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16 March 2023

Sair de um armário 
bem ridículo e palerma
(claro que os ABBA eram óptimos!)

10 September 2019

UMA GRANDE DESORDEM 



“Reina uma grande desordem debaixo dos céus” afirmou Mao Tsé-Tung, como igualmente o diriam milhares de outros, em todos os séculos e todas as latitudes, embora só ele tenha acrescentado a conclusão “e a situação é excelente”. Hoje, poucos discordarão que a situação é tudo menos excelente e, fechando um pouco o ângulo de visão – isto é, folheando o último número da “Wire” –, haverá até motivos para imaginar que, o primeiro verso do “Uivo” de Allen Ginsberg (“I saw the best minds of my generation destroyed by madness”) continua perfeitamente actual. Ou, pelo menos, uma inquietante desordem invadiu as suas mentes. Há 5 anos, o crítico de música e fundador da ZTT, Paul Morley, tivera uma revelação divina e anunciara ao mundo que “A pop é do século passado. O futuro é da música clássica!” Agora, num dossier da revista dedicada às “adventures in sound and music”, cujo tema é a “celebration of music’s love affair with excess, overload, lavishness and volume”, o habitualmente astuto Simon Reynolds denuncia os “preconceitos pós-punk” e entrega-se à reavaliação do “solo de guitarra”, confessando ter sucumbido ao seu “requinte ordinário”



Como atenuantes para o pecado original, alega uma juventude sujeita à doutrinação do "less is more" (“O minimalismo não era apenas uma preferência estética mas uma atitude moral e ideológica: um nivelamento igualitário, permitindo a entrada de amadores com uma mensagem urgente mas musicalmente incapazes”) e condicionada pela aversão à guitarra como símbolo fálico (“Se apoiávamos a revolução feminista no rock (...), tínhamos de nos opor a exibições de virtuosismo masturbatório. Os solos eram, se não abertamente fascistas, pelo menos, um retrocesso reaccionário em direcção ao machismo da guitarra-enquanto-arma”). E conta que terá sido ao escutar "Purple Haze", de Jimi Hendrix, e "Marquee Moon", dos Television, que as suas convicções começaram a vacilar: a partir daí, descobriria Neil Young, os Butthole Sufers, Dinosaur Jr, Meat Puppets, Royal Trux, e, “numa derradeira convergência”... os Queen e “o esplendor da guitarra de Brian May, uma ideia de beleza de um camponês ou de um ditador. Anti-punk até à medula, talvez a última e verdadeira emergência da rebeldia rock no show business”. Haverá alguma forma de fazer ver a Morley e Reynolds que, embora as oscilações do gosto façam tanto parte da história do mundo quanto a guerra e a paz, para renegar algo, não é absolutamente imprescindível abraçar o pior do seu contrário nem convocar para o combate dos tribalismos estéticos Bach vs Abba ou The Fall vs Soft Machine?

04 October 2018

Palhacitos (pré) eleitorais (XXXVII): 
um fenómeno global

Nota 1: os ABBA não têm culpa; Nota 2: "Young and sweet, only seventeen" só pode ser humor muito negro; Nota 3: o Reino Unido passou a ter, oficialmente, duas "queens"?

08 May 2018

LES PORTUGAIS SONT TOUJOURS GAIS (LXXIV)

Turquia 2005 (“world music” de Holiday Inn)

Conhecem Jacqueline Boyer? Séverine? Bobbysocks? Eimear Quinn? Sertab Erener? Jamala?... É muito provável que não. Mas foram todos vencedores do Festival da Eurovisão. Respectivamente, em 1960, 1971, 1985, 1996, 2003 e 2016. Na verdade, é uma amostra representativa da esmagadora maioria dos concorrentes e das 65 canções vencedoras desse concurso desde 1956, das quais, sem um pingo de exagero, pode dizer-se que não entraram para a história. Como informa a Wikipedia, “vencer o Festival da Eurovisão proporciona uma oportunidade para os vencedores rentabilizarem o sucesso e lançarem ou reforçarem uma carreira internacional. Contudo, poucos se tornaram grandes estrelas mundiais”. Em rigor, apenas dois: os ABBA, em 1974, e Céline Dion, em 1988 (France Gall, Lulu ou Sandie Shaw não contam uma vez que já tinham um percurso anterior a que a participação no concurso nada acrescentou). Justissimamente ignorado pela indústria discográfica, salvou-o da extinção por irrelevância ter sido adoptado enquanto espaço de celebração transnacional da comunidade LGBT e, simultaneamente, haver-se transformado no grande momento "camp"/"kitsch" anual, oportunidade para a exibição do mais cintilante pechisbeque, no qual imperavam os valores estéticos do "slut power" de Leste, da "exotica"-de-Club-Med ou do "hotel lounge glamour". 

Alemanha 2009 ("guest star" Miss Dita Von Teese)

Nicho ecológico ideal para a proliferação de Spice Girls bálticas, romantismos de "trottoir", punkóxungas balcânicos, "soft-porn" étnico, “world music” de Holiday Inn e corpos de baile de legionários romanos, onde, na edição de 2009, nem sequer faltou a participação de Miss Dita Von Teese, de chibatinha na mão, a acrescentar um picante "kinky" à canção alemã. A glória seria alcançada com o triunfo das transexuais israelita e austríaca Dana International (1998) e Conchita Wurst (2014) mas, desde o início da actual década, os mais autênticos valores "kitsch" que lhe vincavam a identidade foram sendo trocados, sem ganhos, pela uniformização industrial, entre a baladona xaroposa e a "playlist" de discoteca suburbana. Foi sobre os escombros deste império arruinado que, no ano passado, Portugal acrescentou mais um nome aos (quase todos) anónimos anteriores. De imediato, o presidente da república anunciou que “a vitória deu mais 20 centímetros aos portugueses” e, no Parlamento, por unanimidade, foi aprovado um voto de saudação aos heróis de uma pátria em êxtase. Como dizia Charles Lecocq, na ópera-bufa Le jour et la nuit (1881), “Qu’il fasse beau, qu’il fasse laid, au mois de Décembre ou de Mai, les Portugais sont toujours gais!”

07 March 2017

MEIO SÉCULO

  
Stephin Merritt criou para si mesmo várias regras sagradas de trabalho. Uma – a que ele chama a “teoria ABBA” – estipula que, caso não consiga recordar-se de uma melodia que compôs, é porque, na verdade, ela não merecia ser recordada. Outra, incluída num “Formulist Manifesto”, proclama que “toda a arte aspira à condição do Top 40 bubblegum pop. Nós, formulistas, rejeitamos (com um suspiro de alívio) a iludida aspiração dos modernos à expressão individual”. Daí, decorre uma convicção: “Não preciso de inspiração. Preciso, sim, de tempo, um bloco-notas, uma caneta, e música de fundo apropriada para neutralizar a música que, inevitavelmente, tenho na cabeça”. Acessoriamente, dá-lhe jeito a noção de que “para qualquer ideia, existe, de certeza, um contexto no qual ela é uma boa ideia”. Por exemplo, gravar um álbum em que todas as canções começam por “i”, conceber uma trilogia “no synth”, afogar um disco inteiro em distorção, "à la" Jesus & Mary Chain, ou entregar-se incondicionalmente à escrita das 69 variações possíveis sobre a "love song".


Uma boa ideia foi também a sugestão do presidente da Nonesuch, que, há dois anos, por altura do 50º aniversário de Merritt, lhe propôs compor 50 canções, uma por cada ano de vida. Circunstância ideal para engendrar novas regras: num total superior a 100 instrumentos, apenas 7 poderiam ser utilizados em cada canção, o mesmo par de instrumentos só estaria autorizado a figurar num único tema e cada um deles num máximo de 7 faixas. Complicadinho? Talvez, mas não seria isso que impediria Stephin Merritt de – via Magnetic Fields e, dir-se-ia, todos os seus heterónimos – confeccionar 50 Song Memoir, uma assombrosa e musicalmente eclética autobiografia que funciona também enquanto espelho do último meio século de História americana. E tanto nos conta que foi gerado por “barefoot beatniks”, como revela que a sua primeira banda “made the Cramps sound orchestral, that’s an achievement I guess”, evoca Ginsberg e Stonewall, entoa hinos a Nova Iorque pós 9/11 e ao seu local de trabalho preferido (“sitting in bars and cafes, writing songs about songs and plays within plays”), destila veneno sobre o vasto clube de ex-namorados da mãe (“Na na na na, you’re dead now!”) e termina celebrando a gloriosa diversidade do sexo: “Nothing’s too strange for somebody’s palate, some spank the maid, and some wank the valet”.

16 December 2015

69


No último número da “Uncut”, perguntava-se a Stephin Merrit: “Faz alguma ideia se 69 Love Songs poderá ter sido um álbum que influenciou outros artistas?” E, muito serenamente, ele respondia: “Los Campos Magnéticos são, provavelmente, a melhor banda do mundo mas não o posso afirmar ao certo porque não os ouvi na totalidade”. Entre parêntesis, o entrevistador explicava que Los Campos Magnéticos são um trio argentino que interpreta versões de cabaret das canções de Merritt, nos bares de Buenos Aires. Era impossível não ir, de imediato, à procura. E não foi difícil dar com a página de Alvy, Nacho & Rubin, na Bandcamp, com os volumes 1 e 2 de Interpretan a Los Campos Magnéticos – uma colecção de 25 canções dos Magnetic Fields, publicada anteriormente (2010 e 2011) em dois CD, “resultado de um singular processo de investigação e tradução sobre as formas e os modos através dos quais Stephin Merritt construiu um reportório de canções de amor universais a partir de uma plataforma musical surpreendente, que tanto molha a pena nos ABBA como em Gershwin”.



O YouTube também dá uma ajuda: meia dúzia de vídeos – artesanalmente captados ao vivo ou devidamente produzidos e realizados – em que as vozes, guitarras, ukulele, acordeão e violoncelo se entregam, notoriamente deliciados, a entoar "Hagamos Como Los Conejos" (“Hagamos como los conejos, y enamorarnos con pasión, bien rapidito y sin complejos, cantando esta canción, yo puedo hacerlo todo el dia y toda la noche también, hagamos como los conejos, hasta desfallecer”), "Como Un Pollo Degolado" ou "Nada Importa Si Bailamos". O pretexto para aqui chegarmos foi, entretanto, a reedição – em formato de "box-set" com seis vinis coloridos de 10 polegadas – do único triplo CD da história pop que é crime nunca ter escutado: uma imaculada colecção de 23x3 supremos exemplos práticos de como “A melody is like a pretty girl, who cares if it’s the dumbest in the world”. Segundo o autor, “nem sequer é remotamente, um álbum acerca do amor, mas acerca das canções de amor, coisa bem distinta de algo que se possa relacionar com o amor”. Mas, seguramente, na modalidade pop-sobre-a-pop em mãos de erudito, uma daquelas obras com lugar assegurado no cânone por muitíssimos e bons anos.

26 July 2015

Um óptimo exemplo de como um estudo pretensamente "científico" se desmorona, desde o início, infectado pelo preconceito mais pateticamente estereotipado: "Mellow (featuring romantic, relaxing, unaggressive, sad, slow, and quiet attributes; such as in the soft rock, R&B, and adult contemporary genres); Unpretentious (featuring uncomplicated, relaxing, unaggressive, soft, and acoustic attributes; such as in the country, folk, and singer/songwriter genres); Sophisticated (featuring inspiring, intelligent, complex, and dynamic attributes; such as in the classical, operatic, avant-garde, world beat, and traditional jazz genres); Intense (featuring distorted, loud, aggressive, and not relaxing, romantic, nor inspiring attributes; such as in the classic rock, punk, heavy metal, and power pop genres); and Contemporary (featuring percussive, electric, and not sad; such as in the rap, electronica, Latin, acid jazz, and Euro pop genres)... e onde me encaixo se gostar simultaneamente de Leonard Cohen, Stravinsky, Ornette Coleman, Sex Pistols, ABBA, Nusrat Fateh Ali Khan, Stockhausen, Julie London, Jimi Hendrix, Caetano Veloso, Beach Boys, Chet Baker, música barroca e do Renascimento, Amália, Glenn Branca?...

26 February 2014

... e o San Francisco Gay Men's Chorus fez questão de saudar o marido da poetisa Silva com a vibrante interpretação de uma medley dos ABBA
 


If you change your mind, 
I'm the first in line 
Honey I'm still free 
Take a chance on me

11 April 2013

CONTRA A AUTENTICIDADE


Numa das emissões da sua “Theme Time Radio Hour”, Bob Dylan qualificou Leadbelly como “o único ex-preso que gravou um álbum de músicas para crianças” e Tom Waits continua a ver nele “uma inesgotável fonte de música”: “Podia tocar concertina ou contar as histórias da avó. Era como se fossem álbuns conceptuais ou álbuns de fotografias com retratos de infância. É uma história da América nessa época. O sapateado do Leadbelly soava como um solo de bateria do Chick Webb. Um par de sapatos e o chão do estúdio chegavam”. E adverte: “É o tipo de coisas que, se fossem gravadas hoje, era preciso ter muito cuidado para garantir que não se gravava só o osso e se deitava fora a carne”. A verdade, porém, é que, quando, em 1933, os etnomusicólogos John e Alan Lomax o “descobriram” na tenebrosa penitenciária de Angola, na Louisiana, e se dispuseram a registar o seu reportório de blues, gospel e folk, tinham ideias muito assentes acerca do que era “osso” e “carne” e do que deveria ser considerado “autêntico”: Leadbelly, para além do material tradicional, gostava de interpretar os êxitos populares da época mas preto norte-americano que era preto norte-americano só estava autorizado a cantar blues, gospel e afins. E, ao conseguirem a sua libertação, no ano seguinte, o que lhe possibilitou apresentar-se em concertos, em Nova Iorque, proibiram-no de usar o fato completo janota que ele preferia e convenceram-no a apresentar-se de jardineiras: era lá possível defender a genuinidade de "Good Night Irene" ou "Midnight Special" de outra forma? 



Os escrúpulos autenticistas não se terão extinguido de vez mas – entre muitos outros – sinais como a exposição do Nordiska Museet de Estocolmo (um museu das artes, tradições e história cultural da Suécia), em 2001, dedicada aos ABBA, ou as frenéticas miscigenações que a emergência da "world music" proporcionou deixam poucas dúvidas de que a sua importância não tende, definitivamente, a crescer. Dêem-me Duas Velhinhas, Eu Dou-vos O Universo, álbum de 26 recolhas musicais realizadas por Tiago Pereira um pouco por todo o país, entre Março de 2011 e Novembro de 2012 (download legal e gratuito aqui), através do próprio título, enuncia, implicitamente, o seu programa: inspirado pela frase de DJ Spooky, "Give me two records and I will make you a universe”, coloca, de imediato, em cima da mesa (de mistura) o direito de, a partir da matéria musical capturada, poder reconfigurar espaço, tempo e memória, e contaminá-los da mais livre subjectividade estética. Versões de versões, testemunhos de quem ouviu a quem também já só tinha sido dado ouvir em segunda e terceira mãos, melodias, ritmos e harmonias associadas a actividades rurais há muito desaparecidas, fantasmas de um mundo longínquo que só a custo se deixa exumar, nesta espécie de honestíssimo manifesto contra a autenticidade (e parcela do projecto “A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria”), o que conta é “a alfabetização da memória” e o objectivo de “celebrar a tradição do futuro”. Jardineiras ou fato completo são opcionais.

06 March 2012

PROVETA COLORIDA


















Goldfrapp - The Singles

Não é, de todo, que os treze anos da carreira dos Goldfrapp (aliás, Alison Goldfrapp e Will Gregory) se tenham traduzido apenas por um estatuto de culto confidencial, pouco frequentador de tabelas de vendas e distinções da indústria: possuem ouros, platinas, nomeações e prémios suficientes para tornar verde de inveja boa parte da concorrência. Mas, se tudo tivesse corrido verdadeiramente muito bem, por esta altura, deveriam já encontrar-se a caminho daquele Olimpo das divindades pop onde conviveriam diariamente com gente como os ABBA ou T. Rex e aí seriam acolhidos como pares de pleno direito. Não é ao calhas que se jogam para a conversa os nomes do quarteto de "Super Trouper" ou da banda de Marc Bolan: a discografia Goldfrapp é daquelas em torno das quais se estruturaria facilmente um "workshop" acerca da requintada arte pop de construir canções musicalmente complexas mas que, ao mesmo tempo, se barricam nos tímpanos, impedindo qualquer hipótese de despejo.



E, porque é disso que se trata, naturalmente, uma compilação de singles é uma das mais apropriadas formas de contribuir para a sua maior e merecidíssima glória. Aproveitando para reparar como nesta colorida proveta sonora borbulham e se combinam de modo mais que perfeito moléculas dos Blondie, dos Beatles, de Donna Summer, das bandas sonoras lustrosamente góticas que Morricone deveria ter escrito para David Lynch (Lana Del Rey, toma e embrulha!), do "disco"-versão-Moroder, de fluorescências "electro-glam", das cinzas do trip hop de que Alison e Will emergiram, tudo atapetando décors de banda desenhada S&M, festiva decadência (“don’t want it Baudelaire, just glitter lust”) e adorável luxúria pedrada (“Think I want you still but it may be pills at work”). Como sempre deveria ser.

(2012)

31 December 2011

2011 - A INTANGÍVEL NOSTALGIA


Nijemo Kolo

Bem mais de meio século depois de Amália Rodrigues e algumas décadas a seguir a Camané, Cristina Branco e uma boa mão-cheia de outros que se encarregaram de fazer o fado viajar pelo mundo (mesmo naqueles casos em que aquilo que o mundo imaginava apreciar como fado não o fosse realmente), o Portugal que, oh quão fadistamente!..., ainda que sem se dar conta disso, todos os dias parafraseia Fernando Pessoa – “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, define com perfil e ser este fulgor baço da terra que é Portugal a entristecer, brilho sem luz e sem arder, como o que o fogo-fátuo encerra. Ninguém sabe que coisa quer. (...) Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro” –, foi literalmente intimado a “orgulhar-se” porque Albânia, Azerbaijão, Burquina-Faso, Chipre, Coreia do Sul, Croácia, Cuba, Granada, Indonésia, Irão, Jordânia, Madasgáscar, Marrocos, Nigéria, Niger, Omã, Paraguai, Quénia, Venezuela e mais quatro ou cinco países nos autorizaram a fazê-lo, consagrando-o como “património intangível (logo o fado em que se deve tanger a guitarra...) da humanidade”. Derrotando bravamente o kung fu de Shaolin, ficou-lhe, assim, eternamente garantida uma notoriedade planetária tão invejável como as da "nijemo kolo", da Dalmácia ou do ritual de transplantação do arroz, de Mibu e Kawahigashi, no Japão (dois dos outros felizes contemplados pela UNESCO).






















Enquanto isso, em Retromania: Pop Culture’s Addiction To Its Own Past – e a “viciação no passado” não seria uma magnífica definição do fado? –, Simon Reynolds colocava sob o microscópio o património cultural pop que ainda não teve acesso ao passaporte para o Olimpo dos imateriais (é só esperar mais umas décadas: em 2001, os ABBA já foram tema de exposição no Museu de Artes e Tradições Populares de Estocolmo) e, assombrado por uma inquietante interrogação (“Será que o maior perigo para o futuro da nossa cultura musical é... o seu passado?”), recordava os momentos do psicadelismo, do pós-punk, do hip-hop ou das raves “quando o metabolismo pop fervilhava de energia”, invectivava as jovens bandas em que “sob as faces macias e rosadas, se adivinha a pele macilenta das velhas ideias” e, quase paralisado pela dúvida “é a nostalgia que bloqueia a capacidade da nossa cultura para seguir em frente ou tornámo-nos nostálgicos porque ela desistiu de avançar?”, terminava com uma declaração de confiança no futuro, “essa vertigem assustadora e eufórica da inexistência de limites que a melhor ficção-científica oferece”. Retromania, o livro foi, sem dúvida, o melhor álbum pop deste ano. Mas se, de novo, confirmando Reynolds, nenhum sismo estético ocorreu, muito boa música continuou a acariciar-nos os tímpanos e nem toda cheirando a naftalina.

(2011)

29 July 2011

ESCOLHAS DE VERÃO
(por obrigação contratual)
















The Jesus And Mary Chain - Upside Down: The Best Of The Jesus And Mary Chain

O futuro do pop/rock poderá ser incerto mas é indiscutível que está carregado (talvez, sobrecarregado fosse a palavra mais adequada) de passado. E, na avalanche de reedições que se acotovelam por uns segundos de atenção, esta dupla cápsula do tempo contendo a destilação dos dilúvios eléctricos de Glenn Branca, submetidos à disciplina-Velvet Underground e projectados na Wall of Sound spectoriana realizada pelos irmãos Reid, até é das mais valiosas.



















Stealing Orchestra - Deliverance

A música da Stealing Orchestra costumava corresponder de uma forma mais exacta à tradução portuguesa (Fim de Semana Alucinante) do título do filme de John Boorman – Deliverance – por que optaram para nomear o seu último álbum. Depois das vertiginosas colagens em montanha russa dadaísta, aportaram, agora, a um lugar de compromisso entre samplagem e instrumentos reais, com Rodrigo Leão e Ana Deus a bordo da nave.

















ABBA - Super Trouper (Deluxe Edition)

Por esta altura, já não deve ser indispensável recorrer às desculpas esfarrapadas do culto-kitsch dos anos 70 para legitimar o facto de se gostar (muito) da música dos ABBA. De Stephin Merritt a Elvis Costello, não falta quem lhes louve a valia propriamente musical e, se o tópico kitsch for chamado à conversa, sê-lo-á apenas como tempero adicional. Super Trouper, em toda a sua glória (enriquecida de imagens e outros extras), fala por si.



















Smix Smox Smux - Os Gloriosos Smix Smox Smux Derrotarão Os Exércitos Capitalistas

Iconografia maoísta, apelos insureccionais do género “Vai para a rua, faz barulho, diz-lhes que não estás contente, que o deles está seguro e o futuro não é teu pai” em cadência dançante, oximoros sob a forma de manifesto revolucionário ("Pinochet Guevara") e, reforçando o epicentro bracarense, Adolfo Luxúria Canibal a reavivar o rubro da hemoglobina que tinge a bandeira deste punk tão ingénuo quanto feroz.

















Aztec Camera - Walk Out To Winter/The Best Of Aztec Camera

Se tudo tivesse corrido bem, neste momento, Roddy Frame poderia, muito facilmente, encontrar-se numa situação equivalente – com a devida distância geracional considerada – à de Richard Thompson: um (quase) "elder statesman" da pop britânica, culto selecto mas confortável. A verdade é que os anos pós-Aztec Camera não lhe foram favoráveis e, sem nunca ter, realmente, descido abaixo do seu (exigente) nível, o que a memória e este duplo guardam é a obra inicial.