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13.10.17

Luís Quintais (Ética)






ÉTICA



Vou falando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitado pelo pensamento.


Luís Quintais




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27.6.17

Luís Quintais (Ética)





ÉTICA



Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.


Luís Quintais


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20.3.16

Luís Quintais (Ílion)






ÍLION


I

O que se conta em Ílion
não é da perfeição
de hexâmetros,
mas da destruição
da cidade,
da impotência de deuses,
homens, bichos.
Padrões
não modelam
sagazmente
a morte.
Tudo é erro, soberba, acidente.


II

Quando Heitor foi morto por Aquiles
e em ira finalmente desatada
seu corpo arrastado ao redor da muralha de Ílion,
uma mudez percorreu o mundo.
De escândalo se arrepiaram os deuses
e as palavras, antes apetrechadas de asas,
cessaram de habitar o nosso sangue
como chama e sombra
do que profetizámos ser.
Sobre a minha mesa está a segura soberania
da violência insistente, nó
que se derrama como líquido metal, negro desígnio.
Porque morremos? Porque matamos
depois do arrepio dos deuses
e dos símbolos sepultados?
Repõe-se a ferocidade em nós,
equilíbrio dinâmico, proporção
que a si mesma se mede e se mutila.


III

Um cavalo fala,
profetiza a morte
de Aquiles.
Depois o dom da fala
escapa-lhe, e o mundo
arrasta-se,
de ira e desespero
contaminado.
Ao instante
entre a fala
do animal
e a mordaça
irremovível,
chamámos-lhe

um dia eternidade.


Luís Quintais

[Amadeu Baptista]

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4.11.15

Luís Quintais (Medo)





MEDO



Estratos assentam uns sobre outros.
São o vestígio submerso da tua vida.
Em certos momentos
um deslocamento, uma torção, uma força
que reconhecerás pelos efeitos, denuncia
a iminente ruína.

Consagra o que te resta do porvir
ao reforço desta casa.
Consagra-lhe a tua vigília e a tua aflição.
Consagra-lhe a inteligência do teu medo.


Luís Quintais

[Luz & sombra]

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3.4.15

Luís Quintais (Nuvens)





NUVENS



A metafísica será talvez
uma indisposição que se quer passageira.

Porém, eu continuo a inquietar-me
com as nuvens que são arrastadas,

violentamente arrastadas, na direcção sudeste,
filtrando a luz do sol em obsessiva correria.


Luís Quintais

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27.11.14

Luís Quintais (A criação do mundo)





A CRIAÇÃO DO MUNDO



Quando o meu olhar se cruza
com o desta mulher
que vem ver quem passa,
o que me fere...
não é a funda dor dos seus olhos,
a agonia do rosto que implode,
o corpo inchado,
por acção da senilidade bloqueado.

O que me fere
é a entropia dos objectos que a rodeiam:
as paredes amortalhadas
pela respiração de todos os dias,
o frigorífico com mais de trinta anos
coberto de uso, de ferrugem,
a jarra, o azul ardente das suas flores,

o cromático reverso, a criação do mundo.


Luís Quintais



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