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25.5.21

Maria Teresa Horta (Tudo ou nada)



TUDO OU NADA

 

Com uma mão
dou-te tudo
com a outra descubro o nada 

uns dias sou
de veludo
outros de raiva vidrada 

Entre a escrita onde me digo
e na escrita 
onde me iludo 

há a escrita onde me escondo
e a outra 
de meu abrigo

Tendo a razão como escudo
na porfia do disfarce
eu escrevo a ventania

 pelo meio da tempestade

 
Maria Teresa Horta

.


27.1.17

Maria Teresa Horta (Poema)





POEMA



Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo tão voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo


Maria Teresa Horta




28.12.16

Maria Teresa Horta (Partir)





PARTIR



Não sei
se te deixei partir

Mas num segundo
já não estás na minha mão
nem à minha frente no papel

Ficando eu sem saber
quem eras
quando te encontrei

Se o retrato que de ti
tracei te é fiel

Ou se de tanto te inventar
eu te perdi, por entre
as florestas das histórias

Penumbras dos palácios
Pensamentos, poesias e diários
Oceanos e ventos

Pois nem sequer
percebo se por mim
te afastei ou te larguei

Se obstinada fugiste
ou te esqueci
Se a Torre onde te pus é de Babel

E dela partirás
para viver a única
paixão da tua vida

Não, nem sequer sei
qual foi o meu olhar
pousado em ti

Se com ele te espiei
te persegui
E no espelho onde te vias

Eu te olhei



Maria Teresa Horta



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29.11.16

Maria Teresa Horta (Silêncios da fala)





SILÊNCIOS DA FALA                       



São tantos
os silêncios da fala

De sede
De saliva
De suor

Silêncios de sílex
no corpo do silêncio

Silêncios de vento
de mar
e de torpor

De amor

Depois, há as jarras
com rosas de silêncio

Os gemidos
nas camas

As ancas
O sabor

O silêncio que posto
em cima do silêncio
usurpa do silêncio o seu magro labor


Maria Teresa Horta


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28.4.15

Maria Teresa Horta (Não contes)





Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar


Maria Teresa Horta

[Escritas]

.

15.2.14

Maria Teresa Horta (Caminho)






CAMINHO



Na boca as palavras
encontram-se
equilibram-se

deslizam na língua
são leite
ou saliva

Persistem resistem
objectos de mirra
com ancas de vidro
dunas perspectivas

são passos
caminhos

Poemas sensíveis

Na boca as palavras
adoecem
insistem

Razões obscuras
moles nas gengivas
rumores imprevistos

São docas antigas

Vaginas
ou quistos


Maria Teresa Horta

[Luz & sombra]

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4.4.10

Maria Teresa Horta (Joelho)






JOELHO




Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho


Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio


Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo


Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo


Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo


E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento


Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas


Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.



Maria Teresa Horta

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19.10.08

Maria Teresa Horta (Desperta)











DESPERTA




desperta-me
de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito



é rede a tua língua
em sua teia
é vicio as palavras
com que falas



a trégua
a entrega
o disfarce



e lembras os meus ombros
docemente
na dobra do lençol que desfazes



desperta-me de noite
com o teu corpo
tiras-me do sono
onde resvalo



e eu pouco a pouco
vou repelindo a noite
e tu dentro de mim
vais descobrindo vales




Maria Teresa Horta


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6.6.08

Maria Teresa Horta (Minha senhora de mim)


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MINHA SENHORA DE MIM




Comigo me desavim
minha senhora
de mim


sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço


Comigo me desavim
minha senhora
de mim


nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços


Comigo me desavim
minha senhora
de mim


recusando o que é desfeito
no interior do meu peito



Maria Teresa Horta
.
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12.8.07

Maria Teresa Horta (Morrer de amor)

(Graça Sarsfield)





Morrer de amor
ao pé da tua boca

Desfalecer
à pele
do sorriso

Sufocar
de prazer
com o teu corpo

Trocar tudo por ti
se for preciso



Maria Teresa Horta




Outros lugares: As Tormentas (43p+bio+fotos) / Mulheres Portuguesas (bio+4p+foto) / Jornal de Poesia (27p) / nEscritas (9p) / DGLB (bio+biblio)

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Antes, aqui: Masturbação



18.7.06

Maria Teresa Horta (Masturbação)






MASTURBAÇÃO




Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar
e logo tornam onde nesse
centro
os dedos esfregam - correm
e voltam sem cessar


e então são os meus
já os teus dedos
e são meus dedos
já a tua boca
que vai sorvendo os lábios
dessa boca
que manipulo - conduzo
pensando em tua boca


Ardência funda
planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde


E todo o corpo
é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde


E todo o corpo
é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios
que a febre toma
engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma



Maria Teresa Horta


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