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24.10.19

Carlos Salem (Testamento de dúvidas)





TESTAMENTO DE DUDAS



¿Que será de estos textos míos, tan ajenos,
el día que ya no esté para nombrarlos?
¿Quién recogerá del suelo los versos
cuando se deshoje el tiempo que me toca?

¿Calcularán mis descendientes unos improbables beneficios,
o negarán toda relación con este trilero de poemas
que sólo quiso meter la mano y la palabra bajo las faldas de la vida?
(y alguna vez lo hizo)

¿Disputarán mis amantes la provocación de una estrofa,
olvidando que amar es repetirse a uno mismo?
¿Organizarán un congreso de despechos y perdones
con los pechos al aire y las copas y las piernas en alto?
¿Lamentarán haber entregado sus favores a un autor
más preocupado del misterio de unas ingles
que del devenir de los mercados?

Por suerte no lo sabré. Por eso escribo. Por eso amo.
   (...)

Carlos Salem

[El huevo izquierdo]





O que será destes meus escritos, tão alheios,
no dia em que eu já cá não esteja para os nomear?
Quem apanhará do chão os versos
quando se desfolhar o tempo que me cabe?

Farão contas meus herdeiros de alguns improváveis benefícios,
ou negarão qualquer relação com este batoteiro de poemas
que quis só meter a mão e a palavra por baixo das saias da vida
(e conseguiu às vezes)?

Disputarão meus amores a provocação de uma estrofe,
esquecendo que amar não é mais do que repetir-se a si mesmo?
Organizarão um congresso de despeitas e perdões
com o peito ao vento e copos e pernas ao alto?
Lamentarão ter concedido seus favores a um autor
mais interessado no mistério de certas virilhas
do que no futuro dos mercados?

Não chegarei a sabê-lo, felizmente.
Por isso escrevo.
Por isso amo.

(Trad. A.M.)

.

15.10.14

Carlos Salem (Criminoso)





CRIMINAL



Quisiera aplastar, sin piedad, tus penas
como gotas de una lluvia de otoño en la ventana.
Y algunas tardes, rajaría tu ausencia a navajazos,
para llenarle el vientre de promesas
que acorten tu regreso.

Incluso no descarto atentar
contra todos los huecos
de tu cuerpo, y sin aviso previo.
He preparado una bomba casera de cariño
para dinamitar tus dudas,
si es preciso.
Y acribillo de besos tus recuerdos,
para que siempre tengas
perdigones de mi que llevarte a la boca.

Lo admito: soy un criminal,
y estoy dispuesto, por tenerte,
a cometer casi cualquier delito.

Pero no temas, amor:
puedo matar por ti
puedo morir por ti,
pero nunca podría
asesinar tu misterio.

Carlos Salem

[El huevo izquierdo]



Queria esmagar, sem piedade, tuas penas
como gotas de chuva outonal no vidro da janela.
E certas tardes, rasgaria tua ausência à navalha,
para lhe encher o ventre de promessas
que encurtem o teu regresso.

Não descarto mesmo atentar
contra os buracos do teu corpo,
e sem aviso prévio.
Fiz uma bomba caseira de carinho
para dinamitar tuas dúvidas,
se for preciso.
E crivo de beijos tua lembrança
para não te faltarem
perdigotos meus para levares à boca.

Confesso, sou um criminoso,
disposto, para ter-te,
a cometer qualquer crime.

Mas não temas, amor,
posso matar por ti,
posso morrer por ti,
mas não poderia nunca
assassinar teu mistério.

(Trad. A.M.)
.

20.11.13

Carlos Salem (Cavalgamos)





CABALGAMOS



Sabes
que los perros de la memoria
muerden
pero ya
casi
no ladran.

El porvenir nunca viene
-que ya lo advirtió don ángel-
pero vienes tú
derritiendo aceras
licuando soledades.

Los perros huelen mi sangre
como yo huelo tu carne
con hocico de mastín
con el rabo desafiante.

Y no hay futuro/
ni presente/
ni pasado/
pero hay aquí/ ahora/
tú/
yo/
y un domingo que se abre.

El mañana es el placebo
que se inyectan los cobardes
y en este cuarto anochece
siempre a las seis de la tarde.

Los perros
hoy
aúllan para nadie.

El sol, cabreado,
busca a la luna
en vano.
Está desnuda en mi cama.


Carlos Salem



Os cães da memória
sabes
mordem
mas já
quase
não ladram.

O porvir não vem nunca
– advertiu-o don ángel –
mas vens tu
derreter calçadas
arrasar solidões.

Os cães cheiram-me o sangue
como eu faço com tua carne
com focinho de mastim
com o rabo em desafio.

E não há futuro/
nem presente/
nem passado/
mas há aqui/ agora/
tu/
eu/
e um domingo a abrir.

O amanhã é o placebo
que metem na veia os cobardes
e neste quarto anoitece
sempre às seis e meia da tarde.

Hoje
os cães
uivam a ninguém.

O sol, irritado,
busca a lua
em vão.
Está nua na minha cama.

(Trad. A.M.)

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6.11.13

Carlos Salem (Nós não)





NOSOTROS, NO



Nos enseñaron a sentir en dirección obligatoria
y nos llenaron la vida de semáforos.

Nos dijeron lo que se debe y lo que no
y que siempre quedaríamos debiendo.

Nos firmaron cheques en blanco
con tinta blanca
y esperaron a que les diéramos las gracias.

Nos rogaron que gritáramos sin ruido
amáramos sin furia
muriéramos sin asco
viviéramos sin ganas.

Nos olvidaron.

Nos prometieron el cielo en la tierra
y un paraíso con vídeo-vigilancia.

Nos invirtieron la esperanza a plazo fijo
y cambiamos los deseos por bonos del estado.

Nos vendieron motos
democracias
y consolas
y canciones del verano en pleno otoño.

Nos tiraron del pelo.
Nos cortaron el pelo.
Nos tomaron el pelo.
Y nos salvamos
a veces
por los pelos.

Nos olvidaron.

Nos juzgaron por pensar sin lubricante
Nos condenaron a sentir en látex
Nos metieron en jaulas decoradas
con los rostros de nuestros ídolos muertos.

Y cuando se quedaron sin presupuesto
para pagar las facturas de la cárcel
nos soltaron.

Y nos olvidaron.

Pero nosotros
a ellos
no.

Me temo
que no tendrán tiempo
de arrepentirse.

Carlos Salem



Ensinaram-nos a sentir em direcção obrigatória
e encheram-nos a vida de semáforos.

Disseram-nos o que se deve e o que não
e o que sempre ficaríamos a dever.

Assinaram-nos cheques em branco com tinta branca
à espera que agradecêssemos.

Pediram-nos que gritássemos sem barulho
amássemos sem fúria
morrêssemos sem asco
vivêssemos sem vontade.

Esqueceram-nos.

Prometeram-nos o céu na terra
e um paraíso com video-vigilância.

Investiram-nos a esperança a prazo fixo
trocando-nos desejos por títulos do Estado.

Venderam-nos motos
democracias
e consolas
e canções de Verão em pleno Outono.

Puxaram-nos pelo cabelo.
Cortaram-nos o cabelo.
Tomaram-nos o cabelo.
E salvámo-nos
às vezes
por um cabelo.

Esqueceram-nos.

Julgaram-nos por pensar sem lubrificação
Condenara-nos a sentir em látex
Meteram-nos em jaulas decoradas
com as caras de nossos mortos ídolos.~

E quando ficaram sem orçamento
para pagar as facturas da prisão
soltaram-nos.

E esqueceram-nos.

Mas nós
a eles
não.

Receio
que não terão tempo
de arrepender-se.

(Trad. A.M.)



>>  El huevo isquierdo del talento (blogue/muitos p) / Carlos Salem (outro) / Matar y guardar la ropa (outro antes) / Wikipedia

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