Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Rodrigues Lobo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Rodrigues Lobo. Mostrar todas as mensagens

3.11.25

Francisco Rodriges Lobo (Se coubesse em meus versos)




Se coubesse em meus versos e em meu canto
a tristeza sem fim que o peito encerra,
moveria aos penedos desta serra
a nova piedade e novo espanto.

Se puderam meus olhos chorar tanto
quanto se deve à causa que os desterra,
cobriram já em lágrimas a terra,
escurecendo o seu tão verde manto.

Mas o que tem amor dentro encerrado
na alma, que à língua e olhos se defende,
não pode ser com lágrimas contado:

Ah! quem sabe sentir quanto compreende
que o mal que está oculto em meu cuidado
não se vê, não se mostra, não se entende.


Francisco Rodrigues Lobo

[Um reino maravilhoso]

 .

13.3.15

Francisco Rodrigues Lobo (Como passarei sem ponte?)





(Mote)

Vai o rio de monte a monte,
Como passarei sem ponte?



(Voltas)

É o vau mui arriscado,
só nele é certo o perigo;
O tempo como inimigo
tem-me o caminho tomado.
Num monte está meu cuidado,
e eu, posto aqui noutro monte,
como passarei sem ponte?

Tudo quanto a vista alcança
coberto de males vejo:
D'aquém fica meu desejo
e d'além minha esperança.
Esta, contínua, me cansa
porque está sempre defronte:
Como passarei sem ponte?


Francisco Rodrigues Lobo

[Poemas & poetas]

.

25.10.14

Francisco Rodrigues Lobo (Fermoso Tejo meu)





Fermoso Tejo meu, quão diferente
te vejo e vi, me vês agora e viste:
Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
claro te vi eu já, tu a mim contente.

A ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem teu largo campo não resiste;
A mim trocou-me a vista em que consiste
o meu viver contente ou descontente!

Já que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
que fôramos em tudo semelhantes!

Mas lá virá a fresca Primavera:
Tu tornarás a ser quem eras dantes,
eu não sei se serei quem dantes era.


Francisco Rodrigues Lobo

.

10.2.10

Francisco Rodrigues Lobo (Cantiga)






CANTIGA



                     Descalça vai para a fonte,
                     Leonor pela verdura;
                    Vai formosa, e não segura.



A talha leva pedrada,
Pucarinho de feição,
Saia de cor de limão,
Beatilha soqueixada;
Cantando de madrugada
Pisa as flores na verdura:
Vai formosa, e não segura.


Leva na mão a rodilha,
Feita da sua toalha;
Com uma sustenta a talha,
Ergue com outra a fraldilha;
Mostra os pés por maravilha,
Que a neve deixam escura:
Vai formosa, e não segura.


As flores, por onde passa,
Se o pé lhe acerta de pôr,
Ficam de inveja sem cor,
E de vergonha com graça;
Qualquer pegada que faça
Faz florescer a verdura:
Vai formosa, e não segura.


Não na ver o Sol lhe val
Por não ter novo inimigo,
Mas ela corre perigo
Se na fonte se vê tal;
Descuidada deste mal
Se vai ver na fonte pura:
Vai formosa, e não segura.



Francisco Rodrigues Lobo

.

19.3.07

Francisco Rodrigues Lobo (Coração)












Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...



Tão tirana e desigual
Sustentam sempre a vontade,
Que a quem lhes quer de verdade
Confessam que querem mal;
Se Amor para elas não val,
Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...



Se alguma tem afeição
Há-de ser a quem lha nega,
Porque nenhuma se entrega
Fora desta condição;
Não lhes queiras, coração,
E senão, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...



São tais, que é melhor partido
Para obrigá-las e tê-las,
Ir sempre fugindo delas,
Que andar por elas perdido;
E pois o tens conhecido,
Coração, que mais lhe queres?
Que, em fim, todas são mulheres!



Francisco Roíz Lobo



.