Interessa muito pouco saber se Twin Peaks: The Return foi o melhor filme de 2017 ou “apenas” uma série de televisão que fez explodir tudo aquilo que, até aqui, supúnhamos serem os traços definidores das séries de televisão. O que verdadeiramente importa é que nos obrigou, inevitavelmente, a reflectir sobre isso. E que, curiosamente, coincidiu com um ano em que, no universo audiovisual, a região demarcada dos videoclips, contrariando os repetidos rumores de “music videos are dead”, demonstrou precisamente o oposto: não teremos reentrado na Idade de Ouro dos Corbijn, Mark Romanek, Chris Cunningham e Jonathan Glazer mas, se a "old-school" – essencialmente sustentada pela exposição televisiva – foi definitivamente substituída pela presença no YouTube, Vimeo e demais plataformas, isso não impediu que, enquanto forma de expressão artística, o videoclip tenha continuado a ser uma vibrante área de experimentação na qual as fronteiras com as “curtas” cinematográficas se dissolvem.
Recentemente, Holly Herndon, Anna Meredith, Jesse Kanda (nos videos para Arca, FKA Twigs e Björk), PJ Harvey com Seamus Murphy ou as Pussy Riot na sua agit-propmetafórica, haviam já deixado claro que muito território havia ainda por explorar. No ano passado, porém, seria demasiada desatenção não ter reparado na extraordinária trilogia de clips de St. Vincent, para o álbum Masseduction ("New York", "Los Ageless" e "Pills"), realizados, respectivamente, por Alex Da Corte, Willo Perron e Philippa Price. Todos cromaticamente saturados e em registo exuberantemente surreal, constituem o exacto tipo de matéria que amplia desmedidamente o leque de sentidos das canções que lhes deram origem. Precisamente o mesmo que poderia dizer-se de "Don’t Go To Anacita" e "A Private Understanding", de Relatives In Descent, dos Protomartyr: se o primeiro, dirigido por Yoonha Park, é uma angustiante variação breugeliana sobre Stairway To Lenin (1990), de Zbigniew Rybczyński, em torno de uma ideia aterradora – “cada novo horror que enfrentamos é parte de um contínuo sem fim” –, o outro (um "lyric video" a encenar um solilóquio, realizado por Tony Wolski e Trevor Naud), com a preciosa participação do veterano actor Marty Smith, é uma exemplar ilustração de “this age of blasting trumpets, paradise for fools”.
03 January 2018
2017 - Videoclips
St. Vincent - "New York"
Protomartyr - "Don't Go To Anacita"
Michael Head & The Red Elastic Band - "Rumer"
Hurray For The Riff Raff - "Rican Beach"
Danish String Quartet - "Shine You No More"
Sopa de Pedra - "Cantiga de la Segada"
Protomartyr - "A Private Understanding"
Public Service Broadcasting - "They Gave Me A Lamp"
Se, numa lista de 10, escasseiam vagas para aquilo que, em ano de farta colheita musical, mais estimulou os tímpanos, 52 semanas são também intervalo de tempo verdadeiramente insuficiente para, uma a uma, se ir destapando tudo o que, no dilúvio da edição discográfica, merece não passar despercebido. O que transforma o início de cada novo ano numa espécie de coda do anterior na qual, por entre justificações mal amanhadas (ler as linhas acima) e actos de contrição perante a desatenção que conduziu a ignorar o que não devia ser ignorado, se procura remediar as falhas. Sejam, então, bem-vindos à coda 2017/2018, a abrir, justissimamente, com uma daquelas peças que, só por si, comprovariam a urgência de prolongamento do calendário gregoriano: Last Leaf, do Danish String Quartet.
Sem cair na armadilha dos intérpretes de formação clássica que, ao deixar-se tentar pela abordagem de idiomas populares, tendem a desvalorizar a própria identidade, Rune Tonsgaard Sørensen (violino, harmonium, piano, glockenspiel) Frederik Øland (violino), Asbjørn Nørgaard (viola de arco) e Fredrik Schøyen Sjölin (violoncelo) – reconhecidos como virtuosos exploradores das partituras de Bartók, Beethoven, Shostakovich, Brahms, Haydn, Mozart, Sibelius e Schnittke – propuseram-se, agora, investigar “a rica fauna das melodias folk nórdicas”. Recuando até "Dromte Mig en Drom" – a mais antiga canção secular escandinava presente na última folha do Codex Runicus (c. 1300) –, guiam-nos por 16 pontos de paragem, num fantástico périplo de dimensão equiparável (embora com as coordenadas distintivas de um quarteto de cordas clássico) ao que os Hedningarna de Kaksi! (1992) nos haviam oferecido.
A tradição musical popular é, igualmente, a matéria-prima das Sopa de Pedra, colectivo vocal feminino a capella, do Porto, e uma das mais recentes peças de um "puzzle" onde já se encontravam Cramol, Segue-me à Capela e Maria Monda (todas, aliás, reunidas em Novembro do ano passado no concerto “De Viva Voz”)
Cinco anos de gestação foram necessários para dar à luz Ao Longe Já Se Ouvia, belíssimo painel de temas maioritariamente do reportório tradicional da Beira-Baixa, Alentejo,Trás-os-Montes e Açores (acrescidos de dois de Amélia Muge e outro de José Afonso) em gloriosas polifonias corais.
O extraordinariamente intitulado Adiós Señor Pussycat constitui, enfim, o inesperado regresso de uma das lendas secretas da escrita de canções pop britânica: Michael Head (com a Red Elastic Band), ele dos Pale Fountains, Shack e The Strands, que o “New Musical Express” chegou a coroar como “our greatest songwriter”, mas a quem, uma particularmente infeliz combinação de azares e múltiplos vícios sempre impediu de se erguer acima do estatuto de culto.
Aparentemente, de novo com a cabeça fora de água, canções como "Queen Of All Saints", "Josephine", "What’s The Difference", "Wild Mountain Thyme", "Adiós Amigo" ou "Rumer", recuperam sem perdas aquele precioso e aromático "pot-pourri" de Byrds, Love e Nick Drake.
"As mulheres querem diamantes e eles querem uns grandes carros e whisky. O luxo acaba por ser muito conservador" (Joana Vasconcelos, Revista "E"/"Expresso" de 23.12.2017)
Sob este ângulo de escuta, 2017 não poderia ter sido musicalmente mais rico. O que, para além das provas apresentadas, é facilmente demonstrável se repararmos que, fora dos 10 obrigatoriamente seleccionados, a ditadura aritmética barrou injustissimamente a entrada a Aimee Mann (Mental Illness), Randy Newman (Dark Matter), Ryuichi Sakamoto (async), Michael Chapman (50), Bob Dylan (Triplicate), Sleaford Mods (English Tapas), The Weather Station (The Weather Station), Brian Eno (Reflection), Laura Marling (Semper Femina), Quercus (Nightfall) e mais uma boa mão cheia de outros. A radiografar um mundo galopantemente perigoso, saúdem-se os Gnod (Just Say No To The Psycho Right-Wing Capitalist Fascist Industrial Death Machine), Public Service Broadcasting (Every Valley), Lee Bains III & The Glory Fires (Youth Detention), Protomartyr (Relatives In Descent) e, sobretudo, o belíssimo The Navigator, de Hurray For The Riff Raff.