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9.10.17

Marcos Tramón (Dez mandamentos)





DIEZ MANDAMIENTOS, SEGÚN LEY PROPIA



No creerás en Dios;
no creerás en nada, salvo en aquella luna oblicua que proyectaba,
 alargada y a un lado, vuestra sombra;
no creerás en las contradicciones: una opinión es un capricho,
la contraria, otro capricho
en un posterior momento;
no perteneces ni pertenecerás a nadie,
tan solo al olor de las calles en tu solitaria adolescencia;
nunca maldecirás contra estas calles, tuyas, que te recogen;
creerás que la mejor compañía será siempre estar solo;
nunca confiarás en un amigo que no tolere
que haya entre ambos largos periodos de silencio;
nunca negarás que tu ciudad y el invierno son los mejores estados de ánimo;
nunca olvidarás el sabor de aquel “hot dog” y el calor de la amistad,
mágica noche, en la Quinta Avenida;
dedicarás tu vida a leer y releer a Schopenhauer, quien, según Borges,
acaso descifró el universo.
Estos diez mandamientos se resumen en uno:
verás tu sombra caminar contigo, al tiempo
que verás en tu camino otros hombres y mujeres,
otras sombras.


Marcos Tramón





Não crerás em Deus;
não crerás em nada, salvo nessa lua que projectava
a vossa sombra;
não crerás nas contradições – uma opinião é um capricho,
a opinião contrária outro capricho
no momento seguinte;
não pertences nem pertencerás a ninguém,
só ao cheiro das ruas da tua solitária adolescência;
não maldirás nunca estas ruas, que são tuas e te recebem;
crerás que a melhor companhia será sempre estar sozinho;
não confiarás nunca em amigo que não tolere
longos silêncios entre ambos;
nunca negarás que o inverno e a tua cidade são os melhores estados de alma;
nunca olvidarás o sabor do ‘hot dog’ e o calor da amizade,
noite mágica, na Quinta Avenida;
dedicarás tua vida a ler e reler Schopenhauer, que, dizia Borges,
se calhar decifrou o universo.
Estes dez mandamentos resumem-se num:
verás tua sombra caminhar contigo, ao tempo
que verás em teu caminho outros homens e mulheres,
outras sombras.
  
(Trad. A.M.)

.


21.5.13

Marcos Tramón (Fugacidades)





FUGACIDADES



Noite de estrelas;
em tua mão, minha mão.
O infinito.

*

Houve um tumulto
de vida em meu redor.
Há só silêncio.

*

Passam os anos,
meu coração desnudo
guarda grinaldas.

*

É só tristeza,
estranheza de ser,
melancolia.

*

Fecho os olhos,
a luz do mundo em sombra
reaparece.

*

Chega o outono;
cai uma folha, leve,
sobre teu rosto.

*

À média luz,
tu, caprichosa e livre,
como uma lembrança.

*

Somos matéria
corrupta, nada mais,
feitos de tempo.

*

São duas amigas,
a brincar nas rosas
daquele jardim.

*

Feliz, a lua;
estamos sós eu e tu
no segredo.

*

Teus caracóis, ontem,
o Gianicolo; eterno
amor a Roma.

*

Um poema é isto:
exercício carregado
de solidão.


MARCOS TRAMÓN
Desgana
Gijón (2010)

(Trad. A.M.)

.

13.10.12

Marcos Tramón (Condenação)





CONDENAÇÃO


De mim?
De mim nada mais sei dizer do que
vi como o amor passava a meu lado,
e nada fiz nem disse.

O preço a pagar?
Uma condenação a solidão perpétua:
estás só
               e estarás só, só. 



MARCOS TRAMÓN
Desgana
Gijón (2010)

(Trad. A.M.)
.
 

3.3.12

Marcos Tramón (Cautela)






CAUTELA




Uma casa escrupulosamente limpa,
assim uma alegria predisposta.
Tranquilas e seguras as divisões,
quentes ainda do sol que deu nelas.
O dia quase sem luz, vão ficando
em claro-escuro os cantos da casa,
e estando como está tudo em silêncio,
uma primeira imagem dela te assalta.
Batem à porta, põe-te a salvo:
são lembranças.



MARCOS TRAMÓN
Desgana
Gijón (2010)


(Trad. A.M.)

.

2.1.12

Marcos Tramón (Perfis)






PERFIS




Há um ano era o sol,
a cair sobre ti, como aura
de um ouro cordial que distinguia
com sua luz essa imagem de teu rosto
aceso.


Fecho os olhos
– enquanto sinto nas pálpebras
o sopro da brisa e a manhã –
para poder contemplar esta outra imagem,
agora retida: o mar,
seu movimento rumoroso,
o ar em torno como cálido mar,
o perfil da ilha que se afasta.
Não sabemos que tempo
tardarão estes clarões
a confundir-se no escuro.
Há um ano possuía a aguarela
de teu corpo desenhado contra o céu;
hoje tenho apenas, sob um sol debilitado,
a metade de teu rosto ensombrada.


MARCOS TRAMÓN
Desgana
Gijón (2010)


(Trad. A.M.)

.

6.10.11

Marcos Tramón (Os passos da luz)






OS PASSOS DA LUZ

             (Riverside Park)


Os pássaros ao amanhecer
- seus trinados regulares, concentrando
a inaugurada luz da manhã
em claros intervalos de silêncio.
A moça loira, como de capa,
a ler, no seu canto, doravante,
para sempre, passando folhas e dias.
No vaivém do metro,
o tranquilo repouso do amor:
dormitam, e ele debulha os caracóis
dela, encolhida no seu regaço.
Os furiosos esforços da luz
para alcançar os cantos da sombra.
Moços e moças estendidos
junto à fonte, sumindo-se no tempo
sob a luz inclinada da tarde.
É quase a eternidade que se encontra aqui.
Cheguei ao repouso opulento destes bancos
onde a vida não parece passar,
e alguém observa a passagem
de belos rostos de mulheres que escapam,
irremediavelmente.
Esforça-te por reter tanta beleza
contra a luz, intacta;
esforça-te por reter tudo,
como se não estivesse tudo perdido de antemão.


MARCOS TRAMÓN
Desgana
Gijón (2010)

(Trad. A.M.)

.

15.8.11

Marcos Tramón (Atrás)






ATRÁS




Para trás ficaram os dias felizes,
os dias em que a vida,
cínica e poderosa,
nos declarava uma trégua.
E tu, antes tão vital,
agonizas agora lentamente.
Convertes-te, pouco a pouco,
numa recordação sem vida.



MARCOS TRAMÓN
Desgana
Gijón (2010)


(Trad. A.M.)

.

3.8.11

Marcos Tramón (Razão de vida)






RAZÃO DE VIDA




Não por teres
a vida toda pela frente.
Não por ser
mais fácil o abraço
outonal das mulheres.
Não por medo da morte
nem por temeres a velhice.
Nem sequer por sentires
a ameaça do amor a teu lado,
porque não amas ninguém.
Mas por isso tudo
– pela lúcida vertigem
de te sentires vivo –
que é parte da vida
de que tu és parte.



MARCOS TRAMÓN
Desgana
Gijón (2010)


(Trad. A.M.)




>>  Puentes de papel (José Luis Morante>nota a ‘Desgana’)



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