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11 June 2025

"Grown Ups"

(sequência daqui) Na verdade - entre programas de rádio, televisão, conferências e quase-academismos afins - Jarvis nunca deixou de ter uma agenda generosamente preenchida. O que, de certo modo, é impossível não reparar neste novíssimo More que, tal como já acontecia com This Is Hardcore e We Love Life (apesar da produção de Scott Walker...), se apresenta como um sólido e, aqui e ali, impressionante trabalho de marcenaria mas nunca na qualidade de algo capaz de fazer abanar os alicerces do artesanato contemporâneo. Claro que se, apesar disso, no vaudeville de subúrbio de Hardcore..., os textos apontando sibilinamente em várias direcções não escasseavam ("I am not Jesus though I have the same initials, I am the man who stays home and does the dishes, a man told me to beware of thirty-three, he said 'It was not an easy time for me', but I'll get through, even though I've got no miracles to show you"), em More, Jarvis Cocker, Candida Doyle, Nick Banks e Mark Webber continuam a ser capazes de desenhar maravilhosos instantes de deboche ("Screwing in a charity shop on top of black bin bags full of donations, the smell of digestive biscuits in the air", 'Tina') envoltos em aromas de feira.

08 June 2025

 
(sequência daqui) Tudo o que de extra-musical se lhes seguiu após os passos inseguros de This Is Hardcore (1998) e We Love Life (2001) e o longo hiato posterior tem apenas o valor da cusquice elevada ao patamar de teoria da conspiração: era Danae Stratou, mulher do ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, a personagem de "Common People" ("She came from Greece she had a thirst for knowledge, she studied sculpture at Saint Martin's College, that's where I caught her eye")? Jarvis Cocker invadiu o palco dos BRIT Awards de 1996 quando Michael Jackson interpretava "Earth Song" num gesto impulsivo e irreflectido ou foi tudo minuciosamente planeado? Entregou ele ao Foundling Museum, de Londres, um saco cheio de cópias de "Romania Today", uma revista em língua inglesa de propaganda das maravilhas do regime de Ceausescu? A modelo da capa de This Is Hardcore é ou não a política e actriz russa Ksenia Sobchak? (segue para aqui)

05 June 2025

Pulp Later With Jools Holland 1st June 2025
 
(sequência daqui) O essencial, porém, fora assegurado: o instável grupo de criaturas que ia constituindo os Pulp mantinha-se junto (tanto quanto era possível num permanente vai e vem) e os próprios acidentes que ocorriam - por exemplo, Jarvis cair da janela de um primeiro andar quando, para impressionar uma miúda, fazia uma imitação do Homem Aranha - enquadravam-se perfeitamente nas coordenadas daquela peculiar normalidade. O que, caminhando ao longo de uma produção discográfica razoavelmente regular - Freaks (1987), Separations (1992) - lhes permitiu chegar a Intro - The Gift Recordings (1993), que, antes de His 'n' Hers (1994) e Different Class (1995), por essa altura, me obrigava a vê-los como "A banda sonora para um circo de aberrações (Individuais, domésticas, sociais)" na qual "a eufórica celebração da Grã Bretanha e da sua paisagem humana como sarjeta da moral cristã e vistoso lixo para incinerar numa colorida feira popular foi organizada por quem, pelo povo não revela um exagerado afecto. (...) Different Class (a baixa, desprezível, abjecta e orgulhosa) foi o alfa e o ómega de uma trajectória única. A escuta de tudo aquilo que o antecede pode não ser sempre exaltante mas, pelo meio do 'glamour' rasca, das lantejoulas em segunda mão e do 'chic' de saldo (isto é, Roxy Music devolvido ao proletariado suburbano), explica demasiado bem a genealogia de uma glória adiada". (segue para aqui)

03 June 2025

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XCVIII)

(com a indispensável colaboração do R & R)


(clicar na imagem para ampliar; ver aqui)
 
"Common People" (de Different Class na íntegra aqui)
 
(sequência daqui) À beira da desintegração por manifesto desinteresse das gentes (por essa altura, mais motivadas pelo carnaval Britpop), entra em cena Russell Senior, guitarrista e violinista, fundador da Dada Society - também conhecida como New Wave Society - na universidade de Bath (onde também desempenharia o papel de Josef K., numa encenação de O Processo, de Kafka), e activamente militante durante a greve dos mineiros de 1984 em cuja violenta Batalha de Orgreave participou. "O Russell, realmente, salvou-nos. Tinha a opinião que não deveríamos ser exclusivamente um projecto musical, que deveríamos incluir outras formas de expressão artística", conta hoje Jarvis à "MOJO". Prosseguiram, então, na qualidade de Jarvis Cocker Experience & The Wicker Players que, em diversos pubs, apresentariam The Fruits Of Passion, uma peça surrealista na qual o baterista Magnus Doyle tentava o coito com uma laranja. (segue para aqui)

01 June 2025

UMA PECULIAR NORMALIDADE
 
 
Pode dizer-se que, em boa medida, foi Russell Senior quem salvou os Pulp da extinção. Jarvis Cocker, desde os 7 anos, "por influência dos Beatles", sonhava ser membro de uma banda. E, por volta dos 14, preencheu um caderno de apontamentos com "The Pulp Master Plan": "O grupo deve insinuar-se na opinião pública criando canções pop bastante convencionais, porém, ligeiramente excêntricas", prometia o inventor dos então Arabicus Pulp, cuja estreia em palco ocorreria na Sheffield City School, em Março de 1980. Três anos depois, seria publicado o primeiro álbum, It, que, aquando da sua reedição, em 1996, me faria classificá-lo como uma "colecção de canções moldadas no idioma clássico da pop e já devidamente avinagradas por aquele tipo de ironia corrosiva que haveria de transformar-se na imagem de marca de Jarvis Cocker como 'songwriter'". Ninguém reparou. (daqui; segue para aqui)
 

07 June 2020

The Weird Sisters (Jarvis Cocker, Johnny Greenwood, Steve Mackey, Phil Selway...) - "Do The Hippogriff"

(da BSO de Harry Potter and the Goblet of Fire)

18 September 2018

MALÍCIA


Foi já publicado há alguns meses mas, no caso, isso é absolutamente indiferente: qualquer disco dos Monochrome Set poderia ter sido gravado há 40 anos (quando Bid – "aka" Ganesh Seshadri – se reuniu com a primeira formação da banda de que, hoje, entre quase duas dezenas de baixas posteriores, é o único sobrevivente), anteontem ou algures no futuro. Complique-se um bocadinho: é tão legítimo vê-los na qualidade de herdeiros naturais dos Kinks como enquanto precursores dos Smiths, Blur, Pulp, Orange Juice ou Divine Comedy, estatuto que nenhum dos incluídos na lista repudia. Tão observadores implacáveis mas distanciados do “humano, demasiado humano”, quanto adeptos do ponto de vista de Marcel Duchamp que aconselhava a “nunca levar o mundo demasiado a sério sob pena de morrer de aborrecimento”, e exercendo a arte num inoxidável perímetro pop clássico, tiveram o seu instante de glória quando uma anónima votação "online" consagrou Strange Boutique (1980) como o 5 824º melhor álbum de sempre. Na última vez que tropecei neles – Platinum Coils (2012) –, Bid, num “musical sobre um internamento hospitalar”, divertia-se com a infinita comédia da mortalidade, a propósito da recente refrega com um aneurisma cerebral. Era também o momento em que, após 17 anos de hiato, a banda se reactivava e publicava um álbum não menos conceptual do que o actual Maisieworld



São eles mesmos que, agora, me poupam algum trabalho de o apresentar: Maisieworld é destilado a partir das flores pungentes da malícia artística e representa o apogeu da consumação sonora. Maisie, a vossa anfitriã, guiar-vos-á através de uma sucessão de canções que iluminam a natureza volátil, caprichosa e, essencialmente, instável dos Monochrome Set. Sereis cercados pelos ecos de uma era passada de perícia enquanto vos podereis recompor nestes esgotos sonoros onde as guitarras saltam como cimitarras ferrugentas (...). Vozes jocosas cantarão a vossa frágil natureza orgânica, os tristes sonhos e esperanças que alimentais (...). À saída de Maisieworld, sereis agradavelmente surpreendidos ao descobrir-vos repletos de pensamentos insólitos”. Acrescente-se que Maisie (na capa) é uma Barbie de bronze e o tema geral é algo como Dorian Gray num mundo de robôs, meio "vaudeville" vampiresco, meio "cyber-porn" de recorte espirituoso, excêntrico, absurdo e concebido por medida para um Gentlemen’s Club de frequentadores peculiares e adeptos de excitantes extravagâncias. Isto é, mais do que recomendável.

30 March 2016

DESARRUMAR A MEMÓRIA 


A 1 de Fevereiro passado, em “The Conversation”, Emma Smith, professora de Shakespeare Studies em Oxford, publicou o texto “Why we need to remember how to forget” no qual, afirmando que vivemos na era da hyperthymesia (do grego: excesso de memória), explicava como “A característica definidora do que é ser humano na idade digital é a de estar esmagado pelo passado – a ameaça aos nossos presente e futuro criativos é que o passado se torne demasiado omnipresente impedindo-nos de avançar. Abram-se as portas ao potencial criativo do esquecimento”. Caso o lesse, Meilyr Jones achá-lo-ia absolutamente incompreensível ou rir-se-ia à gargalhada. Porque ele não se sente, de todo, esmagado pelo passado, ele vive, literalmente, lá dentro. E, se lhe apontam que "Strange/Emotional" exibe uma muito directa relação familiar com "Rebel Rebel", de David Bowie, não hesita na resposta: “Adoro essa canção, por isso, apropriei-me da introdução. Antigamente, não havia nenhum problema em referirmo-nos livremente a obras alheias. Hoje, olhamos para a música do passado sem essa confiança, procuramos ocultar as nossas fontes. Esses compassos de ‘Rebel Rebel’ são-me familiares para lá do ponto em que poderia falar-se sequer de empréstimo. Se vou ser autêntico, uso a minha música e a de outros, para mim, o mundo moderno é isso, desarrumar o passado. Um processo de osmose mais do que conceptual”



A canção de Bowie não é caso único em 2013 álbum de estreia a solo do galês ex-Race Horses: "How To Recognize a Work Of Art" ecoa "Disco 2000", dos Pulp (ela própria já uma montagem de citações), "Don Juan" contêm ADN de "You’re So Vain", de Carly Simon, "Rain In Rome" é a polifonia renascentista "Mon Cœur se Recomande à Vous", de Orlando di Lasso, sobre fundo de chuva e tempestade, e "Rome" uma encenação elegantemente isabelina. Opulentamente orquestral à la Neil Hannon, Meilyr Jones, “an actor recalling my previous lives, no Hamlet, no Macbeth, come and see me tonight” ou, em alternativa, “this week’s featured artist, the face of The Observer’s free magazine”, criatura impregnada de Byron, Keats e Shakespeare, deverá, então, ser considerado como um dos primeiros autores do século XXI a enfrentar, sem medo, a hyperthymesia e, desarrumando a memória, a sair vencedor do combate.

25 April 2015

VINTAGE (CCXLV)

T Rex - "Children Of The Revolution"

Transvision Vamp - "Revolution Baby"

Pulp - "The Day After the Revolution"

12 November 2014

A DAY IN THE LIFE


16 de Setembro, Canada High Comission, em Londres. Leonard Cohen está prestes a apresentar Popular Problems e umas dezenas de comuns mortais reúnem-se para escutar a divindade e, por momentos, respirar o mesmo ar. Não poderá, em rigor, dizer-se que se trata de “common people” uma vez que fazem parte dos escolhidos. Mas, quase desejando ser ainda mais anónimo do que os outros, escondido atrás das lentes de grande míope, Jarvis Cocker, silencioso e venerador, só não passa completamente despercebido porque os seus centímetros são consideráveis. Em Pulp: A Film About Life, Death And Supermarkets, acontece praticamente o mesmo: sim, o pretexto é o concerto de despedida dos Pulp pós-derradeira reunião, a 8 de Dezembro de 2012, na Sheffield natal, mas, durante esse "day in the life", os verdadeiros protagonistas são a cidade e os seus habitantes, imprevisíveis fãs, literalmente dos 7 aos 77, da banda.


Não é um acaso que o documentário de Florian Habicht comece e acabe com Jarvis entregue à espinhosa tarefa de mudar um pneu. Será encenado mas a intenção coincide com o propósito pouco comum de um filme deste género: converter a suposta matéria-prima essencial – a música e as personalidades dos elementos da banda – em pano de fundo e banda sonora para a paisagem humana da velha Steel Town devastada por Thatcher e, agora, reconfigurando-se como centro de negócios (paradisíaco ou infernal, depende do ponto de vista) e terra prometida de "call centers". Se os Talking Heads assinavam “songs about buildings and food”, esta exploração da vida, da morte e dos supermercados mostra-nos o reportório dos Pulp interpretado por pensionistas e corais de damas azul-lantejoula, equipas de futebol feminino – de que o “mister” é o baterista Nick Banks – patrocinadas pelos Pulp, grupos adolescentes de dança às voltas com "Disco 2000", senhoras idosas interrogando-se se Jarvis será filho de Joe Cocker e vendedores de jornais dickensianos proclamando a sua devoção pelo grupo. E, nesta oferta do primeiro plano à “gente vulgar”, não existe sequer uma partícula de demagogia: só quem nunca escutou com atenção as canções dos Pulp é que não reparou como o seu amor pelas massas só é superado pelo asco com que as representa.

08 July 2009

JARVIS COCKER vs MICHAEL JACKSON
(1996-2009)




Jarvis Cocker invaded the stage at the 1996 BRIT Awards in a spur of the moment protest against Michael Jackson's performance. Jackson performed surrounded by children and a rabbi, while making 'Christ-like' poses and performing his then-recent hit, "Earth Song". Cocker and his friend Peter Mansell (a former Pulp member) performed an impromptu stage invasion in protest. In the ensuing confusion, as security attempted to eject Cocker from the stage, three child performers received minor injuries. Cocker was later detained and interviewed by the police on suspicion of assault. He was subsequently released without charge. Opinions from the press on Cocker's actions were mixed.



The March 2, 1996, edition of Melody Maker, for example, suggested Cocker should be knighted, and Cocker's friend Noel Gallagher, of Oasis fame claimed "Jarvis Cocker is a star and he should be given an MBE". Gallagher is also quoted as saying of Jackson's behaviour "For Michael Jackson to come over to this country after what's all gone on - and I think we all know what I'm talking about here - to dress in a white robe, right, thinking he's the Messiah - I mean who does he think he is? Me?" However, other journalists and the organisers of the BRIT Awards were outraged by Cocker's behaviour. In response to the ensuing media scrutiny of the action, Cocker responded, "My actions were a form of protest at the way Michael Jackson sees himself as some kind of Christ-like figure with the power of healing... I just ran on the stage... I didn't make any contact with anyone as far as I recall". (daqui)

(2009)