar”. Fundado em 1977 por Ian Schrager e Steve Rubell, seria, simultaneamente, um símbolo da idade de ouro do disco sound, um local – luxuoso e reservadíssimo – de celebração delirante de todas as tribos, géneros e fetiches, e um teatral marco histórico do início do culto das celebridades-durante-quinze-minutos. Acabaria por ser encerrado em 1980, após a condenação de Schrager e Rubell a três anos e meio de prisão (devido a evasão fiscal) de que só se livrariam por meio de uma sucessão de golpes baixos, traições e delações muito pouco edificantes.


Na programação da secção musical do “IndieLisboa” deste ano há, pelo menos, outros dois documentários francamente recomendáveis: Here To Be Heard: The Story Of The Slits, de William E. Badgley, e Ryuichi Sakamoto: Coda, de Stephen Nomura Schible. Em Here To Be Heard, apresenta-se a trajectória da banda – no princípio, integralmente feminina – que “fazia os Sex Pistols parecerem meninos de coro”. Tomando por guião o "scrapbook" onde Tessa Pollitt (a baixista que se juntou às Slits duas semanas antes do primeiro concerto com os Clash, Buzzcocks e Subway Sect, e permaneceu até ao fim) coleccionou todos os recortes de imprensa, abre também espaço para os testemunhos das outras Slits sobreviventes, Palmolive e Viv Albertine – a maravilhosamente alucinada Ari Up morreu em 2010 –, posteriores elementos do grupo, e fãs vários: das origens no casulo do Roxy, de Covent Garden, numa Londres ainda dominada por “homens de chapéu de coco e fatos às riscas”, aos manifestos (“O derradeiro teste de criatividade e talento é o modo através do qual um artista consegue transmitir ideias originais transcendendo os limites técnicos”) e à concretização de um feminismo punk selvagem e anárquico, feito de ruído, reggae e dub, batidas tribais e transviadas memórias soul. Cruzar-se-iam com o Pop Group e Neneh Cherry, aproximar-se-iam de um afro-jazz imaginário, e, nessa magnética e imperfeitíssima colisão de géneros e estéticas, virariam do avesso a música da época de um modo que só, talvez, as Raincoats terão igualado. 


Nas primeiras imagens de Coda, Ryuichi Sakamoto debruça-se sobre um piano que sobreviveu ao sismo e tsunami de 2011: “Senti como se estivesse a tocar no cadáver de um piano que se tinha afogado”. Depois, visita a zona radioactivamente contaminada na central nuclear de Fukushima, mostra imagens de uma enorme manifestação contra a reactivação das centrais (“Nós, japoneses, temos estado demasiado silenciosos desde há 40 anos”) e convida-nos para um concerto num local de evacuação temporária durante a catástrofe, onde escutamos "Forbidden Colours", o tema que compôs para Merry Christmas, Mr. Lawrence, de Nagisa Oshima. Quase friamente, recorda, então que, em 2014, lhe foi diagnosticado um cancro na garganta e que, embora, clinicamente curado, “não sei o tempo que me resta; mas sei que quero continuar a criar música”. A câmara segue-o entre Tokyo, Nova Iorque, o Ártico e o lago Turkana, no Quénia, durante o processo que culminaria na publicação de async (2017). A música que ele deseja poder continuar a compor – e que esse álbum nos permitiu ouvir – deverá “incorporar os sons ‘naturais’ na música de um modo simultaneamente caótico e unificado”. E ele recolhe-os caminhando pela floresta, registando as gotas de chuva que caem sobre uma clarabóia ou, no quintal, em recipientes de diferentes dimensões, pesca-os no fundo de glaciares ou numa ilha africana. O modelo (coisa bem distinta do que ele próprio fez com Oshima, com Bertollucci, em O Último Imperador e Um Chá no Deserto, ou com Iñarritu, em O Renascido, de que vemos excertos) encontra-o em Solaris, de Tarkovsky. No estúdio doméstico, assistimos aos momentos de experimentação e condensação sonora. Qual parábola, explica-nos que os diversos elementos ‘naturais’ do seu Steinway foram tecnologicamente trabalhados para dar origem a um piano e como o outro sobrevivente do tsunami parece ter revertido esse processo. Antes, numa evocação do artista enquanto jovem membro da Yellow Magic Orchestra, há mais de 30 anos, já afirmara coisa idêntica: “Não digo que devamos regressar à natureza mas interessa-me a erosão da tecnologia, os seus erros, falhas e ruídos”.