(sequência daqui) E, elas próprias, com o fundamental contributo de Adrian McNally (teclista, percussionista, compositor e arranjador), dividiram-se por inúmeros projectos paralelos: em torno das canções de Robert Wyatt e de Molly Drake, com a Brighouse and Rastrick Brass Band, em Songs From The Shipyards e Lines. Com os soberbos Last (2011) e Mount The Air (2015) dir-se-ia que o programa confessado por McNally – “Exigimos reinventar-nos permanentemente de modo a tornarmo-nos ‘bandas diferentes’, cada uma de acordo com cada projecto” – se consumara. Sete anos depois, Sorrows Away, pelo contrário, parece querer dar razão ao que Shirley Collins, em 2020, me confessava: “Elas fazem música lindíssima mas parecem-me demasiado repetitivas, prefiro um pouco mais de substância”. Em "My Singing Bird", "Waters Of Tyne" e "The Bay Of Fundy" toda a substância está lá, intacta. Mas o resto são tão só imponderabilidades cinemáticas, tapetes vocais de veludo, orquestrações mais leves que o ar. Apenas “música lindíssima”.
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27 November 2022
02 December 2015
BRITISH OCEAN POWER
As "brass bands" e, em particular, as "colliery brass bands" – bandas filarmónicas de trabalhadores das minas de carvão – são das mais vibrantes manifestações culturais das comunidades populares e operárias britânicas. Surgiram no início do século XIX – a mais antiga e ainda em actividade, Stalybridge Old Band, dos subúrbios de Manchester, foi fundada em 1809 – e desempenharam sempre o papel de orgulhosas guardiãs das identidades locais. Exactamente há 30 anos, após doze meses de greve geral contra o programa de Margaret Thatcher para o encerramento de mais de centena e meia de minas, os mineiros de Grimethorpe (a aldeia mais pobre do Reino Unido), derrotados, reuniram-se no centro da povoação e marcharam de regresso ao trabalho, significativamente, atrás da Grimethorpe Colliery Band, a mais celebrada "brass band" britânica que viria a figurar no filme Brassed Off (1996), justamente acerca da dramática desactivação do pit de Grimethorpe. Se, em The Unthanks with Brighouse and Rastrick Brass Band (2012), o grupo das irmãs de Northumbria passara já o seu reportório pelo crivo dos aclamados sopros do West Yorkshire, agora, foi a vez de os vizinhos de Cumbria, British Sea Power, fazerem o mesmo com a Foden’s Band (de Cheshire) e a londrina Redbridge Brass Band.
Nada de verdadeiramente extraordinário se tivermos em conta que os autores de The Machineries Of Joy e Valhalla Dancehall ostentam no currículo actuações na Grande Muralha da China, no observatório de Jodrell Bank ou a bordo do Cutty Sark (o último veleiro da rota do chá e património nacional da genuína força naval britânica) numa noite particularmente tempestuosa de 2013 em que, durante a projecção do documentário From The Sea To The Land Beyond, interpretaram ao vivo a banda sonora que, para ele compuseram. Sea Of Brass (em CD de estúdio ou "box-set" de 3CD, incluindo gravações ao vivo, e DVD) é, então, literalmente, a ampliação da banda para um autêntico British Ocean Power, um exercício milagrosamente feliz de "over the topness" sem remorsos, no qual os arranjos de Peter Wraight não ambicionam respeitabilidade erudita mas sim um registo festivo e celebratório, quem sabe, muito apropriadamente inspirado pela Water Music, de Haendel.
16 January 2013
SALTOS DE PRANCHA
O Experimentar - 2: Sagrado e Profano
Para quem leva religiosamente a sério as proverbiais listas e balanços de fim de ano (que fique assente, de uma vez por todas: nunca são organizadas de ânimo leve mas, se em vez de terem ficado definitivamente estabelecidas numa sexta-feira à tarde, sob temperatura de 14ºC, isso tivesse acontecido noutro dia e a outras horas e temperatura, é assaz provável que não fossem exactamente iguais), convém dizer já que, se 2: Sagrado e Profano não constou da que, no que à música portuguesa diz respeito, poderia, facilmente, tê-lo sido. Tal como – e uma vez que de deambulações pelos trilhos das músicas tradicionais se trata – os volumes 2 e 3 das “diversões” das Unthanks, The Unthanks With Brighouse And Rastrick Brass Band e Songs From The Shipyards (desgraçadamente não distribuídos por cá), não precisariam de qualquer tipo de lobbying para assegurar lugar na lista internacional. Não porque qualquer deles necessitasse, verdadeiramente, de tal legitimação.
2: Sagrado e Profano, em particular, segunda encarnação do que, antes, se designava por O Experimentar Na M'Incomoda, é uma magnífica descendência do que a Banda do Casaco, Chuchurumel, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Campanula Herminii e, muito em especial, a Sétima Legião de O Sexto Sentido (para referências exteriores, procurar em Hedningarna, Transglobal Underground ou Loop Guru), foram inventando tomando a tradição popular como potente prancha de salto. No caso, a da música dos Açores, partindo de matéria-prima sonora previamente recolhida e, entre Copenhaga, Lisboa e o Faial, transfigurada por Pedro Lucas e cúmplices (Carlos Medeiros, Zeca Medeiros, Pedro Gaspar, Miguel Machete, Nicolaj Høj) em algo de, simultaneamente, arcaico e contemporâneo, local e fulgurantemente global.
01 February 2012
MILAGRES PROFANOS
The Unthanks - The Songs Of Robert Wyatt And Antony & The Johnsons/Diversions Vol. 1 (Live From The Union Chapel, London)
Um pouco à maneira do Paradiso, de Amsterdão, a Union Chapel de Islington, no norte de Londres, é um lugar octogonal de milagres profanos. Não apenas por acolher, regularmente, concertos e outras manifestações artísticas mas porque, muitos deles acabam por adquirir significado marcadamente especial na obra dos seus autores. Para dar um único exemplo, pode recordar-se o concerto irrepetível de Björk, com o Brodsky Quartet, de 1999 (publicado em CD em 2000), momento de realinhamento dos planetas no mapa estético da islandesa. Sobre as Unthanks, talvez não seja possível afirmar exactamente o mesmo mas não será menos pertinente reparar como Diversions Vol. 1 constitui o tipo de gesto lateral e pouco previsível na trajectória de um grupo que (embora nunca purista e ortodoxo) tendia a deixar-se arrumar na gaveta folk. O mais interessante é mesmo a indicação de se tratar do Vol.1. Porque, como anuncia Adrian McNally – teclista, percussionista e Mr. Rachel Unthank –, este é só o capítulo inicial no registo de outras actividades extracurriculares que já passaram pela colaboração com a Brighouse and Rastrick Brass Band (gente importante na vetusta tradição das bandas de mineiros britânicas) e que, a avaliar por confissões deixadas cair aqui e ali, bem poderiam chegar a conspirações com Sufjan Stevens (Illinoise: "all-time favourite album" de Rachel) ou com The Voice Squad (trio vocal masculino de Dublin, altamente colocado no panteão Unthank).
Não é necessário especular demasiado: igualmente incensados (e já anteriormente interpretados) pela banda da Northumbria, Robert Wyatt e Antony Hegarty são, agora, objecto do "make over"-Unthanks e é por aí mesmo que se deve falar de milagre. Wyatt já o reconheceu (“Fomos abençoados por anjos. Se tivesse de levar para a proverbial ilha deserta uma síntese do que, durante anos, eu e a Alfie fizemos, não seria nenhum dos nossos discos mas sim as cristalinas interpretações das Unthanks”) mas quem lhes deverá estar verdadeiramente grato é Antony: conseguir adivinhar que, sob a espessa camada de melaço sentimental e para além do trémulo balido vocal dos álbuns de Antony & The Johnsons, se ocultavam canções aproveitáveis e saber convertê-las em algo bem melhor do que isso é, sem dúvida, do domínio do sobrenatural. "Bird Gerhl", "You Are My Sister" e "For Today I Am A Boy", em particular, despidas até ao osso, envolvidas pelas luzes e sombras das vozes de Rachel e Becky, pelo impressionismo do piano de McNally e pelas cordas de Niopha Keegan e do quarteto adicional, demonstram uma vez mais que nem sempre são os autores os melhores intérpretes da sua obra.
Acerca de Robert Wyatt, não se pode, obviamente, dizer outro tanto. Cada uma das suas gravações é um baú de preciosidades raras pelo que ousar tocar-lhes e reinventá-las exige doses iguais de talento e descaramento. As Unthanks já haviam prestado provas, com louvor e mérito, em “Sea Song” (que, aqui, reaparece), mas, nas restantes oito, permitem-nos compreender integralmente os motivos da genuflexão de Wyatt: é impossível elevar o grau de violência e avassaladora elegância simultâneas com que silabam “You planted everlasting hatred in my heart” (de "Out Of The Blue’" ou suplantar a forma como transformam a perplexidade de "Free Will And Testament" (“Given free will but within certain limitations, I cannot will myself to limitless mutations, I cannot know what I would be if I were not me, I can only guess me”) em canção de embalo lunar e assombrada, para não falarmos da celebração de "Dondestan" (com "clog dancing" incluído) ou do quase milesdaviseano "Lullaby For Hamza". Venha o segundo volume.
(2012)
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