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3.4.26

Jaime Sabines (Tal como noite de bebedeira)



Igual que la noche de la embriaguez,
igual fue la vida.
¿Qué hice?, ¿que tengo entre las manos?
Sólo desear, desear, desear,
ir detrás de los sueños
igual que un perro ciego ladrándole a los ruidos.
 

Jaime Sabines

[Sureando] 

 

Tal como noite de bebedeira,
assim foi a vida.
O que fiz eu? O que tenho nas mãos?[
Desejar, desejar, só desejar,
ir a correr atrás dos sonhos
como um cachorro cego a ladrar aos barulhos.
 

(Trad.A.M.)

 .

7.2.25

Jaime Sabines (Reparti minha vida)




He repartido mi vida inútilmente entre el amor y el deseo,
la queja de la muerte, el lamento de la soledad.
Me aparté de los pensamientos profundos,
y he agredido a mi cuerpo con los excesos
y he ofendido a mi alma con la negación.

Me he sentido culpable de derrochar la vida
y no he querido quedarme en casa a atesorarla.
Tuve miedo del fuego y me incineré.
Amaba las páginas de un libro y corría a la calle a aturdirme.
Todo ha sido superficial y vacío.
No tuve odio sino amargura, nunca rencor sino desencanto.
Lo esperé todo de los hombres y todo lo obtuve.
Sólo de mí no he sacado nada: en esto me parezco a las tumbas.

¿Pude haber vivido de otro modo?
Si pudiera recomenzar, ¿lo haría?

Jaime Sabines



Reparti minha vida inutilmente entre o amor e o desejo,
a queixa da morte, o lamento da solidão.
Apartei-me dos pensamentos profundos,
agredi o meu corpo com os excessos,
ofendi a minha alma com a negação.

Senti-me culpado por desperdiçar a vida
e não quis ficar em casa a poupá-la.
Tive medo do fogo e incinerei-me.
Amava as páginas dum livro e corria para a rua
a aturdir-me.
Tudo foi vazio e superficial.
Não tive ódio, mas amargura, nunca rancor,
mas sim desencanto.
Esperei tudo dos homens, e tudo obtive.
Só de mim não tirei nada, e nisto me pareço
com as sepulturas.

Podia ter vivido de outro modo?
Se pudesse recomeçar, fá-lo-ia?

(Trad. A.M.)

.

11.7.24

Jaime Sabines (Minha vida reparti-a)


 


He repartido mi vida inútilmente entre el amor y el deseo, la queja
de la muerte, el lamento de la soledad. Me aparté de los pensamentos
profundos, y he agredido a mi cuerpo con los excesos y he ofendido a
mi alma con la negación. 

Me he sentido culpable de derrochar la vida y no he querido quedarme
en casa a atesorarla. Tuve miedo del fuego y me incineré. Amaba las
páginas de un libro y corría a la calle a aturdirme. Todo ha sido
superficial y vacío. No tuve odio sino amargura, nunca rencor sino
desencanto. Lo esperé todo de los hombres y todo lo obtuve. Sólo de mí
no he sacado nada: en esto me parezco a las tumbas. 

¿Pude haber vivido de otro modo? Si pudiera recomenzar, ¿lo haría?


Jaime Sabines

 

 

Minha vida reparti-a inutilmente entre o amor e o desejo, a queixa
da morte, o lamento da solidão. Apartei-me de pensamentos
profundos, castiguei o corpo com excessos, ofendi
a alma com a negação.

Senti-me culpado de malbaratar a vida, não quis ficar
em casa a poupá-la. Tive medo do fogo, ardi em cinzas. Amava
as páginas de um livro e corria a aturdir-me na rua. Tudo
superficial e vazio. Não tive ódio mas amargura, rancor nunca mas
desencanto. Esperei tudo dos homens e tudo tive. Só de mim
não tirei nada, nisso pareço um sepulcro.

Podia ter vivido de outro modo? E se pudesse recomeçar, fá-lo-ia?


(Trad. A.M.)

.

9.9.23

Jaime Sabines (Aquela é a sua janela)




Esa es su ventana.
Allí la espera el tiempo.
Tras el cristal su rostro
invisible, en silencio.
Me mira, ciega y dulce,
con los ojos abiertos.
La noche está a mi lado,
su ventana está lejos.
Alguien la busca a veces
vestida de negro,
joven madre del luto,
flor del viento.
Sus manos rezan
sobre su pecho.
Y ella, niña, me mira
con sus ojos viejos.
Y yo la busco
dulce, muerto.

Jaime Sabines

[Trianarts

 

Aquela é a sua janela,
ali mesmo a espera o tempo.
Por trás da vidraça seu rosto
invisível, em silêncio.
Olha para mim, cega e doce,
com os olhos abertos.
A noite está a meu lado,
a janela está longe.
Alguém a procura às vezes
vestida de negro,
mãe jovem do luto,
rosa do vento.
Suas mãos rezam,
postas no peito.
E ela, menina, olha para mim
com seus olhos velhos.
E eu a busco
doce, já morto.


(Trad. A.M.)


11.5.22

Jaime Sabines (Cobiçada, proibida- II)




COBIÇADA, PROIBIDA- II

 

Cobiçada, proibida,
tão perto que estás, feiticeira, um passo apenas.
Dás-te com os olhos a quem passa,
a quem te mira, madura, derramante,
a quem pede teu corpo como um caixão.
Jovem e maligna, virgem,
incendida, fechada,
estou-te vendo e amando,
teu sangue alvoroçado,
a cabeça girando e subindo,
o corpo horizontal sobre as uvas e o fumo.
És perfeita, desejada,
e eu amo-te a ti como a tua mãe, quando estais juntas.
Ela é bela ainda e tem
aquilo que tu não sabes.
Não sei mesmo qual prefiro,
quando ela te ajeita o vestido
e te larga para tu ires em busca do amor.


(Trad. A.M.)

 .

1.11.20

Jaime Sabines (Se eu tivesse de morrer)

 


Si hubiera de morir dentro de unos instantes, escribiría estas sabias palabras: árbol del pan y de la miel, ruibarbo, cocacola, zonite, cruz gamada. Y me echaría a llorar. 

Uno puede llorar hasta con la palabra «excusado» si tiene ganas de llorar.

 Y esto es lo que hoy me pasa. Estoy dispuesto a perder hasta las uñas, a sacarme los ojos y exprimirlos como limones sobre la taza de café. («Te convido a una taza de café con cascaritas de ojo, corazón mío»).

 Antes de que caiga sobre mi lengua el hielo del silencio, antes de que se raje mi garganta y mi corazón se desplome como una bolsa de cuero, quiero decirte, vida mía, lo agradecido que estoy, por este hígado estupendo que me dejó comer todas tus rosas, el día que entré a tu jardín oculto sin que nadie me viera.

 Lo recuerdo. Me llené el corazón de diamantes —que son estrellas caídas y envejecidas en el polvo de la tierra— y lo anduve sonando como una sonaja mientras reía. No tengo otro rencor que el que tengo, y eso porque pude nacer antes y no lo hiciste.

 No pongas el amor en mis manos como un pájaro muerto.

 

JAIME SABINES
Diario semanario y poemas en prosa
(1961)

[Poesi.as]

 

 

Se eu tivesse de morrer agora mesmo, escrevia estas palavras sábias: árvore do pão e do mel, ruibarbo, coca-cola, zonite, cruz gamada. E punha-me a chorar. 

Uma pessoa pode chorar até com a palavra "escusado", se tiver vontade de chorar. 

E é o que hoje me acontece a mim. Estou disposto a ficar até sem as unhas, a arrancar os olhos e espremê-los como limões na chávena de café. ('Convido-te, coração, para uma chávena de café com raspas de olho'). 

Antes que me caia na língua o gelo do silêncio, antes que me rache a garganta e o coração se desfaça como uma saca de couro, queria dizer-te, vida minha, como estou agradecido por este fígado estupendo, que me deixou comer as tuas rosas todas, no dia em que entrei sem ninguém me ver no teu jardim oculto. 

Lembro-me. Atulhei o coração de diamantes - que são estrelas caídas e envelhecidas no pó da terra – e andei por aí a tocá-lo e a divertir-me. Não tenho de rancor mais do que o que tenho, isto porque pude nascer antes, mas tu não.

 Não me ponhas o amor nas mãos como um pássaro morto.

 (Trad. A.M.)

.

 


5.1.19

Jaime Sabines (Sombra, não sei, a sombra)





SOMBRA, NO SÉ, LA SOMBRA
herida que me habita,
el eco.
(Soy el eco del grito que sería.)
Estatua de la luz hecha pedazos,
desmoronada en mí;
en mí la mía,
la soledad que invade paso a paso
mi voz, y lo que quiero, y lo que haría.
Éste que soy a veces,
sangre distinta,
misterio ajeno dentro de mi vida.
Éste que fui, prestado
a la eternidad,
cuando nací moría.
Surgió, surgí dentro del sol
al efímero viento
en que amanece el dia.
Hombre. No sé. Sombra de Dios
perdida.
Sobre el tiempo, sin Dios,
sombra, su sombra todavía.
Ciega, sin ojos, ciega,
- no busca a nadie,
espera -
camina.






SOMBRA, NÃO SEI, A SOMBRA
ferida que me habita,
o eco.
(Sou o eco do grito que seria).
Estátua de luz feita em bocados,
desmoronada em mim;
em mim a minha,
a solidão que passo a passo me invade
a voz, e o que quero, e o que faria.
Este que sou por vezes,
sangue diferente,
mistério alheio dentro da minha vida.
Este que fui, emprestado
à eternidade,
quando nasci morria.
Surgiu, surgi dentro do sol
ao vento efémero
do amanhecer.
Homem, sei lá, sombra de Deus
perdida.
Sobre o tempo, sem Deus,
sombra, sua sombra ainda.
Cega, sem olhos, cega
 – não busca ninguém,
espera – caminha.


(Trad. A.M.)

.

15.12.18

Jaime Sabines (Eis aqui que tu estás só)







EIS AQUI QUE TU ESTÁS SÓ E QUE EU ESTOU SÓ.
Fazes tua vida dia a dia e pensas
e eu penso e recordo e estou só.
À mesma hora lembramo-nos algo
e sofremo-nos. Somos como uma droga
tua e minha, percorrendo-nos uma loucura celular
e um sangue rebelde e sem descanso.
Este corpo só vai ficar-me em chaga, 
a carne me caindo troço a troço.
Lonjura e morte.
O estar corrosivo, o mal estar
morrendo é nossa morte.

Eu não sei onde tu estás, já esqueci mesmo
quem és, onde estás, como é que te chamas.
Eu sou só uma parte, um braço apenas,
apenas metade, um braço só.
Recordo-te nesta boca, e nas mãos.
Sei-te com as mãos, os olhos, a língua,
sabes a amor, a doce amor, a carne,
a semente, a flor, cheiras a amor, a ti,
cheiras a sal, sabes a sal, amor, e a mim.
   (...)

Jaime Sabines


.

18.3.18

Jaime Sabines (Da alegria)






DE LA ILUSIÓN



Escribiste en la tabla de mi corazón:
deseja.
Y yo anduve días y días
loco y aromado y triste.

Jaime Sabines




Escreveste-me na tábua do peito:
deseja.
E eu andei dias e dias
louco, fragrante e triste.

(Trad. A.M.)

.

16.6.17

Jaime Sabines (Se me deixasses)





Si me dejas arrancarte los ojos,
amor mío, me harías feliz.
Quisiera quemarte el corazón,
sellarte la memoria.
No quiero que me ames.
Quiero dejarte la boca para que me hables
y para que me beses.
Y todo lo demás de tu cuerpo,
que es delicioso.


Jaime Sabines






Se me deixasses, amor meu,
arrancar-te os olhos, fazias-me feliz.
Queria queimar-te o coração,
selar-te a memória.
Não quero que me ames.
Quero deixar-te a boca para falares
e me dares beijos.
E tudo o mais do teu corpo,
que é uma delícia.

(Trad. A.M.)


.

4.10.16

Jaime Sabines (A procissão do enterro)





A PROCISSÃO DO ENTERRO nas ruas da cidade é omino-
samente patética. Atrás do carro que leva o cadáver, vai
o autocarro, ou autocarros negros, com os doridos, familiares
e amigos. As duas ou três pessoas chorosas, realmente doridas,
são ultrajadas pelos cláxones vizinhos, pelos gritos dos
vendedores, pelos risos dos transeuntes, pela terrível
indiferença do mundo. A carreta avança, pára, acelera
de novo, e uma pessoa pensa que até os mortos têm de
respeitar os sinais de trânsito. É um enterro urbano, decente,
expedito. Não tem a solenidade nem a ternura do enterro de província.

Uma vez vi um camponês carregar nos ombros uma caixa
pequena e branca. Era uma menina, talvez filha. Atrás dele não ia
ninguém, nem sequer uma dessas vizinhas que deitam o xale pela
cabeça e se põem muito sérias, como se pensassem na morte.
O homem ia sozinho, pelo meio da rua, apertando o sombreiro
com uma das mãos sobre a caixa branca. Ao chegar ao centro da
povoação iam quatro carros atrás, quatro carros de desconhecidos
que não se tinham atrevido a ultrapassar.

É claro que não quero que me enterrem. Mas se algum dia tiver
que ser, é melhor enterrarem-me em casa, na cave, do que ir morto
por essas ruas de Deus sem ninguém me ligar. (...)


Jaime Sabines




.

4.9.16

Jaime Sabines (Não é que eu morra de amor)





NO ES QUE MUERA DE AMOR, MUERO DE TI.
Muero de ti, amor, de amor de ti,
de urgencia mía de mi piel de ti,
de mi alma de ti y de mi boca
y del insoportabie que yo soy sin ti.

Muero de ti y de mí, muero de ambos,
de nosotros, de ese,
desgarrado, partido,
me muero, te muero, lo morimos.

Morimos en mi cuarto en que estoy solo,
en mi cama en que faltas,
en la calle donde mi brazo va vacío,
en el cine y los parques, los tranvías,
los lugares donde mi hombro acostumbra tu cabeza
y mi mano tu mano
y todo yo te sé como yo mismo.
   (…)

 





NÃO É QUE EU MORRA DE AMOR, MORRO É DE TI.
Morro de ti, amor, de amor de ti,
de urgência minha da minha pele de ti,
da minha alma de ti e da boca
e do insuportável que eu sou sem ti.

Morro de ti e de mim, morro de ambos,
de nós dois e daquele,
partido, rasgado,
morro-me e morro-te, morremos.

Morremos em meu quarto onde estou só,
na minha cama onde faltas,
na rua onde meu braço vai vazio,
no cinema e nos parques, nos eléctricos,
nos lugares onde meu ombro te ampara a cabeça
e minha mão tua mão
e todo eu te sei como eu mesmo.
   (...)

(Trad. A.M.)


.

3.5.15

Jaime Sabines (Será que?)





Será que fazemos as coisas só para as recordar? Será
que vivemos só para ter lembrança do que vivemos?
Porque sucede que mesmo a esperança é memória e
o desejo recordação daquilo que há-de vir.
     (...)


Jaime Sabines

(Trad. A.M.)

.

15.1.15

Jaime Sabines (Encanta-me Deus)





Me encanta Dios. Es un viejo magnífico que no se toma en serio. A él le gusta jugar y juega, y a veces se le pasa la mano y nos rompe una pierna o nos aplasta definitivamente. Pero esto sucede porque es un poco cegatón y bastante torpe con las manos.
Nos ha enviado a algunos tipos excepcionales como Buda, o Cristo, o Mahoma, o mi tía Chofi, para que nos digan que nos portemos bien. Pero esto a él no le preocupa mucho: nos conoce. Sabe que el pez grande se traga al chico, que la lagartija grande se traga a la pequeña, que el hombre se traga al hombre. Y por eso inventó la muerte: para que la vida - no tú ni yo - la vida, sea para siempre.
Ahora los científicos salen con su teoría del Big Bang... Pero ¿qué importa si el universo se expande interminablemente o se contrae? Esto es asunto sólo para agencias de viajes.
A mi me encanta Dios. Ha puesto orden en las galaxias y distribuye bien el tránsito en el camino de las hormigas, y es tan juguetón y travieso que el otro día descubrí que ha hecho frente al ataque de los antibióticos con ¡bacterias mutantes!
Viejo sabio o niño explorador, cuando deja de jugar con sus soldaditos de plomo de carne y hueso, hace campos de flores o pinta el cielo de manera increíble.
Mueve una mano y hace el mar, y mueve la otra y hace el bosque. Y cuando pasa por encima de nosotros, quedan las nubes, pedazos de su aliento.
Dicen que a veces se enfurece y hace terremotos, y manda tormentas, caudales de fuego, vientos desatados, aguas alevosas, castigos y desastres. Pero esto es mentira. Es la tierra que cambia - y se agita y crece- cuando Dios se aleja.
Dios siempre está de buen humor. Por eso es el preferido de mis padres, el escogido de mis hijos, el más cercano de mis hermanos, la mujer mas amada, el perrito y la pulga, la piedra mas antigua, el pétalo mas tierno, el aroma más dulce, la noche insondable, el borboteo de luz, el manantial que soy.
A mi me gusta, a mi me encanta Dios. Que Dios bendiga a Dios.

Jaime Sabines



Encanta-me Deus. É um velho magnífico que não se leva a sério. Gosta de brincar e brinca e às vezes escapa-lhe a mão e parte-nos uma perna, ou esmaga-nos para sempre. Mas isto acontece porque é um bocado visgarolho e bastante canhestro de mãos.
Enviou-nos alguns sujeitos fora de série, como Buda, ou Cristo, ou Maomé, ou a minha tia Chofi, para nos dizerem que nos portemos bem. Mas isto a ele não o preocupa muito, já nos conhece. Sabe que o peixe grande come o pequeno, que a lagartixa grande come a pequena, que o homem come o homem. E por isso inventou a morte, para que a vida - não tu, nem eu - a vida, seja para sempre.
Agora os cientistas vêm com a teoria do Big Bang... Mas o que é que importa se o universo se expande interminavelmente ou se contrai? Isso é coisa só para agências de viagens.
A mim encanta-me Deus. Pôs ordem nas galáxias e distribui bem o trânsito no carreiro das formigas, e é tão travesso e brincalhão que noutro dia descobri que enfrentou o ataque dos antibióticos com bactérias mutantes!
Velho sábio ou criança exploradora, quando pára de brincar com os seus soldadinhos de chumbo de carne e osso, faz campos de flores ou então pinta o céu duma maneira incrível.
Mexe uma mão e faz o mar, mexe a outra e faz o bosque. E quando nos passa por cima ficam as nuvens, pedaços do bafo dele. Às vezes, dizem, enfurece-se e faz terramotos, manda tempestades, rios de fogo, ventos desatados, águas aleivosas, castigos e desastres. Mas é mentira, isso. É a terra que muda - e agita-se e cresce - quando Deus se afasta.
Deus está sempre de bom humor. Por isso é o preferido dos meus pais, o escolhido dos meus filhos, o mais próximo dos meus irmãos, a mulher mais amada, o canito e a pulga, a pedra mais antiga, a pétala mais tenra, o aroma mais doce, a noite insondável, o borbotar de luz, o manancial que eu sou.
A mim agrada-me, a mim encanta-me Deus. Que Deus o abençoe.

(Trad. A.M.)

.

24.9.13

Jaime Sabines (Espero curar-me de ti-2)





Espero curar-me de ti em alguns dias,
tenho de deixar de fumar-te, de beber, de te pensar.
Pode ser,
seguindo as prescrições da moral vigente,
a receita é tempo, abstinência, solidão.

Achas bem que deixe de te querer em uma semana?
Muito não é, nem pouco, é o bastante,
numa semana podem juntar-se todas as palavras de amor
já pronunciadas na terra,
e pegar-lhes fogo.
Hei-de aquecer-te nessa fogueira de amor queimado.
E no silêncio também,
porque as melhores palavras de amor
são as de duas pessoas que não se dizem nada.

É preciso queimar também a outra linguagem
de quem ama, lateral e subversiva.
(Tu sabes como eu digo que te quero, quando digo:
"mas que calor", "dá-me água", "sabes conduzir?", "é noite já".
Ao pé de pessoas, dos teus e dos meus, eu disse-te
"já é tarde", e tu sabias que eu dizia "amo-te").

Uma semana mais para juntar o amor todo do tempo;
e dar-to,
para tu fazeres dele o que quiseres,
guardá-lo, acariciá-lo, jogá-lo no lixo.
Não presta, está certo.
Quero só uma semana para ver se entendo as coisas,
porque isto parece-se muito com estar a sair
do manicómio para entrar no panteão.


Jaime Sabines

(Trad. A.M.)

.

25.7.13

Jaime Sabines (Quero-te)





TE QUIERO



Te quiero a las diez de la mañana, y a las once, y a las doce del día. Te quiero con toda mi alma y con todo mi cuerpo, a veces, en las tardes de lluvia. Pero a las dos de la tarde, o a las tres, cuando me pongo a pensar en nosotros dos, y tú piensas en la comida o en el trabajo diario, o en las diversiones que no tienes, me pongo a odiarte sordamente, con la mitad del odio que guardo para mí.

Luego vuelvo a quererte, cuando nos acostamos y siento que estás hecha para mí, que de algún modo me lo dicen tu rodilla y tu vientre, que mis manos me convencen de ello, y que no hay otro lugar en donde yo me venga, a donde yo vaya, mejor que tu cuerpo. Tú vienes toda entera a mi encuentro, y los dos desaparecemos un instante, nos metemos en la boca de Dios, hasta que yo te digo que tengo hambre o sueño.

Todos los días te quiero y te odio irremediablemente. Y hay días también, hay horas, en que no te conozco, en que me eres ajena como la mujer de otro. Me preocupan los hombres, me preocupo yo, me distraen mis penas. Es probable que no piense en ti durante mucho tiempo.

Ya ves. ¿Quién podría quererte menos que yo, amor mío?


JAIME SABINES
Diario semanario y poemas en prosa
( 1961)



Quero-te às dez da manhã, e às onze, e às doze do dia que seja. Quero-te com toda a minh’alma e todo o meu corpo, às vezes, em tardes de chuva. Mas às duas da tarde, ou às três, quando me ponho a pensar em nós dois, e tu pensas na comida ou no trabalho quotidiano, ou nas diversões que te faltam, então ponho-me a odiar-te em surdina, com a metade do ódio que guardo para mim.

Depois volto a querer-te, quando nos deitamos e eu sinto que tu foste feita para mim, que mo dizem de algum modo teu joelho e teu ventre, que de tal minhas mãos me convencem, e outro lugar não há melhor que teu corpo para eu ir ou vir. Inteira, tu vens ao meu encontro e por um instante desaparecemos os dois, metemo-nos na boca de Deus, até eu dizer que tenho sono ou fome.

Todos os dias te quero e te odeio sem remédio. E há dias também, há horas, em que nem te conheço, em que me és tão estranha como a mulher alheia. Preocupam-me os homens, preocupo-me eu mesmo, minhas penas me distraem. É provável que não pense em ti por muito tempo.

Estás a ver, quem é que poderia querer-te menos do que eu, amor meu?


(Trad. A.M.)

.



16.10.12

Jaime Sabines (Meio-dia na rua)





El mediodía en la calle, atropellando ángeles,
violento, desgarbado;
gentes envenenadas lentamente
por el trabajo, el aire, los motores;
árboles empeñados en recoger su sombra,
ríos domesticados, panteones y jardín
transmitiendo programas musicales.
¿Cuál hormiga soy yo de estas que piso?
¿qué palabras en vuelo me levantan?
"Lo mejor de la escuela es el recreo",
dice Judit y pienso:
¿cuándo la vida me dará un recreo?
¡Carajo! Estoy cansado. Necesito
morirme siquiera una semana.


Jaime Sabines

[El poeta ocasional]




Meio-dia na rua, atropelando anjos,
violento, sem jeito;
pessoas envenenadas lentamente
com o trabalho, os carros, o ar;
árvores empenhadas em recolher a sombra,
rios domesticados, jardim e panteões
a transmitirem programas musicais.
Que formiga sou eu destas que piso no chão?
Que palavras me erguem voando?
“O melhor da escola é o recreio”,
diz Judit e eu penso:
Quando me dará a vida um recreio?
Catano! Estou cansado, preciso
de morrer pelo menos uma semana.


(Trad. A.M.)

.

13.6.12

Jaime Sabines (Quebrado como um prato)







QUEBRADO COMO UN PLATO




Quebrado como un plato
quebrado de deseos, nostalgias, sueños
yo soy este que quiere a fulana el día trece de cada mes
y este que llora por la otra y por aquella
cada vez que las recuerda.
¡Qué deseo de hembras maduras y mujeres tiernas!
Mi brazo derecho quiere una cintura
y mi brazo izquierdo una cabeza.
Mi boca quiere morder y secar lágrimas.
Voy del placer a la ternura
en la casa del loco
encendiendo velas
y quemando mis dedos como copal
cantando con el pecho una rara canción obscura.
Estoy perdido y quebrado
y no tengo nada ni a nadie
ni puedo hablar ni sirve.
Solo puedo moverme en las horas
luminosas que caen las cenizas
y me dan mi colación
de piedras y sombras.


Jaime Sabines



[Poli del Amor]






Quebrado como um prato
quebrado de desejos, de saudades, de sonhos,
eu sou aquele que ama fulana a treze de cada mês
e que chora por esta e por aquela
de cada vez que as recorda,
Que fome de fêmeas maduras e de mulheres tenras!
Meu braço direito quer uma cintura
e meu braço esquerdo uma cabeça.
Minha boca quer morder e enxugar lágrimas.
Vou do prazer à ternura
em casa do louco
a acender velas
e queimar os dedos servindo de copal
a puxar do peito uma estranha canção.
Estou perdido e quebrado
não tenho nada nem ninguém
nem sequer consigo falar.
Só consigo mexer-me nas horas
luminosas em que caem as cinzas
e me dão meu repasto
de pedras e sombras.


(Trad. A.M.)

.

10.9.11

Jaime Sabines (Pétalas queimadas)






PÉTALOS QUEMADOS



Pétalos quemados,
viejo aroma que vuelve de repente,
un rostro amado, solo, entre las sombras,
algún cadaver de uno levantándose
del polvo, de alguna abandonada soledad
que estaba aquí en nosotros:
esta tarde tan triste, tan triste, tan triste.

Si te sacas los ojos y los lavas
en el agua purísima del llanto
¿por qué no el corazón
ponerlo al aire, al sol, un rato?


Jaime Sabines



[Poli del Amor]





Pétalas queimadas,
odor antigo que volta de repente,
um rosto amado, só, entre sombras,
um cadáver de alguém a erguer-se
do pó, de uma solidão abandonada
que estava em nós aqui,
esta tarde tão triste, tão triste, tão triste.

Se arrancamos os olhos e os lavamos
na água puríssima do pranto,
por que não o coração
pô-lo ao ar, um bocado, ao sol?


(Trad. A.M.)

.

1.8.11

Jaime Sabines (Teu nome)






TU NOMBRE




Trato de escribir en la oscuridad tu nombre.
Trato de escribir que te amo.
Trato de decir a oscuras esto.
No quiero que nadie se entere,
que nadie me mire a las tres de la mañana
paseando de un lado a otro de la estancia,
loco, lleno de ti, enamorado.
Iluminado, ciego, lleno de ti, derramándote.
Digo tu nombre con todo el silencio de la noche,
lo grita mi corazón amordazado.
Repito tu nombre, vuelvo a decirlo,
lo digo incansablemente,
y estoy seguro que habrá de amanecer.


Jaime Sabines



[Poli del Amor]







Procuro escrever no escuro teu nome.
Procuro escrever que te amo.
Procuro dizer isto às escuras.
Não quero que ninguém saiba,
ninguém me veja às três da manhã,
passeando no quarto de cá para lá,
louco, cheio de ti, apaixonado.
Cego, iluminado, cheio de ti, a transbordar.
Digo teu nome com todo o silêncio da noite,
grita-o meu coração amordaçado.
Repito teu nome, volto a dizê-lo,
digo-o incansavelmente,
e estou certo que há-de amanhecer.


(Trad. A.M.)

.