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19.7.23

Rui Pires Cabral (Qual é a tua razão de ser)

 



QUAL É A TUA RAZÃO DE SER?

 

À vinda do supermercado
 diz-me o pequeno monstro
que às vezes me faz companhia:
 «E qual é a tua razão de ser?»

 Na rua, a tarde rola devagar
entre prédios murchos — e ele
 acrescenta: «Não me digas
que são os versos.»

 E ri-se .

 Rui Pires Cabral

.

29.12.15

Rui Pires Cabral (Basta de elegias)





Basta de elegias às cidades brancas
do fim do Verão. As luzes secaram
dentro das palavras, já nada
as instiga – e que importa, afinal?

Seja como for, tive pouca fé
e más companhias do melhor que há:
amores viajantes, livros emprestados
(tudo é emprestado, se formos a ver),

amigos seguros e outros que o não
foram, nem tinham de ser. Uma coisa
é certa: a hora passou e os versos
murcharam. Deixai-os morrer.


Rui Pires Cabral

[Hospedaria Camões]

.

11.7.14

Rui Pires Cabral (Meu amigo)





MEU AMIGO



Depois de tudo, no vazio
da manhã inabitável,

ajuda-me a negar
este remorso:

eu só queria uma canção
que não morresse

e a hipótese de um poema
que não fosse

o lugar onde me encontro
uma vez mais,

sem desculpa, sem remédio,
diante de mim mesmo.


Rui Pires Cabral

[A casa que caminha]

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9.2.14

Rui Pires Cabral (Nocturno com aviões)





NOCTURNO COM AVIÕES



Não estejas só. Tu também és
o que já foste e o que esperaste
vir a ser. A manhã que se aproxima

há-de passar, não importa. Para já,
os diligentes aviões de madrugada
sobrevoam o desenho das colinas

de Lisboa - e cá dentro, muito fundo,
numa redoma de música, os amigos
ainda bebem para esquecer

o futuro, que outro remédio
não têm, se a hora não se repete
e a vida é só esta espuma.

Rui Pires Cabral


[Os livros tristes]


.

3.9.13

Rui Pires Cabral (Outro castelo)





OUTRO CASTELO



A melhor parte da minha juventude
entreguei-a à imatura ambição
da arqueologia, aos dias passados
na serra entre ruínas crestadas
pelo resplendor de Agosto.
Algumas fotografias sobrevivem
dessa época, mostram muros
derruídos e esconsos alicerces
ou túmulos cavados em penedos
com uma régua de desenho
para escala: não tinha então
do tempo ou da morte
uma ideia mais própria
e imediata.

              Ao revisitar convosco
um dos perdidos castelos
desses anos, quase me doeu
que aquela beleza inteira
pudesse ter persistido
na sua inalterada solidão,
enquanto o verde do planalto
estendia o mesmo sossego
em todas as direcções.
Ali em cima, afinal,
a única mudança
estava em mim –

                    e a vossa presença,
amigos feitos noutra terra
e noutra idade, tornava
mais exacto o sentimento
de ter regressado irreconhecível
a um lugar do meu passado,
apenas para adivinhar
uma distância que não se vence
e o espectro de outro castelo
ao qual não é possível regressar.


Rui Pires Cabral


[Hospedaria Camões]

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18.3.13

Rui Pires Cabral (A secção dos congelados)





A SECÇÃO DOS CONGELADOS



Truncadas, indefinidas, passam
na memória como filmes mudos
pequenas histórias de amor
carnal. Os grandes caudais da noite
sempre desaguam na tarde salobra
e rasa: Janeiro amolece a tinta
das paredes, levamos à rua uma cara
mais fechada, e depois, na secção
dos congelados, não sabemos distinguir
o que sentimos além do frio que represa
as coisas todas: caminhamos sós


num privado bosque, convocamos
sombras que foram perdendo o nome,
sinais que não transportam já
um sentido automático de desejo
ou sofrimento. E contudo, à revelia
das certezas que não quiséramos ter,
acabamos sempre por tornar
às mesmas ruas, à noite insone
e imensa, onde nos dói descobrir,
na companhia dos outros,
o quanto nos reclama a solidão.


Rui Pires Cabral


[Luz & sombra]

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9.5.12

Rui Pires Cabral (O fim da aventura)






O FIM DA AVENTURA




À tarde sento-me no jardim do bairro
onde os lódãos acolhem melros
e enchem de sementes as inférteis
alamedas de alcatrão.


É o primeiro domingo sem ti,
em tudo igual aos outros domingos:
ruas despovoadas, grades nas montras
escuras, um pacato mundo de vizinhos
temporariamente ausentes.


Deixo-me ficar ao frio um bom bocado,
distraído pelo fútil desejo de ser
o próximo estranho que atravesse
a rua, de não ter sequer o abrigo
dum nome.


E, de súbito, ei-la que regressa,
após meses de remanso em parte
incerta: conjurei a sombra azeda
que me sussurra ao ouvido.


Cá está ela, sim, íngreme
e sedenta.


A poesia.


Rui Pires Cabral


[O poema que hoje partilharia com vocês]

.

25.8.11

Rui Pires Cabral (Entretanto)






ENTRETANTO





Não há que ter ilusões:
nós também somos

o fim da nossa estrada.
Com estas mãos,

com este mesmo coração
é que chegamos

ao cabo do futuro,
à extrema situação

de que partimos.
Mas, entretanto,

escrevamos.


Rui Pires Cabral


[Hospedaria Camões]


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21.7.11

Rui Pires Cabral (Not likely to be here)






NOT LIKELY TO BE THERE, IF STILL ALIVE



Primeiro quarto em Lisboa
onde vivi oito meses: da janela
sobre o beco via o tráfego nocturno
entre muros com recados e desenhos
obscenos, sob o castigo da música
de um bar entretanto extinto.
O lugar era assombrado


pelo cheiro da doença
e o velho senhor da casa, sentado
junto ao retrato do que fora
aos vinte anos, guardava a sua
distância: lacónico, preocupado,
quase não saía à rua, as tardes
passava-as de chinelos


e roupão. Mas era um homem
cortês, e no meu último dia
deu-me um livro do Eugénio
que mantinha à cabeceira, esquecido
por outro hóspede "dado às letras"
como eu. Penso muitas vezes nele
e naqueles que lá moravam


em plenos anos noventa, gente
que eu só encontrava a desoras,
na cozinha, à volta do frigorífico
de serventia comum. Era no tempo
dos versos que levavam a outras
praças — chegava tarde do Bairro,
o torpor entre as paredes


incitava à procura das palavras
de um poema que me ajudasse
a mudar. E quando me lembro disso
penso no muito que quis encontrar
uma saída, e nas portas que fechei
e nas esperanças que traí desde então
na minha vida.



RUI PIRES CABRAL
Oráculos de Cabeceira
Averno (2009)


[O melhor amigo]


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8.3.11

Rui Pires Cabral (Fotografias)






FOTOGRAFIAS




Nesta vida — é um facto — estamos sempre
a desaprender coisas novas. O mundo
vai guardando a luz nas suas bainhas negras
e temos a melindrosa companhia dos fantasmas
que nos procuram: eles governam rudemente
os nossos pequenos reinos e há um ceptro novo


para cada coroação. De repente, com a volta
das estações, damos por nós muito mais velhos
nas fotografias. As razões que nos assistiam
empalidecem em paisagens cruelmente coagidas
pela luz. Fomos expulsos dos grandes palácios


da alegria? Onde estão os mapas que nos guiavam
lá dentro, exactos como o instinto? Não sabemos
responder: o caminho turva-se: são as incertezas
da maturidade. As palavras não nos iluminam
e o amor está condenado aos defeitos naturais
do coração, que ainda assim há-de voltar a arder


sem defesa nem socorro uma vez mais.


Rui Pires Cabral





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23.8.10

Rui Pires Cabral (Amigos perdidos)






AMIGOS PERDIDOS




Os amigos levados pela vida
são os mais difíceis de aplacar, os mais
tiranos. Bárbaros de um país desconhecido,
bebem à taça os venenos do silêncio e crescem
desmedidamente na distância, desentendidos
da nossa solidão. E pensar que já fomos
irmãos de armas, que desenterrámos tesouros
nas mesmas ilhas, nos livros
mais inóspitos. Como são as coisas.
Terá sido tudo em vão? Dir-se-ia
que estávamos predestinados às mesmas
canções, a uma espécie mais certa de amor.
Pois sim. Nem sequer compreendemos
o que nos aconteceu.



RUI PIRES CABRAL
Praças e Quintais
Averno, 2003


[Lugares Mal Situados]

.

13.7.10

Rui Pires Cabral (Big night)






BIG NIGHT




A noite em que nos sentámos no muro
entre os quintais. O mundo estava aninhado
sob o tecto dos teus sentidos, recuava
à posição pouco óbvia
de um jardim.


Vinhas com o tempo certo sobre
as silvas, já punhas o amor a arder
nos canteiros. Não valia a pena explicar
uma coisa tão rara.



Rui Pires Cabral

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25.5.10

Rui Pires Cabral (Trânsito de sentido único)







TRÂNSITO DE SENTIDO ÚNICO




Ao nascer do Sol descemos à praça
por desfastio ou engano: a noite,
que parecia eterna, termina agora
com um intragável gosto a cinza,
a quase nada.


A experiência, o nosso obstáculo.


Nas janelas de um autocarro
os madrugadores de cara lavada
guardam o segredo de uma sorte
que nunca pudemos seguir.
Mesmo assim, enternecem-nos:
ao fim de décadas de solidão
e desastres, ainda acreditam
no mundo. E, vendo bem,
por que não?


A alternativa não é grande coisa.



RUI PIRES CABRAL
Capitais da Solidão
Teatro de Vila Real
(2006)




[Lugares Mal Situados]

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15.4.10

Rui Pires Cabral (Gnossienne n.º 1)






GNOSSIENNE Nº 1




Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento. Uma distância que só serviria
aos lobos, um mau caminho arrancado às fragas.


Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava. Às vezes era só
a minha vontade, outras vezes era toda a frase
do meu nome.



Rui Pires Cabral

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11.3.10

Rui Pires Cabral (Não há outro caminho)






NÃO HÁ OUTRO CAMINHO



Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.


Rui Pires Cabral

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26.1.10

Rui Pires Cabral (Nunca se sabe)






NUNCA SE SABE




Papéis velhos com poemas: são o joio
das gavetas. Relê-los causa aversão
e uma espécie de tristeza arrependida –
são tão nossos como as más recordações
e ainda vemos a circunstância precisa,
a causa, a ferida, por detrás de cada um.


Mas na altura havia esperança: é isso
que representam. Não pelas coisas que
dizem – é só descrença e fastio – mas
pela simples razão de termos querido
guardá-los. Com um pouco mais de alento,
de inspiração e trabalho, ainda se endireita
isto. Ou seja, os versos. E até a vida.



RUI PIRES CABRAL
Oráculos de Cabeceira
Averno, 2009



[Lugares Mal Situados]