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12.4.26

Javier Salvago (Perto do céu)




CERCA DEL CIELO

 

A aquella tabernucha la llamaban
“Cerca del cielo”, por los altos techos
que cobijaban a los parroquianos.
Misterios del azar: al tabernero
lo apodaban “El tío de la nube”,
por la mancha del ojo.
Si ahora vuelvo
hacia allá la mirada, puedo ver
a mi padre, feliz, cerca del cielo
–solo por el poder que tiene el vino
de pintar de colores lo que es negro–,
apoyado en la barra, rodeado
de amigotes juerguistas y risueños,
cantando por fandangos y alegrías,
sin respetar la noche ni el letrero
de “Se prohíbe el cante”.
Y puedo
verme también a mí, sentado
sobre un alto barril –apenas tengo
ocho inocentes años–
tiritando de frío,
muerto de hambre y de sueño,
avergonzado,
cerca del infierno.
 

Javier Salvago

 


Aquela taberna chamavam-lhe
‘Perto do céu’, pelos tectos altos
que abrigavam os fregueses.
Mistérios do acaso, o taberneiro
tinha o apodo ’O tipo da nuvem’,
devido a uma mancha na vista.
Volvendo agora
o olhar para lá, posso ver
meu pai, feliz da vida, perto do céu
- só pelo poder que tem o vinho
de pintar a cores aquilo que é negro -
apoiado no balcão, rodeado
de amigalhaços borguistas e risonhos,
a cantar por fandangos e alegrias,
sem respeitar a noite nem o letreiro
’Proibido o cante’.
E posso
ver-me também a mim, sentado
num barril alto – mal tenho
oito anos inocentes –
tiritando de frio,
morto de fome e de sono,
envergonhado,
perto do inferno.

(Trad. A.M.)

.

28.8.25

Piedad Bonnett (Aqui dava o pai)




(IV)                                                                                                                                                  

 

Aquí golpeaba airadamente el padre sobre la mesa
causando un temblor de cristales, una zozobra en la sopa,
volcaba el jarro de su autoridad aprendida, de sus miedos,
de su ternura incapaz de balbuceos.
Adelantaba su dedo acusador y el silencio
era como una puerta obstinada que defendía a los niños del llanto.
Aquí solo hay ahora una mesa de cedro, unos taburetes,
un modesto frutero que alguien hizo
con doméstico afán.
¿Dónde los niños,
dónde el padre y la madre arrulladora?
La tarde esplendorosa asoma añil y roja detrás de los vitrales.
Y pareciera que tanta paz, tanto silencio pesaroso,
fuera el golpe de Dios sobre la mesa.
 

Piedad Bonnett

  

Aqui dava o pai um murro na mesa, de ira,
fazendo tremer os vidros e saltar a sopa,
virava o jarro da sua autoridade e dos seus medos,
da sua ternura incapaz de meias tintas.
Apontava um dedo acusador e o silêncio
era como uma porta obstinada
defendendo do pranto as crianças.
Aqui agora há apenas uma mesa de cedro,
alguns bancos, uma fruteira feita por alguém
com doméstico afã.
Onde é que estão as crianças,
onde está o pai e a mãe protectora?
A tarde esplendorosa aparece nas vidraças
em anil e vermelho.
Dir-se-ia que esta paz toda, este pesaroso silêncio,
são como que o murro de Deus sobre a mesa.
 

(Trad. A.M.)

 .

14.2.25

Alessandro Parronchi (A meu pai, em sonhos)




A MIO PADRE, IN SOGNO


Sorridi un poco e te ne vai pensoso.
E ad un tratto con lacrime mi chiedo
quanto tempo è che al petto non ti stringo
non afferro da amico quelle braccia.
La memoria ha insensibili naufragi.
Scolora come il cielo di settembre
sotto il vento si popola di nubi.
Te ne vai. Quante cose all’improvviso
mi ritrovo da dirti… E resto muto.
Ma perché nell’istante che mi volto
non sei più là? Ci sono tante cose
da dirsi… Ed io ti chiamo ancora, e credo
che non può certo, questo, essere un sogno.


Alessandro Parronchi

 


Sorris um pouco e afastas-te pensativo.
E de repente eu pergunto-me em lágrimas
há quanto tempo não te abraço contra o peito,
não agarro esses braços com afecto.
A memória tem naufrágios imperceptíveis,
perde cor tal como o céu de Setembro
se povoa de nuvens com o vento.
Vais-te. Quantas coisas me ocorrem
para te dizer, subitamente… E fico calado.
Mas porque é que no instante em que me volto
já tu desapareceste? Há tanta coisa
para dizer… E eu chamo-te ainda, crendo
que não pode certamente, isto, ser só um sonho.


(Trad. A.M.)

.

2.9.24

Paul Bailey (Paixão)




PASSION

 

My father’s rolling a cigarette. My mother’s knitting.
There’s silence between them, except for the clickety-clack
of her needles. 

He pours himself another beer. She wonders why
without ever asking the question. He hears it even so
since he’s alert to all the things she doesn’t say. 

It’s now he calls her Woman. She loathes the word.
Woman, he snarls again. Be quiet, Woman.
She goes on knitting. 

I’m in the corner, reading. Although I’m only ten
they’ve named me the Professor. Neither of them knows
how much I see of their unhappiness 

as I look up from my book. I try to picture them
as they must have been once, desperate to clutch each other
like Romeo and Juliet in a place called Verona.
 

Paul Bailey

  

O meu pai enrola um cigarro. A minha mãe faz malha.
Silêncio entre eles, se exceptuarmos o clic clac
das agulhas. 

Outra cerveja para ele. Porquê, interroga-se ela,
sem nunca formular a pergunta. Mesmo assim ele ouve,
atento a tudo o que ela não diz. 

É então que ele lhe chama Mulher. Palavra que ela detesta.
Mulher, resmunga outra vez. Está calada, Mulher.
E ela a tricotar. 

No canto estou eu, a ler. Embora com dez anos apenas
chamam-me o Professor. Desconhecem ambos
quanto eu meu me apercebo da sua infelicidade 

ao erguer os olhos do livro. Tento vê-los
como devem ter sido um dia, mortos por se agarrarem,
Romeu e Julieta num sítio chamado Verona. 


(Trad. FJCC)

 .

5.2.24

Miguel Martins (Nem umas palavras)




(4)                                       

Nem umas palavras de despedida
nem “adeus”
Será que depois nos encontramos
na terra linda onde são as coisas que não são
sem medo do fim?
Já moras, Pai, com o teu Cristo
o Cristo que nos salvou a todos
por termos alguém como tu.
Nunca te disse bem quanto te amava
como te amo muito dentro de mim
na terra linda onde são as coisas que não são
com tanto medo de as perder.
Estar a fazer a barba, cair
e partir para o outro lado
sem dizer tudo o que é preciso.
Ou como tu ficar assim à espera
suspenso de nada
à porta de Deus como um pedinte
pedinte de Deus
que só nos pediste que fôssemos melhores
e talvez por isso nos dás ainda mais uns minutos
da tua eternidade.
Vai agora, parte por favor
vai viver com as estrelas e com a alma das flores.
Sei que todos os dias continuarás a madrugar
para colher os odores mais puros.
Já não são precisos sacrifícios
aí é tudo dado num natal perpétuo e permanente.
Até nós te nos vamos dar
como tu te nos deste, como te entregaste cada dia
de manhã à noite

a Mãe
a Paula
o Ricardo
e eu
(por outra ordem espero que não esta
que eu não aguento mais)
vamos voltar a tocar-te o cabelo
o cabelo mais lindo que conheço
e a beijar-te
(como é possível que beijos tão a medo
como os teus quisessem sempre dizer tanto?).

E olha que se eu aí chegar
a essa terra que não mereço
é mesmo só por ti
é para te ver e ficar espantado
como só nos espantamos com os anjos.
Adeus Pai
tem calma.
Eu pensarei em ti todos os dias.

MIGUEL MARTINS
Seis poemas para uma morte
(1995)

 .

29.11.23

Osvaldo Picardo (À pesca, com meu pai)

 


DE PESCA CON MI PADRE

 

Cae el anzuelo en el tiempo, a su tiempo.
Algunos peces morderán.
Salpicarán sus colores.
Veré en mis manos la desesperación:
sus ojos tan distintos e iguales como mundos acabados.

Cae el anzuelo y se lo olvida
largamente.
Algo podrido en el aire. Podrido
de algas, orines presurosos
y mejillones al sol.
Cruelmente afilado en el tiempo,
en la tanza tendida sobre el mar oscuro.

Siempre veníamos acá con mi padre.
En la barranca abandonada del kaiser
para mirar un instante, de pie, desde ahí,
las arenas gruesas de la playa
y el derrumbre encrespado de las olas.
Bajábamos con los pies desnudos
y el corazón apretado contra el mediodía.
La dirección del viento, las babas del diablo
y el revés del agua él sabía. Yo no.

Cae adentro y lejos, el anzuelo.
No hay otra manera
para que la carnada dé con la hoya escondida.
No es cuestión de tirar por tirar.
Hay que mirar
mirar la bajamar volviendo y ver entre
las rocas las plomadas oxidadas,
los collares de nylon: fracasos reconocibles,
propios.

El mar, siempre distinto -decía
no devuelve lo que se lleva.
Y siempre el aire olía así
entre una alegría de espinas y escamas.
Con él.
 

Osvaldo Picardo 

 

Cai o anzol no tempo, a seu tempo,
alguns peixes hão-de morder,
salpicados com suas cores.
E eu verei o desespero nas minhas mãos,
seus olhos tão iguais e diferentes
como mundos extintos.

Cai o anzol e esquecemo-lo 
longamente.
E no vento paira algo de apodrecido,
de algas, ouriços pressurosos
e mexilhões ao sol,
cruamente aguçado no tempo,
no fio de seda estendido sobre o escuro mar.

Vínhamos aqui sempre com meu pai,
primeiro na barraca abandonada do kaiser
para daí olhar em pé
as areias grossas da praia
e o ondular encrespado das vagas.
Descíamos então de pés nus
e o coração apertado contra o meio-dia.
A direção do vento, as babas do diabo 
e o revés da água, ele conhecia, eu não.

Cai dentro e distante, o anzol,
não há outro modo
para o isco penetrar na fossa submersa.
Não se trata de puxar por puxar,
Há que observar
,
observar a maré a vazar novamente e ver
entre as rochas as chumbadas oxidadas,
as cintas de nylon: fracassos próprios,
reconhecíveis.

O mar, diferente sempre – dizia –
não devolve aquilo que leva.
E o ar cheirava assim sempre,
numa alegria de espinhas e escamas.
Com ele.


(Trad. A.M.).


16.6.23

David González (O quebra-mar)




EL ROMPEOLAS     

 

mi padre
se levanta temprano cada mañana
para ir a nadar
para ir a nadar
a la piscina municipal en invierno
y a la del mar cantábrico en verano 

él se cree que así
me comenta mi madre, escéptica
no se va a morir nunca 

desde la ventana del estudio
donde me encierro a escribir
desde por la mañana temprano
y durante las cuatro estaciones
puedo ver la playa de mi padre
la arena que está pisando
y si tuviese a mano unos prismáticos
y forzara un poco la vista
podría, incluso, verle a él 

hace tiempo, años, que no le veo
ni hablo con él
ni siquiera por teléfono 

pero cuando luego
retiro mi frente del cristal
y acerco la silla
apoyo los codos sobre la mesa
y empiezo a escribir
lo hago con la confianza
y seguridad
del que se sabe
con las espaldas protegidas: 

su padre está ahí afuera,
nadando

y no se va a morir nunca.
 

David González

 

  

meu pai
levanta cedo todos os dias
para ir nadar
para ir nadar
no Inverno na piscina municipal
no Verão na do mar cantábrico 

ele julga que assim
diz-me, céptica, a minha mãe
não vai morrer nunca 

da janela do escritório
onde me meto a escrever
desde manhã cedo
e durante as quatro estações
eu consigo ver a praia do meu pai
e se tivesse uns binóculos
e forçasse um pouco a vista
podia mesmo vê-lo a ele 

há tempo, anos, que o não vejo
nem falo com ele
nem sequer por telefone 

mas depois quando
afasto a testa do vidro
e aproximo a cadeira
e começo a escrever
com os cotovelos na mesa
faço-o com a segurança
e confiança
de quem sabe que tem
as costas quentes: 

o teu pai está lá fora,
a nadar 

e não vai morrer nunca.
 

(Trad. A.M.)

.

3.8.22

Antonio Machado (Meu pai)




MI PADRE


Ya casi tengo un retrato  
de mi buen padre, en el tiempo,  
pero el tiempo se lo va llevando. 

Mi padre, cazador, – en la ribera  
de Guadalquivir ¡en un día tan claro! –  
– es el cañón azul de su escopeta  
y del tiro certero el humo blanco!  

Mi padre en el jardín de nuestra casa,  
mi padre, entre sus libros, trabajando.  

Los ojos grandes, la alta frente, 
el rostro enjuto, los bigotes lacios. 
Mi padre escribe (letra diminuta-) 
medita, sueña, sufre, habla alto.  

Pasea – oh padre mío ¡todavía  
estás ahí, el tiempo no te ha borrado!  
Ya soy más viejo que eras tú, padre mío, cuando me besabas.  
Pero en el recuerdo, soy también el niño que tú llevabas de la mano.  
Muchos años pasaron sin que yo te recordara, padre mío!  
¿Dónde estabas tú en esos años?”  


Antonio Machado 

[La ceniza en los dientes del lobo]

 

 

Tenho já quase o retrato
de meu pai, com o tempo,
mas o tempo vai-o levando.

Meu pai, caçador - nas margens
do Guadalquivir, um dia muito claro -
o cano azul da espingarda
e o fumo branco de um tiro certeiro.

Meu pai no jardim de nossa casa, 
meu pai, entre os seus livros, a trabalhar.

Olhos grandes, a testa alta,
o rosto enxuto, bigode liso.
Meu pai escreve (letra miúda-)
medita, sonha, sofre, fala alto.

Passeia - ah, meu pai, ainda estás aí,
o tempo não te apagou!
Eu sou já mais velho do que tu eras,
meu pai, quando me beijavas.
Mas na lembrança sou também o menino
que tu levavas pela mão.
Muitos anos passaram, meu pai, sem eu te lembrar!
Onde estavas tu, nesses anos?

(Trad. A.M.)

 .

27.5.21

José Ángel Cilleruelo (Despedida sem partida)




DESPEDIDA SIN MARCHA            

 

Abre los ojos para no ver nada.
Un niño que aún no la tiene,
se ha quedado sin lengua. Mira. Abre
los ojos. Y los cierra, sin idioma.
La enfermera le limpia, le retira
el pañal húmedo.
Un niño que su cuerpo no conoce,
que no sabe moverlo,
un coágulo con el que desaprende.
Abre los ojos para mirar nada,
sin respuestas, sin reconocimientos.
El oxígeno burbujea, único
lenguaje en el silencio
del cuarto. Y si los cierra
deja hueca la realidad,
desamparada.
Quién seré yo, al que aprieta
su mano, al que sus ojos nada dicen.
Qué será este lugar donde no ha entrado
por su pie. Tiempo que no le acoge.
Se presenta el neurólogo de guardia.
Quién seré yo que hablo
por lo que no consigue ni escuchar.
Yo, que oigo razones, diagnósticos, y digo
que entiendo sin entender.
Cuando abre los ojos y los cierra.
Un niño abandonado por su padre.
Que soy yo. También padre, ahora,
de mi padre.

José Ángel Cilleruelo

[Revista Turia]



Abre os olhos para não ver nada.
Criança que não a tem ainda,
ficou sem língua. Olha, abre
os olhos. E fecha-os, sem palavra.
A enfermeira limpa-o, tira-lhe
a fralda molhada.
Uma criança que não conhece seu corpo,
que não sabe mexê-lo,
um coágulo com que desaprende.
Abre os olhos para observar nada,
sem respostas, sem reconhecimento.
O oxigénio borbulha, única
linguagem no silêncio
do quarto. E se os fecha,
deixa a realidade vazia,
desamparada.
Quem serei eu, a quem aperta
a mão, a quem seus olhos nada dizem?
Que lugar será este, onde não entrou
por seu pé? Tempo que não lhe vale.
Entra o neurologista de serviço.
Quem serei eu que falo por
esse que não consegue sequer ouvir?
Eu, que escuto razões, diagnósticos, e digo
que entendo sem entender,
quando ele abre os olhos e depois fecha.
Uma criança abandonada pelo pai.
Que sou eu. Também pai, agora,
de meu pai.


(Trad. A.M.)

 

 >>  JAC (antologia) / El visir de abisinia (blogue) / Barcelona review (7p) / Zenda (5p) / Wikipedia

 .

29.8.20

Víctor Botas (Foste-te)




FOSTE-TE


Foste-te
quando eu mais precisava dos teus braços.
Porque me abandonaste precisamente então?
Porquê naquele momento decisivo?
Sei
que ninguém escolhe o quando de sua morte,
e que ninguém conhece os modos e lugares de morrer.
Mas tu... Tu devias ter feito um esforço!
Ter sobrevivido,
em vez de te entregares varado ao primeiro golpe,
à primeira carga.

Porque é que te foste, avô? Bem compreendo
que não me hás-de escutar,
que teus olhos, tua boca, tua palavra,
já não existem,
que apenas uma lembrança te constrói
boiando nos abismos da minha mente.

Assim é. Assim, mas apesar disso...
aí te vão meus versos, as estrofes
que dão vida ao poema congregadas
com palavras por meus dedos,
embalando um coração que não te olvida.

Porque te foste, avô, quando eu mais precisava,
quando mais requeria teu conselho,
teu ânimo firme, teu impulso generoso?

Passam os anos,
os dias como folhas vão caindo
de um outono lentíssimo... para me levar até ti.
Pois eu não sei esquecer-te,
porque não sei o que é o esquecimento.
Ah, se tu pudesses escutar! Ah, se pudesses!
(Mas escutas-me porventura. É tudo tão complexo...)

A Morte te fez em pedaços,
te arrancou os ouvidos pela raiz
- és agora como um deus, distante e surdo.

Por isso, quase rezando,
palavras que se enlaçam e desagregam,
hoje a ti, meu pai, ofereço este poema,
nascido da brasa que a tua lembrança acende,
de todo o amor que tu me deste,
do tão só que eu ando, dos silêncios
que me foram dia a dia coroando
com seu ramo de dor, de dúvida, de esperança.


Víctor Botas

(Trad. A.M.)

.

23.8.20

Manuel Rico (Aquele Junho maldito)





AQUEL JUNIO MALDITO



Fue una primavera mejor de lo esperado.
Muchos años después, quizá una eternidad
más tarde de tu sueño
—roto, como la juventud, por tiempos de ceniza—
volvió la claridad: Madrid era una fiesta.
Otra vez era abril y era en mil novecientos
setenta y nueve: yo te supe, padre,
redimido, cercano a la quimera
que fermentó en tu noche de terror y de frío.

Fue un abril diferente sin embargo.
Las esquinas ardían de palabras
ocultas desde antiguo en desvanes en sombra.
Bebiste de su luz. No estabas solo.
Contigo la bebimos los más jóvenes.
Tu mirada de asombro aún puedo contemplarla
en esa latitud, que a la muerte traiciona,
de la fotografía:
la tengo frente a mí.
Es un dolor de piedra contra la madrugada.

Mas huyeron los días de aquella primavera
hasta estancar la luz en un junio maldito.
Fue en la noche, cuando huelen
las madreselvas y los amantes buscan
la oscuridad del descampado, las viejas estaciones solitarias
y el verano prepara su cielo más estricto.

El aire, en un instante, mudó en nieve. Y el abismo
se apropió de tu voz y la hizo suya.
La primera conciencia de la muerte
vino, padre, a traición, a visitarme,
y volvieron el frío y la ceniza,
y viajaste a esa patria
donde las flores muertas nos hablan del vacío.

Han pasado los años, muchos años.
Todavía huelo los algodones
y el aire absorto de la madrugada,
y escucho todavía tu voz quebrada y última, esa voz
que me arrancaba el mundo
que los dos levantamos contra la soledad, contra el silencio
de los días difíciles, que me entregaba
una orfandad adulta tan de pronto,
un desierto de sueños, el llanto seco
frente al absurdo.

Pero hoy, padre, regresas. Sin avisarme, abriendo el toldo
de esta noche penúltima del año,
como si nada hubiera ocurrido entre nosotros, como
si en este tiempo interminable
se hubiera convertido mi orfandad
en un lugar soñado.

Manuel Rico

[Trianarts]



Foi uma primavera melhor do que se esperava.
Muitos anos depois, talvez uma eternidade depois do teu sonho
- desfeito, como a juventude, por tempos de cinza -
a claridade voltou, Madrid era uma festa.
Era Abril de novo, em 1979, e eu soube-te, pai,
redimido, próximo da quimera
que fermentou na tua noite de terror e de frio.

Foi um Abril diferente, contudo.
As esquinas ardiam de palavras ocultas
há muito em desvãos de sombra.
Bebeste-lhe a luz, não estavas só,
nós bebemo-la contigo, os mais jovens.
Teu olhar assombrado posso ainda contemplá-lo
nessa pose, que trai a morte,
da fotografia: tenho-a à minha frente.
É uma dor de pedra contra a madrugada.

Mas os dias dessa primavera fugiram
até a luz estancar num Junho maldito.
Era de noite, quando cheiram as madressilvas
e os amantes buscam o escuro do descampado,
as velhas estações solitárias,
e o verão prepara seu céu particular.

O ar, num instante, mudou para neve. E o abismo
apropriou-se da tua voz e fê-la sua.
A primeira consciência da morte
veio então, pai, visitar-me, à traição,
e voltaram o frio e a cinza,
e tu foste em viagem a essa pátria
onde as flores mortas nos falam do vazio.

Os anos passaram, muitos anos,
ainda cheiro os algodões
e o ar absorto da madrugada.
e escuto ainda tua voz quebrada e derradeira, essa voz
que me arrancava o mundo
que ambos erguemos contra a solidão,
contra o silêncio dos dias difíceis,
que me entregava uma orfandade adulta tão de repente,
um deserto de sonhos, o pranto seco
ante o absurdo.

Mas hoje voltas, pai. Sem avisar, abrindo o pano
desta penúltima noite do ano,
como se nada tivesse ocorrido entre nós,
como se neste tempo interminável
minha orfandade se tivesse convertido
num lugar sonhado.

(Trad. A.M.)

.

29.11.19

Ana Pérez Cañamares (Meu pai)





MI PADRE LUCÍA JUNTO AL OMÓPLATO
una esquirla de metralla.
Apenas un niño cuando los aviones
atacaron al ganado que cuidaba
y que nunca sirvió de suministro
para los soldados republicanos.

De pequeña yo jugaba con ella
la desplazaba unos milímetros
con mi dedo omnipotente.
Y al tocarla escuchaba los aviones
veía a los terneros reventados
-el terror en sus ojos suplicantes-
y un niño al que la muerte
marca con su hierro.

Mi padre cargaba en sus espaldas
una guerra que no terminó nunca.


Ana Pérez Cañamares




Meu pai tinha num ombro
uma lasca de metralha.
Era quase uma criança quando os aviões
atacaram o gado que ele guardava
e que não era para abastecer
os soldados republicanos.

Eu brincava com ela em pequena
e mexia-a alguns milímetros
com meu dedo omnipotente.
E ao tocar-lhe escutava os aviões,
via os bezerros rebentados
-com o terror nos olhos suplicantes-
e um menino marcado
pela morte com seu ferro.

Essa guerra que meu pai trazia às costas
não terminou nunca.

(Trad. A.M.)

.

26.8.19

Pedro Andreu (Minha casa cheira a morto)





MI CASA HUELE A MUERTO



Hace ya siete años que mi padre
vive muerto en mi casa. Me sonríe sin dientes
cuando pongo la tele, me cambia de canal por fastidiarme.
Me la apaga. Se queja si cocino y no le sirvo plato,
aunque los dos sepamos que los muertos no comen.
Hace ya siete años que me fuma en el baño.
Sus cigarrillos negros apestan el pasillo,
el ascensor, armarios. A pesar de mis súplicas,
mis quejas. ¡Ni en paz cagar se deja en esta casa
a los muertos, pues vaya educación!, me echa en cara.
Hace ya siete años que duerme en el salón.
Mi padre muerto. Sus ronquidos me pueden
y salgo al comedor y grito basta. Él se ríe
y aflojo y terminamos hablando de la vida
hasta las tantas y él me dice esas cosas que dice:
mira, hijo mío, me vivo de la risa
con tus preocupaciones. O si no: mira, hijo,
la muerte no es tampoco para tanto,
mejor tomarla a broma que demasiado en serio.
A veces me lo encuentro en la nevera
echándose la siesta entre yogures.
Es que es verano, dice. Y ya no aguanto más
y exijo que se largue. Pero jamás me escucha,
se pone con sus cosas tan de muerto, se hace el zombi
por sacarme de quicio. Sabe que no me gusta.
Le digo que mamá se enfadaría, que
esto no es muy normal, que debería estar
en una urna negra en casa de su esposa,
como los otros padres que se han muerto.
Pero no me hace caso. Él siempre va a la suya.

Hace ya siete años que revuelve mis cosas,
me esconde los apuntes de Barroco, usa mi ropa,
me vuelve del revés los calcetines, los despareja.
Y si le digo algo, sale por la tangente:
me echa en cara que no lo saco a pasear como antes,
que me entretengo al salir del trabajo,
que no lo llevo al bar cuando juega su Atleti,
que lo echo del cuarto cuando me traigo amigas.
Un par de veces lo he puesto de patitas en la calle.
Pero es testarudo. Se queda tras la puerta,
toca al timbre con esa eterna persistencia de los muertos.
Yo trato de no abrirle, le grito que estoy harto,
que se marche, que se largue de viaje, que me olvide.
Pero no me hace caso. Él nunca me hace caso.
Como un perro se sienta y aúlla hasta que vence
y le ruego que pase. Pero esta vez se fue
como no se fue otras. Discutimos más fuerte.
Le dije que esto y que lo otro, que a veces
fue un mal padre, que faltaron quizás
más tardes junto a mí cuando era un crío,
que si esto y si lo otro y lo de más allá
y no sé qué le dije de cuando era niño
y nos llevó a una playa y nos gastó la broma
de dejarnos allí y largarse en su coche
y hubo que volver caminando hasta casa.
Se ve que le dolió. Que le dolió de veras
como a veces les duelen las cosas a los muertos.
Agachó las orejas, el rabo entre las piernas,
arrojó al cielo raso un puñado de moscas
de su boca. Se me marchó en silencio
escaleras abajo. No esperó el ascensor.

Siete años de tapas levantadas, de mordernos
como se muerden padre e hijo, vivo y muerto,
mañana tras mañana. Y ya van dos semanas
sin que apague mi tele ni cambie de canal por fastidiarme.
Dos semanas sin nadie escondiéndome llaves.
Y ahora echo de menos a los pies de mi cama
sus pellizcos fantasma. Sus ronquidos de noche.

Y me digo que no, que no tenía derecho,
que él era mi muerto y yo su vivo,
que eso es importante. Que le he fallado igual
que me falló él a mí, aquel verano
que me dejó olvidado en una playa.
Hasta he pensado en llamar a mis pobres hermanas,
por si se fue con ellas; preguntar a mi madre,
empapelar el barrio con carteles:
se busca padre muerto. Y me da por llorar
como lloran los vivos cuando pienso en las calles,
que es invierno, que se fue sin chaqueta, que la muerte es helada,
que no tiene dinero para comprar tabaco,
que qué será de él sin mí, que soy su vivo.
Y he llegado a pensar sino será el Gobierno.
Igual han recortado: como recortan sueldos, derechos,
sanidades, educación, cultura, amores… Será eso:
al Gobierno le ha dado por recortar en muertos.
Pero eso sí que no. Eso no. Por ahí no pasamos.
Mañana al levantarme empiezo una. Papá se la merece.
Haré revolución, desmontaré el Estado. Vendrán conmigo
muchos. No estoy solo. Todos tenemos muertos.
No saben lo que han hecho. Que nos tengan cuidado.
Mañana por la tarde triunfará la insurgencia
y luego volveré a casa con mi padre del brazo
a discutir de nuevo, a levantar la tapa él
y yo a bajarla, a robarnos el mando de la tele
el uno al otro, a hablar hasta las tantas,
a emborracharnos y celebrar por fin
que él es mi muerto y yo su vivo, qué carajo,
y que ningún gobierno, ningún mundo asqueroso,
podrá echarnos por tierra siete años.


Pedro Andreu

[Facebook]




Há sete anos já que meu pai
vive morto em minha casa. Sorri para mim
sem dentes quando ligo a TV, muda-me de canal
para me chatear, desliga-ma. Queixa-se se eu cozinho
e não lhe ponho prato, apesar de sabermos ambos
que os mortos não comem.
Há já sete anos que me fuma no banheiro,
e os seus cigarros negros empestam o corredor,
o elevador, os armários. Apesar dos meus rogos
e das minhas queixas. Chiça, atira-me ele à cara,
já nem deixam os mortos cagar nesta casa,
haja educação.
Há sete anos já que dorme na sala,
meu falecido pai. Os seus roncos enervam-me,
abro a porta e grito 'basta'. Ele ri-se,
eu acalmo e acabamos a falar da vida
até às tantas, onde ele me diz aquelas coisas
que diz: olha, meu filho, eu vivo de riso
com as tuas preocupações. Ou então:
olha, filho, a morte também não é nada de mais,
melhor levá-la a brincar que muito a sério.
Às vezes vou encontrá-lo no frigo
a dormir a sesta entre os iogurtes.
É que é Verão, diz ele. Eu passo-me
e exijo que se vá, só que el nunca me ouve,
põe-se com aquelas coisas de morto, faz de zombi
para me tirar do sério, pois sabe que eu não gosto.
Digo-lhe que a mamã se incomodaria, que
isto não é lá muito normal, que ele devia era estar
numa urna preta em casa da esposa,
tal como os outros pais falecidos.
Mas ele não me liga, fica sempre na sua.

Há sete anos já que me remexe as coisas,
me esconde os apontamentos de Barroco, me usa a roupa,
vira-me as peúgas do avesso, desparelha-as.
E se eu lhe digo alguma coisa, desvia-se,
atira-me à cara que eu não o levo a passear como antes,
que me entretenho no fim do trabalho,
que não o levo ao bar quando joga o clube dele,
que o imponto do quarto quando venho com amigas.
Um par de vezes pu-lo na rua,
mas é cabeçudo, mete-se à porta
e toca à campainha com a teimosia própria dos mortos.
Eu não abro e grito-lhe que estou farto,
que vá embora, que parta em viagem, que me esqueça.
Mas ele não me liga, ele nunca me liga,
senta-se como um cão, põe-se a uivar até ganhar
a dele e eu dizer-lhe que entre. Mas desta vez ele foi-se
como não se foi das outras. A discussão foi mais longe,
eu disse-lhe isto e aqueloutro, que ele foi
às vezes mau pai, que fizeram falta talvez
mais tardes comigo em criança
e que mais isto e mais aquilo
e nem sei que lhe disse de um dia
nos levar à praia e dar-lhe na bolha
de nos largar ali e ir embora no carro
e nós termos de ir a pé sozinhos para casa.
Via-se que lhe doeu, que lhe doeu deveras,
como às vezes doem as coisas aos mortos.
Baixou as orelhas, de rabo entre as pernas,
atirando da boca um punhado de moscas
para o céu. E foi-me pela escada abaixo,
retirando em silêncio, nem mesmo esperou pelo elevador.

Sete anos de tampas erguidas, de nos ferrarmos
como se ferram pai e filho, um vivo outro morto,
manhã após manhã. E já lá vão quinze dias
sem me desligar a TV ou mudar de canal para chatear,
quinze dias sem me esconder as chaves.
E agora sinto falta dos seus beliscos
aos pés da cama, dos seus roncos de noite.

E digo cá para mim que não, não há direito,
que ele era o meu morto, assim como eu o vivo dele,
e que isso era importante. Que também eu lhe falhei,
como ele me falhou a mim, naquele Verão
em que me deixou na praia esquecido.
Até cheguei a pensar em falar às manas,
se calhar foi com elas; perguntar à minha mãe,
encher o bairro de cartazes:
procura-se um pai morto. E dá-me para chorar
como choram os vivos, quando penso nas ruas,
que é Inverno, que ele saiu sem camisola, que é gelada a morte,
que ele não tem dinheiro para tabaco,
o que será dele sem mim, que sou o vivo dele.
E cheguei a pensar se não será o Governo,
eles cortam tudo, cortam salários, direitos,
saúde, educação, cultura, amores... Se calhar,
deu-lhes agora para cortar nos mortos.
Ah, mas essa não, essa não, aí não admitimos.
Amanhã ao erguer-me vou começar uma (o meu paizinho merece...),
começo uma revolução, desmonto o Estado.
Muitos virão comigo, não estou só, todos nós temos mortos.
Não sabem o que fizeram, que se acautelem,
amanhã tarde vai triunfar a insurreição,
depois virei para casa com meu pai debaixo do braço,
a discutir novamente, a erguer a tampa ele
e eu a baixá-la, a roubar um ao outro
o comando da TV, a parlar até às tantas
a emborrachar-nos, a celebrar por fim
eu ser o seu vivo e ele o meu morto, cum caracho,
e que nenhum governo, nenhum mundo asqueroso,
há-de lançar-nos a terra sete anos.


(Trad. A.M.)

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22.6.19

Carmelo Guillén Acosta (Imagem sentimental)




IMAGEN SENTIMENTAL DE MI PADRE



Y a los ojos me viene su presencia,
del patio al corazón, del corazón
al compromiso. Lo confieso: el tono
es diferente cuando hablo de él.
Y sigue vivo; y sigue enamorado
de mi madre; y a su hijo, por mucho
que le diera por oírlo, lo quiso
más que a él.
Cuando me acerco a verlo,
me exige que la cuide, que es mi madre,
y a él, que no me olvide de llevarle
las flores de los muertos, que a los muertos
se les honra con flores. ¡Qué de veces
me lo viene diciendo!:
no te olvides
ni en la vida ni en la muerte de aquel
dulce deber: el cuarto mandamiento.


Carmelo Guillén Acosta

[Autorretrato]





E até aos olhos me chega sua presença,
do pátio ao coração, do coração
ao compromisso. Confesso, o tom
é diferente quando falo dele.
E continua vivo; e continua enamorado
de minha mãe; e ao filho, digamos,
amou-o bem mais que a si mesmo.
Quando vou vê-lo,
recomenda-me que dela cuide, que é minha mãe,
e quanto a ele não me esqueça de levar-lhe
as flores dos mortos, que os mortos
honram-se com flores. Quantas vezes
mo vem dizendo:
não te esqueças,
seja em vida ou na morte, daquele
dever sagrado, o quarto mandamento.

(Trad. A.M.)

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19.2.19

José Antonio Labordeta (Os caminhos)





LOS CAMINOS



Los caminos se hacen vertiginosos
los días en que el viejo patriarca
deambula por los largos pasillos
de la casa arruinada.
Como puros fantasmas
los hijos contemplamos
la terrible debacle de la historia.
Ni una pequeña alegría
en el destartalado balcón
de los vecinos.
Solo el tiempo victorioso
en los ojos amargos del recuerdo.

José Antonio Labordeta




Os caminhos tornam-se vertiginosos
nos dias em que o velho patriarca
deambula pelos longos corredores
da casa arruinada.
Como puros fantasmas
nós filhos contemplamos
a terrível derrocada da história.
Nem uma alegriazita
na desconjuntada varanda
dos vizinhos.
Só o tempo vitorioso
nos olhos amargos da memória.

(Trad. A.M.)

20.1.19

Antonio Fernández Lera (Casa só)




CASA SOLA

            (A mi padre, cuatro meses después)


1
Todas las palabras, hoy,
más vacías que nunca,
menos tu voz
pequeña y dulce.
Todo el mar en el mundo
menos que tu voz
y que el agua en tus labios.
Tu boca y tus ojos el refugio
que más necesito: el exacto refugio,
siempre y ahora.


2
Luz muy suave
pero ignoro si entre sombras
(palabras inútiles)
y el resplandor del sol
o entre los ecos de la lluvia
y el rescoldo tranquilo de tus ojos
voy a ser capaz de seguir escribiendo
cuando el recuerdo sigue siendo más fuerte
que todos los futuros.


3
El otoño está siendo
triste y un poco absurdo.
Nada es extraño ni especial.
El verano
devora las cosas
y luego desaparece
y en las miradas queda un sendero hacia adentro
y en la risa una tos de tristeza y agobio
y nos quedamos quietos
–y sin saber qué hacer–
sin tu risa y tus ojos.
 
   (...)

Antonio Fernández Lera



1
Todas as palavras, hoje,
mais vazias que nunca,
menos tua voz,
doce, pequena.
Todo o mar no mundo
menos que tua voz
e a água em teus lábios.
Tua boca e teus olhos,
o refúgio que mais necessito,
o exacto refúgio, sempre e agora.


2
Luz suavíssima,
mas ignoro se entre sombras
(inúteis palavras)
e o esplendor do sol
ou entre os ecos da chuva
e o sereno calor de teus olhos
serei capaz de continuar a escrever,
quando a lembrança é ainda mais forte
que todos os futuros.


3
O outono vai triste
e um pouco absurdo.
Nada de estranho nem especial.
O verão
devora as coisas
e desaparece a seguir
e fica nos olhares um carreiro para dentro
e assim no riso uma tosse de tristeza e angústia
e nós ficamos quedos
- e sem saber que fazer -
sem teu riso e teus olhos.
   (…)

(Trad. A.M.)

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28.6.18

Antonio Porchia (Meu pai)






Mi padre, al irse, regaló medio siglo
a mi niñez.



Antonio Porchia




Meu pai, ao morrer,
ofereceu meio século
à minha infância.


(Trad. A.M,)

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9.6.18

Álvaro Valverde (Junto desta cama de hospital)






Junto desta cama de hospital,    
utilitária e branca, em que agora
descansa o corpo doente do meu pai,
neste mesmo sítio onde agora
eu mesmo estou sentado,
esteve um dia ele
 velando o seu.
Recorda-mo às vezes, lá pela noite,
quando apagam as luzes do corredor
e se ouvem os passos silenciosos
do pessoal de vigia
e a tosse do vizinho e o gemido longínquo
de alguém que sofre alheio
no quarto do fundo.
Em voz baixa, conta outras noites de insónia
semelhantes a esta,
ainda que ele não fosse então
o sujeito passivo dos meus inábeis cuidados
e somente o representante dessa força
que sem dúvida tiramos da fraqueza
para poder estar à altura
de tão penoso acontecimento.
Entre duas luzes,
com a respiração forçada do oxigénio,
enquanto altera as doses no conta-gotas,
penso em mim por momentos
e, sem querer,
vejo-me a mim mesmo
estendido nesta cama,
e, ao meu lado, sentado, como eu,
na mesma cadeira,
um dos meus filhos segurando
com muita força a minha mão.



Álvaro Valverde


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4.6.18

Alfonso Costafreda (Eu pergunto)





YO PREGUNTO



Ha muerto mi padre.
Se repite su ausencia cada día
en el hogar vacío.
Yo pregunto,
y además de la ausencia y además
de perder los caminos de esta tierra,
¿qué es la muerte?

Yo te pregunto, padre, ¿qué es la muerte?
¿Has hallado la paz que merecías?
¿Encontraste cobijo en nueva casa
o vas errante, y sufres bajo el frío
del invierno más grande, del total
desamor?

Yo te pregunto, padre, si son algo
los muertos, o si la muerte es sólo
una inmensa palabra que comprende
todo lo que no existe.


Alfonso Costafreda





Meu pai morreu,
cada dia se repete sua ausência
no lugar vazio.
E eu pergunto
o que é a morte,
para além da ausência
e de se perderem os caminhos da terra?

Pergunto-te, pai, o que é a morte?
Achaste tu a paz que merecias?
Encontraste abrigo em nova casa
ou erras por aí, sofrendo o frio
do inverno maior, do total
desamor?

Pergunto-te, pai, se os mortos
são algo, ou é a morte apenas
uma imensa palavra abarcando
tudo o que não existe?

(Trad. A.M.)

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16.3.18

Jacob Iglesias (5-Setermbro-2008)





5 -SEPTIEMBRE-2008



Catorce años después,
cuanto queda de mi padre es una sucesión
de imágenes
inconexas, y cada vez más huecos,
y algunos recuerdos minuciosos,
sobre todo de aquellos últimos meses.
Me ha costado todos estos años aprender
que cuando la memoria se convierte
en un rastro que conduce a ninguna parte,
sólo puede aliviarnos
esta liturgia de acercarnos al cementerio,
limpiar de tierra y excrementos de pájaro
la lápida, maldecir que haya más líquenes
en la inscripción y arrancar los hierbajos
que han ido creciendo.
Atar luego a la cruz unas flores de plástico
y dejar tumbado en la tierra
un ramo de claveles. Y rezar,
sin devoción, pero por si acaso,
un padrenuestro
por la vida eterna en que él confiaba.


Jacob Iglesias





Catorze anos depois,
tudo o que resta de meu pai é uma sucessão
de imagens
desconexas, espaços vazios
e algumas lembranças minuciosas,
mais daqueles últimos meses.
Custou-me aprender nestes anos todos
que quando a memória se converte
num rasto que não leva a lado nenhum,
só nos alivia
esta liturgia de passar no cemitério,
limpar a lápide das cagadelas dos pássaros,
praguejar de haver mais líquenes
na inscrição e arrancar os argalhos
que foram crescendo.
Prender depois na cruz umas flores de plástico
e deixar na terra caído
um ramo de cravos. E rezar,
sem devoção, mas por cautela,
um padre-nosso
pela vida eterna em que ele confiava.

(Trad. A.M.)


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